Quando eu era muito novo, nem me lembro quanto e
quando, sei que eram os anos 60, acompanhei meus pais e tios em duas ou três
visitas a tios que moravam em Ponta Grossa, a 100 quilômetros de Curitiba.
Minha tia-avó, Donatila, a Tilinha, era irmã de meu
avô materno, Deodato, ele casado com minha avó Aracy – ah, esses nomes antigos,
que vocês não conhecem. Tilinha e Deodato eram negros. Meus avôs paternos,
Manuel e Sara, eram espanhóis e eu não os conheci, só de fotos.
Tilinha era casada com meu tio Nestor (nome do sábio
guerreiro da guerra de Troia), ferroviário de profissão. Ele trabalhava na
Rede, a estatal de ferrovias de então. Era guarda trilhos ou coisa assim. Sei
que era dos bons.
Eles moravam em casa de operários da Rede Ferroviária
Federal na chamada então “cidade alta”, por suas desafiadoras subidas e
descidas.
Tio Nestor morreu, tia Tilinha veio morar em Curitiba,
foi acolhida pelos sobrinhos, meus tios, ou meus pais, casa aqui, casa ali, chegou
a morar com a cunhada Aracy, e as duas quase se mataram de tanto brigar.
Quando tia Tilinha morreu, deixou aquela miséria de
louças, roupas de mesa e cama, velharias e uma caixinha. O saque familiar se
esqueceu da caixinha e eu, quase adolescente, abri o que me coube do butim.
O tesouro, o tesouro para mim que desde pequeno amo o
futebol: tabelas, daquelas que as rádios distribuíam, com a relação dos jogos
do campeonato paranaense, patrocinadas por marcas de café e outras. Era assim: longos
retângulos de papel grosso, dobrado e redobrado, como as bulas de remédio de
hoje, com as rodadas de todos os jogos do campeonato paranaense e o espaço para
se preencher o resultado, nas datas marcadas, tipo Operário ... X ... Coritiba.
Eram tabelas de uns nove ou dez campeonatos
paranaenses, todas preenchidas, jogo a jogo, resultado a resultado, com
anotações à margem comentando resultados deste ou daquele jogo.
Recordo aqui o chamado caso Agapito, um jogador
paraguaio registrado irregularmente pelo Coritiba que jogou numa semifinal
contra o Operário, que levou no tapetão e foi à final, mas acabou derrotado na
final pelo Cornélio Procópio. Foi em 1961, e Leocádio, do Operário, também
estava irregular, mas isso foi pras calendas. Leocádio jogou depois no Coritiba
e hoje, com 80 e tantos anos, é um dos maiores jogadores da história dos dois
clubes.
Mas foi a caixinha da tia Tilinha e suas tabelas de
jogos, minha herança que perdi numa de minhas mudanças, que me trouxeram à lembrança
que por causa dela e do meu tio Nestor, operário ferroviário de Ponta Grossa, guardo
imenso carinho por esse clube, o glorioso Operário Ferroviário que agora mandou
pro poço da humilhação o meu glorioso Coritiba da minha infância e juventude no
Alto Glória.
Perdeu o Coritiba nos pênaltis. O Operário Ferroviário
vai à final do campeonato paranaense de 2026. Pode ser campeão estadual, enfim. Nunca foi. Tomara que seja.
Mas neste sábado, 21...
Fiquei puto, ao lado do meu filho assistindo à derrota
humilhante no Alto da Glória, nos pênaltis.
Fiquei feliz porque me lembrei do calado tio Nestor e da amada tia Tilinha festejando a
vitória do Operário naquela caixinha que em algum lugar numa tabelinha marca com
sua letrinha na tabela o placar e o comentário “vitória”.


