sexta-feira, 5 de junho de 2026

O JN, a fé dos boleiros, Antero Greco e Mauro Ramos de Oliveira. E a Nossa Senhora do Vestiário

O Jornal Nacional deste sábado (05/06/26) trouxe uma reportagem muito bem editada sobre a presença da fé no meio do futebol e sobre a fé dos atletas. Foi mais católica, aliás, bem católica romana, sem muita aproximação à fé evangélica, de qualquer tendência, hoje a dedicação pública (pública) de fé absoluta e quase unânime entre os 26 jogadores que estão na Copa do Mundo. Salvo engano, só o zagueiro e capitão Marquinhos e uns dois ou três que não revelam religião (Folha de SP), a boleirada é evangélica. Sutilmente, o JN levou ao ar segundos de profissão de fé umbandista, sem relação com os jogadores, o que não deixa de ser é importante. A família Marinho, desde Roberto e seus antecessores, é católica. Os evangélicos são da família do bispo Macedo e outros pastores da grana, não da grama que alimenta seu rebanho e atividade.

A demonstração da fé evangélica que os jogadores em geral promovem antes, durante e depois dos jogos, nas entrevistas antes e depois das vitórias, é bem conhecida de todos e, cá entre nós, bastante exagerada. Eles dizem, direta ou indiretamente, que o bom deus os favoreceu e ferrou os adversários. Mas deixa pra lá. Deus não não joga dados e não aposta nas bets. Não está nem aí para as rodinhas que se formam, todos ajoelhados e apontando o indicador para o céu, ao comemorar um gol. É sua fé evangélica, a ser respeitada. Por que apontar o indicador como nos bailinhos de carnaval de antigamente? Não sei.

Nunca vi atacante que perde um gol feito ou goleiro que toma um frango se ajoelhar na pequena área e apontar ao céu como se sua falha fosse vontade divina. Deus despreza os pernas de pau e os frangueiros.

Sei que o evangélico lateral Jorginho, campeão em 94, quando foi jogar na Alemanha, formou grupos de oração entre as famílias de jogadores, mas no clube não teve moleza. Adhemar, ex-São Caetano, que também jogou na Alemanha, também evangélico, ergueu a camisa de jogo e mostrou a camiseta que vestia por baixo com os dizeres "Deus é fiel", em alemão, ao marcar seu primeiro gol. Levou uma traulitada da diretoria e não repetiu o ato.

Até nosso Levir Culpi, pelo que sei, chegou a proibir manifestações religiosas em treinos e jogos, por entender que não se deve misturar as coisas. Levir foi a voz que clama no deserto. Ninguém mais dá bola. E é até bonito ver, nessa maré evangélica, o atacante Paulinho, hoje no Palmeiras, festejar seus gols com gestos de flechador em homenagem ao orixá Oxóssi, seu pai na fé umbandista. 

Há outros umbandistas, certamente, e foram muitos antigamente, como o lateral esquerdo Celso, do Clube Atlético Ferroviário, de Curitiba, seguidor e pai de santo. Claro que a torcida adversária o chamava de macumbeiro. 

Devemos lembrar que Jairzinho se ajoelhou e fez o sinal da cruz ao empatar o jogo do Brasil com a Checoslováquia, na Copa de 70, em que o Brasil, com mais um gol dele, de Rivelino e de Pelé, goleou e abriu o caminho do tri. O atacante checo, que fez o primeiro, se ajoelhou e fez o sinal de cruz antes. Foi manifestação de catolicismo num país, a Checoslováquia, comunistamente ateu. Jair, admitamos, plagiou. Foi o primeiro plágio religioso de comemoração futebolística, haha.

Temos liberdade religiosa garantida pela Constituição. Nos clubes, é assunto privado, mas sabemos que as manifestações são liberadas, o que é problema de cada atleta. Eu acho ridículo tantas graças a Deus, que não está nem aí para o ludopédio. Ele está mais preocupado, já disse alguém, em distribuir carros velhos nas periferias. 

E acrescento eu: em cuidar das vidas de homens, mulheres, crianças e velhos palestinos, congoleses, ucranianos, russos, iranianos...

Sei que, nos antigamentes, havia nos vestiários de todos os clubes, num pedestal intocável, uma imagem de Nossa Senhora, das várias que os católicos brasileiros veneram (Aparecida, a principal, e a de Fátima, de Lurdes, da Glória, a do Perpétuo Socorro, da igreja ao lado do estádio Couto Pereira, em Curitiba, e todas as demais). Naqueles tempos (a camisa azul de 58, bem mais tarde associada oportunisticamente como homenagem a Nossa Senhora Aparecida), o catolicismo era preponderante em todo o Brasil e em todos os clubes, com minoria dos jogadores evangélicos, e umbandistas como o nosso Celso, do Ferroviário, e hoje, com maioria evangélica, o palmeirense Paulinho - o que orgulha nossa ameaçada liberdade religiosa.

Pra encerrar. demorou, né? Lá vem o Antero Greco.

Meu amigo Antero Greco, formidável jornalista falecido há cerca de três anos (antes de chegar aos 70), com quem tive a honra de com ele trabalhar no Estadão e na Agência Estado, contava uma história bacana sobre Mauro Ramos de Oliveira (1930 - 2002), reserva de Bellini na Copa de 58 e titular (com Bellini na reserva) na Copa de 62, que jogou no São Paulo e no Santos, e encerrou carreira no México. Mauro teve curta carreira como técnico, cansou e se aposentou. O gigante Mauro - lembrava o Antero -, quando técnico, tinha certeira preleção no vestiário minutos depois de deixar seus jogadores à vontade.

Na hora H, Mauro entrava no vestiário, reunia seus pupilos e, sereno, encerrava:

--- Mijaram, cagaram, beijaram a Santa? Vamos pro campo.





sábado, 21 de fevereiro de 2026

Pra falar de futebol e lembrar da tia Tilinha de Ponta Grossa

 

Quando eu era muito novo, nem me lembro quanto e quando, sei que eram os anos 60, acompanhei meus pais e tios em duas ou três visitas a tios que moravam em Ponta Grossa, a 100 quilômetros de Curitiba.

Minha tia-avó, Donatila, a Tilinha, era irmã de meu avô materno, Deodato, ele casado com minha avó Aracy – ah, esses nomes antigos, que vocês não conhecem. Tilinha e Deodato eram negros. Meus avôs paternos, Manuel e Sara, eram espanhóis e eu não os conheci, só de fotos.

Tilinha era casada com meu tio Nestor (nome do sábio guerreiro da guerra de Troia), ferroviário de profissão. Ele trabalhava na Rede, a estatal de ferrovias de então. Era guarda trilhos ou coisa assim. Sei que era dos bons.

Eles moravam em casa de operários da Rede Ferroviária Federal na chamada então “cidade alta”, por suas desafiadoras subidas e descidas.

Tio Nestor morreu, tia Tilinha veio morar em Curitiba, foi acolhida pelos sobrinhos, meus tios, ou meus pais, casa aqui, casa ali, chegou a morar com a cunhada Aracy, e as duas quase se mataram de tanto brigar.

Quando tia Tilinha morreu, deixou aquela miséria de louças, roupas de mesa e cama, velharias e uma caixinha. O saque familiar se esqueceu da caixinha e eu, quase adolescente, abri o que me coube do butim.

O tesouro, o tesouro para mim que desde pequeno amo o futebol: tabelas, daquelas que as rádios distribuíam, com a relação dos jogos do campeonato paranaense, patrocinadas por marcas de café e outras. Era assim: longos retângulos de papel grosso, dobrado e redobrado, como as bulas de remédio de hoje, com as rodadas de todos os jogos do campeonato paranaense e o espaço para se preencher o resultado, nas datas marcadas, tipo Operário ... X ... Coritiba.

Eram tabelas de uns nove ou dez campeonatos paranaenses, todas preenchidas, jogo a jogo, resultado a resultado, com anotações à margem comentando resultados deste ou daquele jogo.

Recordo aqui o chamado caso Agapito, um jogador paraguaio registrado irregularmente pelo Coritiba que jogou numa semifinal contra o Operário, que levou no tapetão e foi à final, mas acabou derrotado na final pelo Cornélio Procópio. Foi em 1961, e Leocádio, do Operário, também estava irregular, mas isso foi pras calendas. Leocádio jogou depois no Coritiba e hoje, com 80 e tantos anos, é um dos maiores jogadores da história dos dois clubes.

Mas foi a caixinha da tia Tilinha e suas tabelas de jogos, minha herança que perdi numa de minhas mudanças, que me trouxeram à lembrança que por causa dela e do meu tio Nestor, operário ferroviário de Ponta Grossa, guardo imenso carinho por esse clube, o glorioso Operário Ferroviário que agora mandou pro poço da humilhação o meu glorioso Coritiba da minha infância e juventude no Alto Glória.

Perdeu o Coritiba nos pênaltis. O Operário Ferroviário vai à final do campeonato paranaense de 2026. Pode ser campeão estadual, enfim. Nunca foi. Tomara que seja.

Mas neste sábado, 21...

Fiquei puto, ao lado do meu filho assistindo à derrota humilhante no Alto da Glória, nos pênaltis.

Fiquei feliz porque me lembrei do calado tio Nestor e da amada tia Tilinha festejando a vitória do Operário naquela caixinha que em algum lugar numa tabelinha marca com sua letrinha na tabela o placar e o comentário “vitória”.

 

 

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Hino ao inominável

 Letra de Carlos Rennó

Música de Chico Bown e Pedro Luís

https://www.youtube.com/watch?v=OuQKqWIcF1U


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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

O neto do último ditador comete crimes nos EUA


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sábado, 19 de julho de 2025

Foi-se um dos gênios (gênios, gênios, são poucos) da publicidade brasileira

 Morreu nessa sexta-feira, em São Paulo, o publicitário e fundador da DPZ Roberto Duailibi. Ela estava com 89 anos. Graduou-se pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (que tinha outro nome na época) e, depois de passar pela house da Colgate-Palmolive e várias agências, juntou seus trocados e se uniu a Francesc Petit e José Zaragoza para fundar a DPZ. Havia outro sócio, Ronald Persichetti, fundador como os demais, porém, omitido no site da agência. Na internet, seu nome desaparece diante da morte do outro fundador. Bem, pelo nome DPZ, deveria ser um especialista da área estratégica. O P da DPZ deveria se confundir com o P de Petit, algo assim. Fico devendo. 

Conheci em Campo Grande (MS) o mano de Roberto, que tinha um belíssimo e caríssimo bar no centro da cidade. Era 1985, ano em que montei e trabalhei por quatro meses na sucursal de Veja (fechada logo depois que voltei a Curitiba fechada por obra e graça de meu sucessor, que pegou um jabá e viajou pra Europa sem consultar a sede e acabou demitido). Não me lembro do


primeiro nome do Duiailib (o i foi acresentado por Roberto em São Paulo) botequeiro, mas era gente finíssima, cultíssimo para aquela cidade de chapeludos que semeava o agro. Meu salário não dava para aquele maravilhoso boteco, ponto.

Mas o que quero dizer é que a morte de Roberto Duailibi mereceu, mesmo, dezenas de minutos no noticiário da Globo (imagino que nas demais redes também). Porém, a Globo, em sua ânsia em puxar o saco de quem lhe dá dinheiro, só citou os sócios de Roberto Dualibi, omitindo mais informações do P e do Z da maravilhosa DPZ.

Eles são Francesc Petit (Barcelona , 1934 - São Paulo, 2013) e José Zaragoza (Alicante, 1930 - São Paulo, 2017). Esses dois espanhóis eram craques em publicidade e, mais, eram notáveis artistas plásticos. Expuseram e venderam muitas obras. Sabiam como pouquíssimos entender a imagem de que seus clientes precisavam.

A DPZ contratou, formou e liberou seus criativos, em texto e imagem, e revolucionou a publicidade brasileira. Washington Olivetto e Nizan Guanaes, entre outros craques, continuaram o legado do trio.

E daí? Daí que o noticiário da morte de Roberto Duailibi não contou quem foram seus sócios. Francesc Petit e José Zaragoza eram tão geniais como ele. É como se falar de Pelé e não de Coutinho ou Toninho.

Agora o terceiro sócio está morto. Roberto Dualibi foi um mestre. Mas Francesc Peti e José Zaragoza também foram. Os pais da DPZ estão mortos.

Importante: me parece que o trio DPZ exerceu a publicidade com ética, algo complicado neste meio. Você sabe do que falo. Vender, vender, vender. Ao que me parece, venderam bem, e venderam com muito humor. 

A DPZ fez escola.

É das antigas. Nada a ver com o que vemos, ouvimos e sentimos. E compramos.


sexta-feira, 18 de julho de 2025

O que e a justiça?

 

“Mataste um homem, espantou-se o primeiro cego,
Sim, o que mandava do outro lado, espetei-lhe uma tesoura na garganta.
Mataste para vingar‑nos, para vingar as mulheres tinha de ser uma mulher, disse a rapariga dos óculos escuros, e a vingança, sendo justa, é coisa humana, se a vítima não tiver um direito sobre o carrasco, então não haverá justiça.”


Em Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Até os Faria Limers estão arrepiados com o comportamento ostrogodo do Congresso


            


            Tá no Estadão de hoje, ora pois.

“Em que pese o Executivo ter errado na condução das propostas de majoração do IOF, nada justifica o Poder Legislativo agir como arruaceiro do processo orçamentário e fiscal em desalinho ao que a sociedade dele espera.”

Crítica do executivo-chefe da Warren Investimentos, Felipe Salto, ou, se preferir, “importante voz do Mercado”.

Salto foi auxiliar de José Serra e secretário da Fazenda de São Paulo.

Seu escritório fica no Alto de Pinheiros, no Faria Lima Plaza.