O Jornal Nacional deste sábado (05/06/26) trouxe uma reportagem muito bem editada sobre a presença da fé no meio do futebol e sobre a fé dos atletas. Foi mais católica, aliás, bem católica romana, sem muita aproximação à fé evangélica, de qualquer tendência, hoje a dedicação pública (pública) de fé absoluta e quase unânime entre os 26 jogadores que estão na Copa do Mundo. Salvo engano, só o zagueiro e capitão Marquinhos e uns dois ou três que não revelam religião (Folha de SP), a boleirada é evangélica. Sutilmente, o JN levou ao ar segundos de profissão de fé umbandista, sem relação com os jogadores, o que não deixa de ser é importante. A família Marinho, desde Roberto e seus antecessores, é católica. Os evangélicos são da família do bispo Macedo e outros pastores da grana, não da grama que alimenta seu rebanho e atividade.
A demonstração da fé evangélica que os jogadores em geral promovem antes, durante e depois dos jogos, nas entrevistas antes e depois das vitórias, é bem conhecida de todos e, cá entre nós, bastante exagerada. Eles dizem, direta ou indiretamente, que o bom deus os favoreceu e ferrou os adversários. Mas deixa pra lá. Deus não não joga dados e não aposta nas bets. Não está nem aí para as rodinhas que se formam, todos ajoelhados e apontando o indicador para o céu, ao comemorar um gol. É sua fé evangélica, a ser respeitada. Por que apontar o indicador como nos bailinhos de carnaval de antigamente? Não sei.
Nunca vi atacante que perde um gol feito ou goleiro que toma um frango se ajoelhar na pequena área e apontar ao céu como se sua falha fosse vontade divina. Deus despreza os pernas de pau e os frangueiros.
Sei que o evangélico lateral Jorginho, campeão em 94, quando foi jogar na Alemanha, formou grupos de oração entre as famílias de jogadores, mas no clube não teve moleza. Adhemar, ex-São Caetano, que também jogou na Alemanha, também evangélico, ergueu a camisa de jogo e mostrou a camiseta que vestia por baixo com os dizeres "Deus é fiel", em alemão, ao marcar seu primeiro gol. Levou uma traulitada da diretoria e não repetiu o ato.
Até nosso Levir Culpi, pelo que sei, chegou a proibir manifestações religiosas em treinos e jogos, por entender que não se deve misturar as coisas. Levir foi a voz que clama no deserto. Ninguém mais dá bola. E é até bonito ver, nessa maré evangélica, o atacante Paulinho, hoje no Palmeiras, festejar seus gols com gestos de flechador em homenagem ao orixá Oxóssi, seu pai na fé umbandista.
Há outros umbandistas, certamente, e foram muitos antigamente, como o lateral esquerdo Celso, do Clube Atlético Ferroviário, de Curitiba, seguidor e pai de santo. Claro que a torcida adversária o chamava de macumbeiro.
Devemos lembrar que Jairzinho se ajoelhou e fez o sinal da cruz ao empatar o jogo do Brasil com a Checoslováquia, na Copa de 70, em que o Brasil, com mais um gol dele, de Rivelino e de Pelé, goleou e abriu o caminho do tri. O atacante checo, que fez o primeiro, se ajoelhou e fez o sinal de cruz antes. Foi manifestação de catolicismo num país, a Checoslováquia, comunistamente ateu. Jair, admitamos, plagiou. Foi o primeiro plágio religioso de comemoração futebolística, haha.
Temos liberdade religiosa garantida pela Constituição. Nos clubes, é assunto privado, mas sabemos que as manifestações são liberadas, o que é problema de cada atleta. Eu acho ridículo tantas graças a Deus, que não está nem aí para o ludopédio. Ele está mais preocupado, já disse alguém, em distribuir carros velhos nas periferias.
E acrescento eu: em cuidar das vidas de homens, mulheres, crianças e velhos palestinos, congoleses, ucranianos, russos, iranianos...
Sei que, nos antigamentes, havia nos vestiários de todos os clubes, num pedestal intocável, uma imagem de Nossa Senhora, das várias que os católicos brasileiros veneram (Aparecida, a principal, e a de Fátima, de Lurdes, da Glória, a do Perpétuo Socorro, da igreja ao lado do estádio Couto Pereira, em Curitiba, e todas as demais). Naqueles tempos (a camisa azul de 58, bem mais tarde associada oportunisticamente como homenagem a Nossa Senhora Aparecida), o catolicismo era preponderante em todo o Brasil e em todos os clubes, com minoria dos jogadores evangélicos, e umbandistas como o nosso Celso, do Ferroviário, e hoje, com maioria evangélica, o palmeirense Paulinho - o que orgulha nossa ameaçada liberdade religiosa.
Pra encerrar. demorou, né? Lá vem o Antero Greco.
Meu amigo Antero Greco, formidável jornalista falecido há cerca de três anos (antes de chegar aos 70), com quem tive a honra de com ele trabalhar no Estadão e na Agência Estado, contava uma história bacana sobre Mauro Ramos de Oliveira (1930 - 2002), reserva de Bellini na Copa de 58 e titular (com Bellini na reserva) na Copa de 62, que jogou no São Paulo e no Santos, e encerrou carreira no México. Mauro teve curta carreira como técnico, cansou e se aposentou. O gigante Mauro - lembrava o Antero -, quando técnico, tinha certeira preleção no vestiário minutos depois de deixar seus jogadores à vontade.
Na hora H, Mauro entrava no vestiário, reunia seus pupilos e, sereno, encerrava:
--- Mijaram, cagaram, beijaram a Santa? Vamos pro campo.
