segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A incrível máquina do tempo

Divagando & Katilografando

Num vôo tranquilo e preguiçoso, eu havia acabado de passar por sobre o aeroporto de nossa cidade, rumando em direção sudeste do nosso município, a vegetação composta de árvores retorcidas dava o tom e a cor do nosso cerrado conquistense. A brisa morna batia suavemente no meu rosto, meus cabelos longos, por vezes chicoteavam-me os ombros e pescoço, e a mesma brisa deslizava por todo o meu corpo, dando a sustentação que me tornava leve para que, o prazer de voar livre me fizesse sentir como se asas eu as tivesse, o sonho de Ícaro em mim se realizava.
De repente, daquele instante de experimentada monotonia, eu passei a sobrevoar um lindo vale, lá embaixo, corria um regato e, na parte mais larga do vale formava uma lagoa rodeada de tabua, ladeando o pequeno ribeirão, havia uma alameda de eucaliptos, na parte mais elevada, uma pequena colina, estava uma casa com um lindo pomar, suavemente, baixei um pouco a minha altitude, fiz um vôo de reconhecimento sobre a casa e o pomar. Muitas eram as mangueiras, abacateiros, bananeiras, goiabeiras e uma extensa horta; havia algumas pessoas lá embaixo que trabalhavam e acenavam para mim, mais adiante, um grande pasto verdejante, nele, algumas “cabeças de gado” pastavam, voltei a minha atenção para os eucaliptos, sobre eles, fiz um vôo com máxima atenção, observava que o mais alto deles media aproximadamente uns quinze metros de altura, era bem reto e elegante, o seu tronco era de cor acinzentada, suas folhas eram de um verde brilhante sem igual, resolvi descer para, desta forma, eu vê-lo de baixo para cima.
De repente, eu comecei a rodar descontroladamente, o mundo rodava, não, era a minha cama que estava rodando, o barulho que vinha de fora invadiu o meu sonho! Eu estava sonhando? – É verdade, eu estava sonhando sim! Aquele sonho maravilhoso que, novamente estava se repetindo e, fui abruptamente despertado por um barulho que vinha da rua. O barulho era o de um Terno de Reis que estava na nossa porta cantando a sua preliminar para, depois ser aceito pelo dono da casa. Painho havia saltado da cama num pulo, correu para a sala e Mãe Guiomar (minha mãe adotiva) praguejava, enquanto ela dizia poucas e boas ao meu pai para que ele não abrisse a porta, painho afastava as cadeiras sofás e mesas para, assim, receber o Santo Reis. Confesso que eu detestava ser despertado enquanto eu sonhava que estava voando, este era um sonho que, se pudesse, dele eu não acordaria jamais; paciência, o meu mundo continuava rodando, naquele instante eu nem sabia que dia e hora era.
Ah! Acabei de me lembrar, ontem era dia trinta e um de dezembro, quando eu saí da gráfica onde eu trabalho (trabalho na Gráfica Marajó), passei na Praça Nove de Novembro, e comprei umas revistinhas usadas na mão do Jailton que as expõe no Monumento atrás da Tabacaria, gastei Cr$ 3,50 (três cruzeiros e cinqüenta centavos), então, hoje e essa barulheira toda é dia 01 de janeiro de 1973. Tateei no escuro, procurando na cabeceira da minha cama a “pêra” que liga a luz, com certa dificuldade, aliás, com enorme dificuldade, eu ainda não encontrei a “pêra”, ou melhor, eu não encontrei a cabeceira da cama! Meu Deus! O que foi que me aconteceu? Calma, penso que eu mudei de posição na cama, com os pés bem esticados tento confirmar o que eu acabo de pensar; é isso mesmo! Estou com a cabeça para os pés da cama. Pronto, agora eu encontrei a “pêra” e a luz se acende! Puxa vida, os “reiseiros” já estão terminando lá fora! Daqui a pouco eles vão entrar. Eu gosto de Terno de Reis, mas, o chato é que nem sempre eles vêm na hora combinada; Mãe Guiomar, não gosta deles em nenhuma hora, ela os acha uns chatos de “ponta de rua” e também uns “Pés de Cachorro” (qualquer hora dessas, eu vou procurar a concordância nominal do termo, ela sempre fala sem o plural).
Pois bem, eles cantaram, brincaram, beberam comeram e se foram, com eles também se foi o meu sono. Agora estou ouvindo lá longe, talvez nalguma casa na Rua Honorina Andrade, ou quem sabe, na casa do seu Antonio Peçanha, alguém tocando em uma radiola uma canção do Roberto Carlos, é uma música linda, o professor Nery disse que essa música teria sido vencedora no Festival de Sanremo de 1968, sei que eu gosto dela, “Canzone Per Te”, eu não sei se este é o título dessa música, aliás, poucas são as músicas que eu sei o título, afinal, que me importa? O silêncio agora reina e o meu sono teima em não voltar, acho que vou ler uma das revistinhas. Sempre foram elas que embalaram os meus sonhos, talvez eu volte a pegar no sono, afinal, eu mereço; este ano de 1972 foi o único ano em que eu não fiquei para segunda época, agora eu vou cursar o primeiro ano de contabilidade, estou de férias! Ademais, ainda hoje terei que acordar mais cedo para, como nos anos anteriores, também, para assistir à matinal que desde que me entendo por gente, os cinemas da cidade faz essa sessão “grátis” (palavra mágica), portanto, eu não posso perder. O Cine Glória me espera.
Na cômoda ao lado da minha cama estão as dez revistinhas compradas ontem, vou escolher uma e vou ler. Engraçado, neste pacote de revistinhas compradas têm algumas que eu não compraria. A TEX e a revistinha do “Fantasma” me foram empurradas no pacote, eu não vejo graça na leitura destas revistas, e eu já tentei várias vezes lê-las em outras oportunidades em que me faltavam revistas e, jamais terminei a leitura de qualquer delas; nem tudo está perdido, afinal, veio no pacote de revistas, as do Tio Patinhas, Almanaque do Pato Donald, Almanaque do Mickei, Riquinho, Mortadelo e Salaminho, Zé Carioca, também entre elas, a do Conde Drácula (nessa hora da noite me dá arrepios) e do Professor Pardal.
A revistinha do professor Pardal para mim, sempre foi uma das minhas preferidas; ele é um maluco fantástico, eu sempre viajo nas suas “viagens”. E como viajar é meu sonho que até os dias atuais, mesmo em sonho eu não consigo realizar, nelas eu me realizo... Continua na próxima crônica.

Francisco Silva Filho – Curitiba-PR

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Morreu o dr. Abdo Aref Kudry

Quem herdará aquela vaga "de estacionamento" desenhada na calçada em frente ao Diarinho, ali na Rua XV, onde ele acintosamente deixava seu Jaguar?
Até nisso Abdo Kudry era temido.
Foram-se Chico Beleza, João Milanez, Abdo Kudry.
Paulo Pimentel é o último representante do baronato de uma imprensa que não tinha função social nenhuma, negociava proteção, mordia e assoprava, bajulava e atacava, mostrava e escondia, alternava lamentáveis e belos momentos de um jornalismo que anda cada vez mais cada vez.
Abdo Kudry, o poderoso chefão do sindicato dos patrões, tem, porém, algumas belas linhas em sua biografia: ter cedido redação, máquinas e papel para fazer o jornal da greve dos jornalistas nos anos 60. Belo e inesquecível gesto.
Ao que consta, não deixou Abdinhos.
Tomara que o Diarinho não feche.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O Sindicalismo e o Consenso de Washington

Divagando & Katilografando

As voltas que o mundo deu desde 1989, ano em que John Williamson criou a cartilha chamada de Consenso de Washington, foram suficientes para aniquilar um movimento que, era o “fundo moral” garantidor das conquistas obtidas pelo trabalhador brasileiro. O sindicalismo nacional era na realidade – assim eu comparo – o nosso “supremo tribunal”, aquele que vela pela nossa CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas, assim como, o verdadeiro Supremo Tribunal é o guardião da nossa Constituição.
O Consenso de Washington desde a sua criação foi um tsunami na vida dos países emergentes, e, os trabalhadores foram essencialmente as vítimas dessa “Carta de Washington”, onde, o Brasil foi um signatário da mesma sem sequer abrir uma página para ver se nós poderíamos ou não seguir os seus preceitos; assinou-a no escuro. O referido “consenso” por seu criador quis significar "o mínimo denominador comum de recomendações de políticas econômicas que estavam sendo cogitadas pelas instituições financeiras baseadas em Washington D.C. que deveriam ser aplicadas nos países da América Latina, tais como eram suas economias em 1989." A partir de então, a “cartilha” foi usada pelos governantes com um único objetivo que era o de abrigar as políticas chamadas neoliberais que assim as justificassem; todavia o seu criador Williamson disse jamais concordou.
O tal “consenso” ou Carta de Washington trazia dez regras básicas a serem implementadas nos países à época chamados de “subdesenvolvidos”. As regras que se fizeram clássicas foram: Disciplina fiscal; Redução de gastos públicos; Reforma tributária; Juros de mercados; Câmbio de mercado; Abertura comercial; Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições; Privatização das estatais; Desregulamentação – essa significa afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas; e Direito a propriedade intelectual. A Argentina na América do Sul foi a sua primeira e fiel seguidora, e por isso, pagou caro; quebrou pelo menos três vezes em período compreendido à sua adesão desde 1989 a 2004.
O nosso sindicalismo, a reboque dos acontecimentos da nossa adesão, viu a Força Sindical que foi cooptada pelos interesses das volumosas contribuições estatais para defender o projeto que era o de privatização. Das dez regras, as que mais foram e continuam sendo colocadas em prática são as que privatizam e desregulamentam as leis econômicas e trabalhistas. As leis trabalhistas por suas flexibilizações – principal objetivo da “Carta de Washington” – tem trazido aos trabalhadores, bem como, aos sindicatos de classes uma total confusão. Aos trabalhadores uma total insegurança; aos sindicatos, uma desvirtuação da sua principal atividade.
Quanto à desregulamentação a que o consenso receitou, muito bem se apegou o patronato brasileiro; a criação de terceirizadas e de cooperativas de trabalho veio causar desestabilização no contrato de trabalho tradicional. O trabalhador que antes via no sindicato de sua classe um “porto seguro” e representante dos seus direitos, hoje o vê simplesmente como um agenciador de situações entre patrão e empregado que nada tem a ver com o sindicalismo contestador e representativo da classe. É verdade que o movimento sindical perdeu a sua grande força de mobilização e de contestação muito bem exibidos na década de 80 e parte da década de 90, e isso lhe deixa na defensiva. Como a desregulamentação e flexibilização das leis trabalhistas continuam foco do “falecido” Consenso de Washington – aliás, esse “consenso” já foi sepultado em todos os países de mediana inteligência, inclusive, os Estados Unidos jamais o levou a sério; a Malásia se fez signatária e colocou-o de ponta cabeça, e fez tudo ao contrário que o dito cujo preceituava e hoje é uma potência, moral da história; jogou-o na lata do lixo! – restam aos sindicatos o papel de guardar com o máximo rigor a nossa combalida CLT, pois assim, estará de forma indireta resguardando os direitos e as conquistas sociais conseguidas com muito suor, muita resistência, protesto e revolta.
A legislação trabalhista não foi e não deve ser considerada uma dádiva do Estado Novo getulista, como os setores trabalhistas tem afirmado - a CLT era e é uma cópia da Carta Del Lavoro, de Benito Mussolini, e implementada na sua essência pelo ditador brasileiro da época, Getúlio Vargas. Contrariando alguns setores a sua implementação importada, foi resultado das grandes greves operárias que tomou conta do país no início do século XX e da adesão do Brasil à Organização Internacional do Trabalho (OIT), outra conquista dos trabalhadores brasileiros. A CLT nada mais é como o seu próprio nome diz, do que uma consolidação, em lei única, de todas as conquistas sociais dos trabalhadores.

Francisco Silva Filho – Curitiba-PR

sábado, 8 de agosto de 2009

Pro Jaime Lechinski

Poeminha curitibano

Em Curitiba
Todo mundo jogou bola com o Dirceu
Fez música com o Paulo Leminski
Comeu a Isadora Ribeiro
--
Et coetera...

Aviso aos amigos e inimigos

Não esqueço os amigos.
Reconheço-os num campo de batalha. Se estiverem do lado oposto, neles não atirarei. Se estiverem do meu lado, por eles lutarei.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Depois de 1808

Nosso amigo Laurentino Gomes, ex-jornalista, agora escritor de sucesso (1808 é um retumbante e lhe deu dinheiro até para emprestar aos amigos), está escrevendo 1822, uma obra histórica sobre a Independência. Ele vem colocando suas observações no tuíter e nos convida a acompanhá-lo. Então, vamos: www.twitter.com/laurentinogomes

Qualquer forma de política vale a pena?

Retirado do Blog do Noblat

Houve um tempo em que se dizia: "O PMDB de Ulysses Guimarães". Ou então: "O PMDB de Tancredo Neves".

O que se ouve hoje é: "O PMDB de Renan Calheiros".

Quem pode garantir que no futuro não se ouvirá: "O PT de Fernando Collor".

Absurdo? Provocação?

Collor pagou uma pequena fortuna para que a enfermeira Míriam Cordeiro, mãe de Lurian, filha de Lula, disssse na televisão, a poucos dias do segundo turno da eleição presidencial de 1989, que Lula lhe oferecera dinheiro para abortar a filha.

Míriam mentiu. Lula perdeu votos preciosos.

Collor foi o único presidente da República afastado do cargo por denúncias de corrupção.

Lula e Collor são hoje aliados. E estão cada vez mais íntimos.

Isso não soaria absurdo há 20 anos? Há 10? Há cinco?

Collor perdeu alguma coisa ao se aproximar de um presidente aprovado por 80% dos brasileiros?

Lula ganhou o quê ao se aproximar de Collor? Um voto no Senado? O futuro palanque de Dilma em Maceió?

A essa altura, o que ao fim e ao cabo distingue Lula de Collor? E os dois de Sarney a quem tanto combateram antes?

A preocupação com os pobres?

Perguntem a Sarney e a Collor se eles não assinariam embaixo do Bolsa-Família e dos demais programas sociais? Perguntem a qualquer outro político.

Por fim: qualquer forma de política vale a pena?