sábado, 21 de fevereiro de 2026

Pra falar de futebol e lembrar da tia Tilinha de Ponta Grossa

 

Quando eu era muito novo, nem me lembro quanto e quando, sei que eram os anos 60, acompanhei meus pais e tios em duas ou três visitas a tios que moravam em Ponta Grossa, a 100 quilômetros de Curitiba.

Minha tia-avó, Donatila, a Tilinha, era irmã de meu avô materno, Deodato, ele casado com minha avó Aracy – ah, esses nomes antigos, que vocês não conhecem. Tilinha e Deodato eram negros. Meus avôs paternos, Manuel e Sara, eram espanhóis e eu não os conheci, só de fotos.

Tilinha era casada com meu tio Nestor (nome do sábio guerreiro da guerra de Troia), ferroviário de profissão. Ele trabalhava na Rede, a estatal de ferrovias de então. Era guarda trilhos ou coisa assim. Sei que era dos bons.

Eles moravam em casa de operários da Rede Ferroviária Federal na chamada então “cidade alta”, por suas desafiadoras subidas e descidas.

Tio Nestor morreu, tia Tilinha veio morar em Curitiba, foi acolhida pelos sobrinhos, meus tios, ou meus pais, casa aqui, casa ali, chegou a morar com a cunhada Aracy, e as duas quase se mataram de tanto brigar.

Quando tia Tilinha morreu, deixou aquela miséria de louças, roupas de mesa e cama, velharias e uma caixinha. O saque familiar se esqueceu da caixinha e eu, quase adolescente, abri o que me coube do butim.

O tesouro, o tesouro para mim que desde pequeno amo o futebol: tabelas, daquelas que as rádios distribuíam, com a relação dos jogos do campeonato paranaense, patrocinadas por marcas de café e outras. Era assim: longos retângulos de papel grosso, dobrado e redobrado, como as bulas de remédio de hoje, com as rodadas de todos os jogos do campeonato paranaense e o espaço para se preencher o resultado, nas datas marcadas, tipo Operário ... X ... Coritiba.

Eram tabelas de uns nove ou dez campeonatos paranaenses, todas preenchidas, jogo a jogo, resultado a resultado, com anotações à margem comentando resultados deste ou daquele jogo.

Recordo aqui o chamado caso Agapito, um jogador paraguaio registrado irregularmente pelo Coritiba que jogou numa semifinal contra o Operário, que levou no tapetão e foi à final, mas acabou derrotado na final pelo Cornélio Procópio. Foi em 1961, e Leocádio, do Operário, também estava irregular, mas isso foi pras calendas. Leocádio jogou depois no Coritiba e hoje, com 80 e tantos anos, é um dos maiores jogadores da história dos dois clubes.

Mas foi a caixinha da tia Tilinha e suas tabelas de jogos, minha herança que perdi numa de minhas mudanças, que me trouxeram à lembrança que por causa dela e do meu tio Nestor, operário ferroviário de Ponta Grossa, guardo imenso carinho por esse clube, o glorioso Operário Ferroviário que agora mandou pro poço da humilhação o meu glorioso Coritiba da minha infância e juventude no Alto Glória.

Perdeu o Coritiba nos pênaltis. O Operário Ferroviário vai à final do campeonato paranaense de 2026. Pode ser campeão estadual, enfim. Nunca foi. Tomara que seja.

Mas neste sábado, 21...

Fiquei puto, ao lado do meu filho assistindo à derrota humilhante no Alto da Glória, nos pênaltis.

Fiquei feliz porque me lembrei do calado tio Nestor e da amada tia Tilinha festejando a vitória do Operário naquela caixinha que em algum lugar numa tabelinha marca com sua letrinha na tabela o placar e o comentário “vitória”.