sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Ao ciclista desconhecido

Enviada ao Blog do Zé Beto
Recorro a este blog porque, se você não o lê, alguém que você conhece deve ler e lhe transmitirá esta epístola. Também está no meu blog, mas este só eu leio.
Pois é, companheiro. Fui eu que hoje (sexta), por negligência e imprudência, por confiar na buzina e, instintivamente, pensar que seu instinto supera a razão, acabei por derrubá-lo de sua briosa bicicleta quando eu buscava entrar na garagem do prédio onde moro.
Escrevo esta para, sonoramente e em público, pedir-lhe desculpas.
Fui negligente, sim, e principalmente arrogante por achar – e não é o que realmente penso – que uma buzinada seria o bastante para que você diminuísse a velocidade a me deixasse passar.
Deixar por quê? Você trafegava à direita da pista, bem junto à guia, respeitoso com as regras do trânsito. Deve ter acreditado que eu, civilizadamente, frearia meu possante 1.0 e esperaria você passar para, em seguida, eu entrar na garagem.
Paguei o preço do que me livro todos os dias nessa Itupava que agora virou via rápida. Quando me aproximo de casa, dou sinal com a seta, coloco o braço pra fora e faço aqueles gestos de lei que ninguém mais usa e, ainda assim, ouço freadas e, vez ou outra, um filhodaputa pela orelha esquerda. Hoje tinha um carro colado atrás do meu e achei que dava tempo de te ultrapassar e encostar na entrada do prédio.
Errei, e errei feio, e é por isso que peço desculpas.
Isso não me absolve, por certo. Cometi uma infração de trânsito por agir com negligência e não respeitar o ciclista.
Mas, como aconteceu de eu subir para ligar para o corretor de seguros e você partir sob aplausos da multidão, resta-me falar com você por meio do glorioso Blog do Zé Beto.
Você e sua baique saíram ilesos da minha barbeiragem. Eu, logo que constatada minha culpa (tanto que subi e liguei para o corretor de seguros), faria questão de te indenizar, se dano houvesse. Como tudo não passou de um baita aborrecimento, principalmente para você, obviamente, restar-me-ia a vergonha do erro cometido em público e um contrito pedido de desculpas.
É o que faço agora, no meio da praça, para purgar o mal que lhe causei.
Mas entenda algumas coisas:
1 – Eu não estava a 190 km por hora, embriagado, apostando racha com um bacana ainda não-identificado;
2 – Aconteceu um lamentável, mas superável acidente de trânsito, felizmente sem ferimentos físicos e sem danos materiais;
3 – Você não precisava tentar me dar lição de moral e de cidadania em público, como se estivesse diante de um débil mental;
4 – Você não precisava bradar que queria ver o mesmo acontecendo com meu filho;
5 – Você, enfim, não precisava dar aquele show, bancando a vítima de um motorista insano, um cretino que não respeita o ciclista;
6 – Você, ciclista desconhecido, comportou-se como um motoboy, e até agora, preocupado, espero manifestação de ciclistas diante do meu prédio, chamando-me de assassino, bradando “nóis qué justiça” e coisa e tal;
7 – Você não é dono da verdade e bicicleta é veículo, portanto sujeita a acidentes – por certo, sempre lamentáveis.
De minha parte, quero lhe assegurar que, de agora em diante, redobrarei meus cuidados e frearei meu possante para deixar o ciclista passar (quando voltar a dirigir). É assim, na verdade, que me comporto no dia-a-dia- do trânsito.
Hoje, infelizmente, errei, pelo que me penitencio.
Ao final e afinal, peço-lhe desculpas mais uma vez, dou-lhe os parabéns pelo show e prometo ser um bom menino daqui por diante.
Se você for, por um acaso do destino, o ciclista filho do Jacques Brã, campeão mundial de ciclismo de rua e defensor das baiques, pergunte-lhe sobre mim e ele lhe dirá que eu, apesar de tudo, sou um bom sujeito.
Traumatizado pelo acidente e pela bronca, fui trabalhar a pé esta tarde e pretendo voltar a ser pedestre daqui por diante. Melhor assim.
E ai de você, ciclista desconhecido, se subir na calçada onde eu caminho ou, se eu estiver deitado na rua, me mandar sair da frente.
Aí serei eu o certo e você não escapará dos meus sopapos.
Boa sorte a você e aos demais ciclistas curitibanos.
Assinado: Jorjão, agora e de novo o pedestre-dono-de-todas-as-verdades, um ser superior aos motoristas, aos motociclistas e até aos ciclistas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Requião tem razão

Reproduzo abaixo release do Palácio das Araucárias sobre a proposta do governador de defender a indicação, ao STF, do paranaense (acho que ele é catarina, mas aqui estudado) Luiz Edson Fachin. Ele foi meu calouro na faculdade de direito da UFPR. Nos falamos uma, se muito duas vezes. Era de uma turma da qual saiu outro craque: Jacinto Nelson de Miranda Coutinho, catarina com certeza, aqui estudado, ex-namorado da Annamaria Marchesini e coxa doente. Fachin é civilista, Jacinto é um dos bambas do processo penal. Esses dois, junto com o professor René Dotti, que dispensa comentários, e o Marçal Justen Filho, administrativista, meu ex-contemporâneo no glorioso Colégio Estadual do Paraná e, anos depois, meu veterano na faculdade de direito, só honrariam o STF.
Desta vez o Requião tem razão. Vamos com ele para colocar o Fachin no STF. E depois o Marçal e o Jacinto (René, infelizmente, já estourou a idade).Até que enfim, hem, Requião?


O governador Roberto Requião defendeu, nesta quinta-feira (3), a nomeação do jurista paranaense Luiz Edson Fachin para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Duas vagas se abriram no STF devido à aposentadoria compulsória do ministro Eros Graus e da morte do ministro Carlos Alberto Direito, na madruga da última terça-feira (1º).

“É a oportunidade do Paraná pleitear uma vaga na suprema corte brasileira. Nós temos no nosso Estado um dos melhores juristas do país. Luiz Edson Fachin é preparado por todos os títulos e essa oportunidade não pode ser perdida”, disse Requião em pronunciamento oficial.

“Nós temos que unir a opinião jurídica do Paraná e levar nossa sugestão ao presidente Lula. Eu lanço essa campanha em nome do Governo do Estado, fazendo o apelo para que todos se unam por que é possível neste momento emplacar um ministro do STF paranaense”, acrescentou o governador.

Recentemente, Fachin foi designado pelo Governo Federal como membro da comissão sobre a Reforma do Poder Judiciário. O jurista também assessorou Requião, enquanto senador, no projeto do novo Código Civil brasileiro. E a pedido da então deputada Marta Suplicy emitiu parece, e fez a defesa na Câmara dos Deputados do projeto de lei da parceria civil de pessoas do mesmo sexo.

O pronunciamento gravado pelo governador está sendo transmitido pela TV e pela rádio Paraná Educativa e por diversas rádios do estado.

Fachin é professor de Direito Civil da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (Puc-PR); mestre e doutor em Direito das Ralações Sociais pela PUC – SP; pós-doutorado no Canadá pelo Faculty Reseach Program do Ministério das Relações Exteriores do Canadá, professor convidado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), da PUC-RS, da Universidad Pablo de Olavide de Sevilha, Espanha; membro do corpo docente da Universitá Degli Studi di Salerno na Itália e membro da Associação Andrés Bello de juristas franco-latino-americanos, com sede em Paris.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Eu sou pobre, pobre...

Divagando & Katilografando

Pobre de marré, deci! Desci coisa alguma! Eu sou rico, rico, rico de marré, subi...! Subi na vida sim senhor! Eu nasci pobre. De mãe pobre e de pai perdulário. Quando eu nasci meu pai não tinha um vintém (esse é velho!), digo, um cruzeiro; ele estava na vala comum daqueles que muito teve e que perdeu tudo porque não soube preservar o que lhe deixou o seu pai (o meu avô).
Ter nascido pobre em um país onde a riqueza era (e continua sendo) o passaporte para uma vida e um futuro melhor, onde o governo não priorizava como o Lula prioriza em primeira instância e procura silenciar o ronco dos estômagos dos famintos; deixava há mais de quarenta anos os pais de família com uma cuia na mão, batendo de porta em porta a pedir esmolas. Um dia de trabalho de pedreiro (profissão escolhida pelos ex-ricos, os novos fracassados; nos dias de hoje, acabam virando corretores ilegais; veja o caso do eterno playboy Jorge Guinle, que nem precisa sair de casa para intermediar uma venda, os seus amigos é que o colocam na transação) em uma cidade de pouco avanço à época não valia quase nada quando se arranjava alguma coisa, alguma obra; quem salvava mesmo com seus parcos recursos a economia doméstica eram as mulheres, essas bravas trabalhadoras braçais que botavam a comida na mesa sob as duas formas: trabalhando, lavando roupa para ganhar o pão e literalmente cozinhando para sua família.
Os programas sociais do governo têm salvado uma parcela significativa da população brasileira; os miseráveis de hoje já não são tão miseráveis quanto os de antigamente; os pobres de hoje já não são tão pobres quanto eu experimentei ser. Os pobres de então, tem o seu lugar ao sol; saem como o Lula prometeu, pelo menos uma vez por mês para almoçar fora com a família; ir à praia – e como está indo, estão levando a sério! Os pobres que engrossam as estatísticas da popularidade do Lula, não raro, têm TV de LCD em casa, geladeira de última geração. Por falar em TV, eu tenho duas aqui em casa que eu quero me livrar, já são vintenárias e estão ótimas; caí na besteira de perguntar ao carrinheiro (homem ou mulher que recolhem o lixo que não é lixo) se ele não queria a ou as TV’s, ao que me respondeu educadamente e com certa ponta de indisfarçado orgulho: “moço, eu não tenho lugar para colocar essas TV’s lá em casa não, a nossa TV é de plasma!” - Sim senhor, viva a modernidade e viva a popularidade do seu Lula da Silva!
Os tempos mudaram; o povo rico não percebeu a quantas as mudanças operaram milagres nas vidas daqueles que outrora não tinham o que comer; os filhos dos pobres de outrora hoje são, no seu meio social, os mauricinhos (versão popularizada) de uma geração que sonha e realiza. As bolsas estudo, bolsa família, meu primeiro emprego e toda forma de assistencialismo do governo tem dado, nas devidas proporções, alguma dignidade aos pobres brasileiros. O povo pobre normalmente não tem dado a sua opinião sobre os benefícios recebidos; talvez, seja porque a imprensa não lhes dê espaço para dizer o que pensa, todavia, o grande termômetro desse silêncio popular entre em ebulição nas urnas nas próximas eleições.
Os intelectualóides de plantão e sem a menor sensibilidade costumam dizer que melhor que dar o peixe, é dar a vara e ensinar a pescar. O que podemos constatar dessa construção filosófica é que, diante de uma emergência como é o caso da fome, “enquanto se gasta tempo ensinando, o estômago vazio desconstrói o aprendizado” (essa construção filosófica é minha, ninguém tasca!); e o Lula, melhor do que ninguém é capaz de saber disso. Pois muito bem, as ações de governo tem realmente ajudado, mas, não tem sido suficientes para erradicar totalmente a fome e matar o desejo mais singelo de muitos; dos quais, insistem em sustentar a sua base de popularidade em uma flagrante demonstração de gratidão. Gratidão, aliás, que tem deixado roxo de raiva aqueles segmentos da base de oposição ao governo.
Se nos meus tempos de garoto, na minha tenra infância, nós tivéssemos tido um governo como é o governo do Lula, – falo do governo pessoa do Lula, do seu carisma e não o governo PT – com alguma margem de acerto eu acredito que hoje nós seríamos uma nação respeitada, já teríamos praticamente erradicado a pobreza que tanto tem preocupado os governantes sérios pelo mundo afora. Como a vida não é feita de “se” e sim da realidade, cumpre-nos enquanto cidadãos e contribuintes, fiscalizarmos as ações mais próximas dos nossos governantes, para que não caiam na tentação de desviar os recursos que são destinados aos nossos pobres e necessitados como foi o caso do vereador Alex Lopes de Sousa de Santa Cruz da Vitória que estava inscrito no programa bolsa família. Como sonhar não implica em fato gerador de impostos (tomara que jamais inventem um imposto para os sonhadores), continuarei sonhando que um dia e para sempre, a cantiguinha “Eu sou pobre, pobre, pobre de marré deci” seja substituída por: “EU SOU RICO, RICO, RICO DE MARRÉ; NESTE BRASIL EU VENCI!”.

Francisco Silva Filho – Curitiba-PR

sábado, 29 de agosto de 2009

Gustavo Fruet

A nota que segue é do blog do Zé Beto
Eu comentei pra ele.
Segue o que eu perco e acho.
A fachada do Gustavo Fruet
29 ago 2009 - 08:36
O deputado federal Gustavo Fruet (PSDB) resolveu atender ao apelo da jornalista Ruth Bolognese que, nesta semana, no telejornal matutino da Rede Massa recomendou que ele desse um trato na fachada por conta da candidatura ao Senado. Guga disse que saiu desesperadamente atrás de uma loja da Ducal para comprar pelo menos um terno. Não achou a loja. Portanto, vai continuar se apresentando do mesmo jeito.
Postado em 29 agosto
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Agora eu

Brincadeiras à parte:
Os seres humanos não precisam vestir-se como mendigos nem como marajás de Ranchipur para se notabilizarem.
Gustavo Fruet é o mais qualificado político do Paraná de muito tempo para cá. Desnecessário enumerar suas qualidades, mas que se ressalte uma só: exerce seu papel político no estado de arte, com moral, o que explica tudo. Maurício, Ivete e o imortal Gramsci sabem disso.
Talvez nunca chegue ao governo do nosso Estado, pois o nosso estado talvez não o mereça. O povo ainda não sabe votar.
Tivéssemos uns trinta ou, melhor, trinta mil Gustavos, teríamos um País muito melhor.
Tivessem os quase ou os que-bom-seria-ser Gustavo gente ao seu lado como Lorena Klenk, seríamos muito melhores.
Gustavo nada me deve e nem eu a ele.
Lorena Klenk talvez seja até melhor que o Gustavo.
Devo muito à Lorena.
Só quero dizer em bom português.
Gente boa trabalha com gente boa.
Isso é para dizer que Gustavo (e Ivete et coetera) terá meu voto inteligente forévis.
E que Lorena is in my sky forévis (desculpa professor Hélcio).
Os polos (não tem mais acento em pólo, é isso?) do bem se atraem.
Gustavo Fruet - a quem nada devo, repito - é o que há de bom em nossa lama. E Lorena é o que há do bem (desculpe de novo, Hélcio, mas é paixão pessoal e profissional, não sexual, e ela sabe disso).
Diz-me com quem andas.
Meu voto é raro e caro.
Gustavo significa, no bárbaro (para os romanos de antanho) bravo bastão de combate.
Meu filho - não por causa dele, obviamente, porque já está ficando coroa - se chama Gustavo.
Como dizia Henfil, em resumo, valeu e sempre valerá a intenção da semente.
Sorte ao Gustavo e a todos nós.
Gustavo e Lorena forévis.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Os romeiros e Nova Trento

Divagando & Katilografando

A minha fé cristã enquanto católico atualmente é por assim dizer, meia-pedra e meio-tijolo. Confesso que já fui muito carola; não havia um domingo em que eu não me fazia presente na missa das sete horas da manhã na Igrejinha das Graças na Rua Otávio Santos, participava do grupo de jovens, sempre presente nos retiros e, quando possível, eu arranjava um jeito de me empoleirar em cima de um caminhão daqueles que faz anualmente as romarias para Bom Jesus da Lapa, e lá estava eu também como todos que iam à Lapa para receber as bênçãos do Nosso Senhor Bom Jesus da Lapa – para mim, em verdade, dado à minha juventude naquela época eu estava mesmo era procurando folia e turismo barato.
Ontem, 23 de agosto, convencido e vencido aos apelos da patroa, fui eu e minha família em uma excursão da nossa Paróquia de Nossa Senhora do Carmo à cidade de Nova Trento em Santa Catarina; foi um dia de domingo dedicado a mais de 600 kilômetros de viagem para o percurso de ida e volta. Quando chegamos à terra da Madre Paulina, hoje, Santa Paulina, muitos eram os ônibus que, assim como o nosso, estava cheio de excursionistas à Nova Trento. Para minha surpresa, e com mudança de conceito, pois, sempre tive em mente que romeiros eram aquelas pessoas simples e que faziam uso de caminhões “pau de araras” e com vestes, na minha maneira de ver, ridículas. Pois bem, lá em terras da Santa Paulina, como disse antes, ante a minha surpresa eu fui classificado de “romeiro”; eu, um romeiro?
Pelo visto, não é só a minha fé que está precisando de uma remodelagem completa, também, os meus conceitos sobre os termos e terminologias religiosas e tudo que envolvam a fé cristã. Na verdade, quando eu aceitei fazer tal viagem, eu buscava ver o quanto o povo católico está verdadeiramente voltado às coisas da espiritualidade, e se não estão em verdade querendo ofuscar a (s) outra (s) fé; todavia, não foi o que eu pude perceber. O povo verdadeiramente católico é tão ou quase xiita quanto o xiita de qualquer outra religião; não estão preocupados com os avanços dessa ou daquela religião e muito menos com a perda natural de alguns fiéis para outras agremiações religiosas; se há perda de fiéis, é porque eles não estão voltados verdadeiramente para as coisas e conceitos imutáveis do Altíssimo.

Não dê esmolas! Avise...

No meio daquele povão (romeiros), eu me sentia meio que aquele personagem do filme “Um convidado muito especial” estrelado pelo indiano Peter Sellers; não me achava de modo algum, nem mesmo quando estava sozinho. Muitas são opções de se gastar naquele lugar; dos artigos de apelos religiosos, assim como, os mais diversos artigos do tipo malharia, lãs, confecções, queijos, bebidas, licores e o especial vinho da colônia italiana e uma excelente cozinha regional. Afinal, em lugar como esse tem de tudo; tem até placa informativa assim como educativa, onde, advertia aos turistas, digo, “romeiros” – não me acostumei com o termo, parece-me depreciativo – sobre ser proibido dar esmolas. Aliás, sobre esse assunto, há uma placa dessa natureza pregada nas paredes laterais da Igreja que fica no meio do comércio daquela vila - essa Vila, onde fica o Santuário de Santa Paulina fica distante do centro de Nova Trento – onde, dizia a placa: “Não dê esmolas; comunique a Ação Social Comunitária caso apareça algum pedinte”.
Ter visto uma placa educativa e tão incisiva quanto aquela me deixou com certo alívio, afinal, em Bom Jesus da Lapa em tempos de romaria extrapola todos os limites, até mesmo do imponderado. Num daqueles momentos em que resolvi ficar só para deixar mais a vontade a patroa e nossos filhos, procurei um banco na pracinha ao lado da igreja, aquela mesma igreja que tem nos dois lados a placa tranquilizadora de que não seremos importunados por pedintes; e o que eu vejo? Vi um cidadão de média idade sentado ao chão sobre um couro de carneiro com os braços apoiados no separador das hastes das muletas em sua parte inferior. Era um cidadão de aparente obesidade que lhe faltava o pé direito e o seu pé esquerdo não tinha dedos, todavia, o pé era bipartido – acredito que ele seja mais uma das vítimas da talidomida. Fiquei a observá-lo por longo período, mas, nem sempre com atenção exclusivamente voltada para ele. Da placa de advertência tanto quanto educativa, embora estivesse em letras garrafais ali à minha frente, eu logo a esqueci. Comecei então a pensar que eu deveria dar uma esmola ao desafortunado; eu naquele instante não tinha qualquer trocado, entretanto, dediquei-me a pensar o quantum que eu deveria dar, e, uma vozinha (fio de voz) na minha consciência me autorizava dar R$ 2. (dois reais).
Um conflito dentro de mim se estabeleceu. Uma voz mais forte em minha consciência dizia: se não houvesse proibição de dar esmolas aqui em Nova Trento assim como acontece em Bom Jesus da Lapa na Bahia, como certeza, de R$ 0,50 em 0,50 centavos você já teria dado pelo menos R$ 5 e, como aqui só temos esse único pedinte, será uma única esmola! Vamos lá, você já está desapegado a esse “cincão” mesmo, vai lá e dá logo! E aí veio a vozinha: se você quiser dar, dê só dois reais, olha só quanta gente passa por ele e dá dinheiro; no final de um dia ele já terá ganhado muito mais do que você ganhava por um dia de trabalho no Banco do Brasil, não seja perdulário! - Entre o embate da voz e da vozinha, venceu a vozinha. Decidi que daria os R$ 2, mas, antes de ir lá fazer a doação fiquei a observar e cronometrar a periodicidade com que ele ganhava as “esmolas”. Eu sabia que não levava nem dois minutos entre uma e outra, mas, a minha atenção sempre esteve dividida durante aquele período entre outros fatos, então, agora eu havia decidido que não desviaria a minha atenção até que eu tivesse uma estatística real.
A primeira alma “caridosa” que apareceu no instante em que eu estava fazendo a estatística real agachou-se e deu o dinheiro, levantou-se e foi embora; menos de um minuto depois, acintosamente, não se agachando um cidadão apresentou-lhe dois reais, o “pedinte” demorou-se um pouco – momento em que eu pensei: o cara está pedindo troco! – depois, recebeu como troco aos R$ 2 um monte de fitas de lembrança de Nova Trento. Barbaridade! O quê que eu ia fazer, camarada? Que mico eu ia pagar? Já pensou, se eu vou lá e me faço de uma alma acintosamente “caridosa” e dou uma esmola? – Bom, as gafes normalmente acontecem e, se eu cometesse tal e qual, com certeza eu não seria o único. O que me facilitou pensar que ele estivesse pedindo esmolas foi o fato de estar sempre em posição de retaguarda ao pedinte, portanto, eu não via o que acontecia à sua frente. Minutos depois do ocorrido chegaram até mim o responsável pela delegação ou romaria – não acostumo com o termo – o Fernando e logo depois a minha patroa e as crianças, e eu os coloquei a par do acontecido; e assim ficamos a observar o “pedinte vendedor”. O primeiro a ilustrar o que seria a minha gafe não se demorou a aparecer; um cidadão de reconhecida elegância estirou a mão e deu os “cincão” que me fora aconselhado a não dar, e logo foi se retirando. O “pedinte vendedor” bradou com voz educada: “Senhor! Volte aqui, por favor! Estás esquecendo a mercadoria! Eu não estou pedindo esmolas, estou trabalhando! Desculpe-me senhor...!”. - Bom, depois de me safar dessa, eu me aproximei e perguntei se eu poderia escolher as cores das fitas, e o “grande vendedor” de fitas abriu uma mochila cheia delas e disse que estava à vontade para as minhas escolhas. Eita Sul de Brasil maravilhoso, até para se pedir esmolas tem que se ter classe!

Francisco Silva Filho – Curitiba-PR

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Lerner e as cidades-mulheres

Fui hoje à sede da RIC TV, convidado pelo amigo Dirceu Pio, assistir a uma palestra de Jaime Lerner. Pode-se não concordar em tudo ou em nada com ele, mas é um sujeito espirituoso, sagaz, de inteligência desafiadora.
Nas entrelinhas, Lerner deu um pau em Beto Richa e na insistência dele em dotar a cidade de metrô. Lembrou que a qualidade do transporte coletivo caiu porque a frequência (tempo de chegada dos ônibus no ponto) foi drasticamente diminuída. Não se justifica o metrô pela queda da qualidade do transporte de superfície. Ou seja: retiram-se os ônibus das ruas, o trânsito vira um caos e lá vem o metrô, para gáudio das empreiteiras.
Nossa imprensa precisa fazer uma entrevista a sério com Jaime Lerner.
Mas o melhor de tudo foram as comparações das cidades com mulheres, das quais Lerner parece entender. Das primeiras, com certeza.
Entre outras. Para ele, Nova York é uma mulher toda tatuada. São Paulo, uma mulher que exagerou no botox. Rio, de barriguinha de fora. Curitiba, liga na coxa e um belo naco de carne à mostra. Puro Dalton.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A incrível máquina do tempo

Divagando & Katilografando

Num vôo tranquilo e preguiçoso, eu havia acabado de passar por sobre o aeroporto de nossa cidade, rumando em direção sudeste do nosso município, a vegetação composta de árvores retorcidas dava o tom e a cor do nosso cerrado conquistense. A brisa morna batia suavemente no meu rosto, meus cabelos longos, por vezes chicoteavam-me os ombros e pescoço, e a mesma brisa deslizava por todo o meu corpo, dando a sustentação que me tornava leve para que, o prazer de voar livre me fizesse sentir como se asas eu as tivesse, o sonho de Ícaro em mim se realizava.
De repente, daquele instante de experimentada monotonia, eu passei a sobrevoar um lindo vale, lá embaixo, corria um regato e, na parte mais larga do vale formava uma lagoa rodeada de tabua, ladeando o pequeno ribeirão, havia uma alameda de eucaliptos, na parte mais elevada, uma pequena colina, estava uma casa com um lindo pomar, suavemente, baixei um pouco a minha altitude, fiz um vôo de reconhecimento sobre a casa e o pomar. Muitas eram as mangueiras, abacateiros, bananeiras, goiabeiras e uma extensa horta; havia algumas pessoas lá embaixo que trabalhavam e acenavam para mim, mais adiante, um grande pasto verdejante, nele, algumas “cabeças de gado” pastavam, voltei a minha atenção para os eucaliptos, sobre eles, fiz um vôo com máxima atenção, observava que o mais alto deles media aproximadamente uns quinze metros de altura, era bem reto e elegante, o seu tronco era de cor acinzentada, suas folhas eram de um verde brilhante sem igual, resolvi descer para, desta forma, eu vê-lo de baixo para cima.
De repente, eu comecei a rodar descontroladamente, o mundo rodava, não, era a minha cama que estava rodando, o barulho que vinha de fora invadiu o meu sonho! Eu estava sonhando? – É verdade, eu estava sonhando sim! Aquele sonho maravilhoso que, novamente estava se repetindo e, fui abruptamente despertado por um barulho que vinha da rua. O barulho era o de um Terno de Reis que estava na nossa porta cantando a sua preliminar para, depois ser aceito pelo dono da casa. Painho havia saltado da cama num pulo, correu para a sala e Mãe Guiomar (minha mãe adotiva) praguejava, enquanto ela dizia poucas e boas ao meu pai para que ele não abrisse a porta, painho afastava as cadeiras sofás e mesas para, assim, receber o Santo Reis. Confesso que eu detestava ser despertado enquanto eu sonhava que estava voando, este era um sonho que, se pudesse, dele eu não acordaria jamais; paciência, o meu mundo continuava rodando, naquele instante eu nem sabia que dia e hora era.
Ah! Acabei de me lembrar, ontem era dia trinta e um de dezembro, quando eu saí da gráfica onde eu trabalho (trabalho na Gráfica Marajó), passei na Praça Nove de Novembro, e comprei umas revistinhas usadas na mão do Jailton que as expõe no Monumento atrás da Tabacaria, gastei Cr$ 3,50 (três cruzeiros e cinqüenta centavos), então, hoje e essa barulheira toda é dia 01 de janeiro de 1973. Tateei no escuro, procurando na cabeceira da minha cama a “pêra” que liga a luz, com certa dificuldade, aliás, com enorme dificuldade, eu ainda não encontrei a “pêra”, ou melhor, eu não encontrei a cabeceira da cama! Meu Deus! O que foi que me aconteceu? Calma, penso que eu mudei de posição na cama, com os pés bem esticados tento confirmar o que eu acabo de pensar; é isso mesmo! Estou com a cabeça para os pés da cama. Pronto, agora eu encontrei a “pêra” e a luz se acende! Puxa vida, os “reiseiros” já estão terminando lá fora! Daqui a pouco eles vão entrar. Eu gosto de Terno de Reis, mas, o chato é que nem sempre eles vêm na hora combinada; Mãe Guiomar, não gosta deles em nenhuma hora, ela os acha uns chatos de “ponta de rua” e também uns “Pés de Cachorro” (qualquer hora dessas, eu vou procurar a concordância nominal do termo, ela sempre fala sem o plural).
Pois bem, eles cantaram, brincaram, beberam comeram e se foram, com eles também se foi o meu sono. Agora estou ouvindo lá longe, talvez nalguma casa na Rua Honorina Andrade, ou quem sabe, na casa do seu Antonio Peçanha, alguém tocando em uma radiola uma canção do Roberto Carlos, é uma música linda, o professor Nery disse que essa música teria sido vencedora no Festival de Sanremo de 1968, sei que eu gosto dela, “Canzone Per Te”, eu não sei se este é o título dessa música, aliás, poucas são as músicas que eu sei o título, afinal, que me importa? O silêncio agora reina e o meu sono teima em não voltar, acho que vou ler uma das revistinhas. Sempre foram elas que embalaram os meus sonhos, talvez eu volte a pegar no sono, afinal, eu mereço; este ano de 1972 foi o único ano em que eu não fiquei para segunda época, agora eu vou cursar o primeiro ano de contabilidade, estou de férias! Ademais, ainda hoje terei que acordar mais cedo para, como nos anos anteriores, também, para assistir à matinal que desde que me entendo por gente, os cinemas da cidade faz essa sessão “grátis” (palavra mágica), portanto, eu não posso perder. O Cine Glória me espera.
Na cômoda ao lado da minha cama estão as dez revistinhas compradas ontem, vou escolher uma e vou ler. Engraçado, neste pacote de revistinhas compradas têm algumas que eu não compraria. A TEX e a revistinha do “Fantasma” me foram empurradas no pacote, eu não vejo graça na leitura destas revistas, e eu já tentei várias vezes lê-las em outras oportunidades em que me faltavam revistas e, jamais terminei a leitura de qualquer delas; nem tudo está perdido, afinal, veio no pacote de revistas, as do Tio Patinhas, Almanaque do Pato Donald, Almanaque do Mickei, Riquinho, Mortadelo e Salaminho, Zé Carioca, também entre elas, a do Conde Drácula (nessa hora da noite me dá arrepios) e do Professor Pardal.
A revistinha do professor Pardal para mim, sempre foi uma das minhas preferidas; ele é um maluco fantástico, eu sempre viajo nas suas “viagens”. E como viajar é meu sonho que até os dias atuais, mesmo em sonho eu não consigo realizar, nelas eu me realizo... Continua na próxima crônica.

Francisco Silva Filho – Curitiba-PR