sexta-feira, 19 de março de 2010

Poemeu

Um quase plágio de Jamil, o Snege. Idem de Joe Fante
Meu pai
Castigas-me
Quando eu bebo
Devolves-me cruel ressaca
Quando eu rezo
Machucas
Meus podres joelhos de velho
Quando eu o contemplo ao sol
Cegas-me
Eu mercador perdido no deserto
Imploro
Abandonas-me
Quando me deito com mulheres
Cobres-me de arrependimento
Mas
Quando acordo só
E me lavo
Casto como um anjo
Recebo choques no estômago e na cabeça
E tenho de correr à humilhação de me comover
Esvaziar-me
O que há?
Perdeste o controle?
Quem manda no mundo?
Quem é o chefe, afinal?
Não mereço, meu mestre
Tamanho castigo
Depois eu volto
Olhos regados
E vejo o mundo
Senhor
Existimos

A Casa do Povo

Há alguns anos, conheci num bar (claro que não foi na IURD) um simpático casal, apresentado a muá pelo meu primo Geraldo, amigo do tal casal. Ela, professora de direito; ele, engenheiro civil.
Lá pelas tantas, nem sei por quê, comentamos aquele famoso incêndio da Assembleia do Paraná, graças ao qual foram destruídos milhares de documentos.
Então o engenheiro me disse, aqui parafraseado: trabalhava lá e corri de casa (foi à noite) para ajudar, tentar salvar aquele espaço que ardia. A porta estava trancada com gigantesco cadeado, grossas correntes. Não houve tempo para os bombeiros arrombarem a dita porta (ou portão) para tentarem salvar o acervo que ardia. O incêndio havia sido criminoso.
Pedi-lhe que assumisse o depoimento. Ele, por motivos pessoais e profissionais, disse-me que nada diria, nem confirmaria.
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O presidente da Assembleia era Anibal Cury; o chefão, digo, chefinho, seu protegido Bibinho.
Houve investigação em torno da possibilidade de o incêndio ter sido criminoso.
Deu em nada.
Não digo que deu em nada por que os dois mandavam na Assembleia, pois não quero ser processado.
Digo deu em nada porque deu em nada.
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O que mais assusta esta gente (?) é que a Gazeta do Povo e o velho Canal 12, hoje RPC, - jornal e rede de TV sempre amigos do poder nos tempos do dr. Chico Beleza - vez em quando resolvem gastar uma bela grana e fazer jornalismo.
Vejo gente estupefata: "Mas como podem fazer isso? Mas que sacanagem. Eles também tiveram rabo preso."
Tiveram, espero, com maiúsculas.
Os que tinham já se foram, oro.
Pois o rabo soltou-se e os ótimos profissionais do grupo estão mostrando as garras de jornalismo decente, o mínimo que se espera do jornalismo decente.
A equipe é valente e assina as reportagens (são profissionais da TV e do jornal).
Certamente esse brava gente (!!) receberá telefonemas, será seguida, seus chefes serão pressionados; seus patrões, mais ainda.
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Pessoal, conselho de um velho lobo do mar que os saúda: nada de botecos, de baladas, de motéis. Do trabalho pra casa, de casa pro trabalho; peçam para os parentes pegarem os filhos na escola. Medo, não; cautela. Um baseado plantado no porta-luvas pode encher o saco.
Já fui grampeado e já recebi avisos. Sei do que escrevo.
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Considero-me amigo de James Alberti (cito-o escancaradamente porque assina a reportagem junto com os demais, que não conheço pessoalmente), hoje produtor (em linguagem de TV, é o repórter que não aparece no vídeo, mas prepara a jogada para a estrela da telinha). Tenho orgulho de tê-lo puxado - eu e Luís Lomba - para a equipe de reportagem da Folha do Paraná.
Na época - final dos 90 -, ele e Dimitri do Valle (os dois catarinas de fibra, como todos os catarinas), mais Albari Rosa (fotógrafo, hoje autor das fotos desta série), encheram o saco para publicar umas seis páginas sobre a comunidade do Rasgadinho, vítima de grilagem na região de Guaratuba. Ganharam duas, que me lembre, mas fizeram um estrago daqueles.
James Alberti (sem falar no Dimitri e no grande fotógrafo Albari Rosa) dignifica a profissão.
A ele e a seus companheiros, mais chefes de reportagem, editores do jornal e da TV (um beijo e um OSS à Sandra Salvadori) e até a Sandy e Júnior, minha doce inveja.
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Nós, o povo, temos várias casas.
São nossas, uma extensão das em que vivemos, pois são elas que conformam o Estado que criamos para nos proteger e nos garantir segurança e justiça.
Se o Estado não se comporta como o que desenhamos e sustentamos, que seja desconstruído - sem ser derrubado, pelo menos por ora - para que volte a nos servir.
Integram-no também , obviamente, o Executivo, o Judiciário - os tais Poderes -, assim como se fosse uma nada santíssima trindade, na qual quem deve mandar e quem deve dirigir é o povo, sempre.
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Que nossos demais veículos prestem atenção também no Executivo e no Judiciário.
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Não há jornalismo que não seja investigativo, como dizia meu amigo Francisco Camargo.
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O episódio, enfim, é emblemático: há algo de podre, etc. (Shakespeare).
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Minhas homenagens ao velho Estadão, que escancarou os fantasmas da Assembleia (anos 70, e nada mudou) e, depois, do Tribunal de Contas.
O mesmo Estadão que contou a história dos superfuncionários do governo central.
Rendo meus encômios a quem mexe com o Coritiba e o Atlético, com a Polícia Civil, com a licitação malandra, com a inação do Ministério Público, com a ONG que só toma dinheiro, com a passagem do ônibus, com o preço do ingresso no teatro, com a roubalheira do supermercado que vende comida podre, com o vereador cachaceiro do álcool gel que não paga seus jornalistas.
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De rabo a cabo.
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O rei Luiz XIV disse Letásemuá.
Eu respondo: o Estado sou eu, cidadão, citoiã; o Estado somos nós.
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ESTA CASA - como as outras -, CAMBADA, É NOSSA.

quarta-feira, 10 de março de 2010

A imprensa e a imprensa

Texto de Léo Lince, retirado so site Socialismo e Liberdade.

"A imprensa no Brasil é livre, só não é democrática". O sentido da frase, proferida tempos atrás por um observador arguto, conserva plena atualidade. É livre porque seus donos fazem o que querem. E não tem como ser democrática pelas mesmas razões.
Antigamente, muito antigamente, imprensa era só jornal. Mesmo grandalhão, era propriedade privada, voz do dono, sem maiores problemas. O dono defende o que lhe apraz e compra na banca quem quer. Hoje, tudo é tão dessemelhante. O conglomerado midiático articula uma poderosa miríade de meios de comunicação e da indústria cultural de massas. Além de redes de rádio e televisão, que são concessões públicas e entram na casa de todos sem bater na porta. São instrumentos que interferem fortemente na definição do espaço público e, como tal, demandam um tipo de controle adequado à sua natureza.

No vértice do conglomerado midiático, artilharia pesada do embate ideológico, está a televisão. O formato da televisão que temos no Brasil foi definido nas entranhas da ditadura. O auge do domínio militar sobre a política coincide, não por acaso, com a montagem da estrutura atual da mídia eletrônica, com seu suntuoso padrão global e seus vínculos com o internacionalismo procelário. Montada como monopólio de alguns poucos concessionários, armada de uma estrutura moderna de enorme eficácia técnica, orientada nos seus mínimos deslocamentos pela pesquisa diária de opinião, a televisão foi o meio por excelência da pedagogia autoritária. Não havia Mindlins entre os seus proprietários, todos ajudaram a repressão política.

O fim da presença física da ditadura, infelizmente, não se fez acompanhar da construção de mecanismos de controle democrático sobre a mídia eletrônica. Ela sobrevive como um espinho na ferida cicatrizada. Interfere de maneira poderosa na construção do espaço público, no jogo político, e faz isso com uma soberania quase absoluta. Opera a partir das fortalezas inexpugnáveis do poder privado e conserva, na alma de suas engrenagens, a marca arrogante do autoritarismo.

Agora mesmo, no primeiro de março, os magnatas supremos da mídia eletrônica esbanjaram arrogância na espantosa reunião realizada em um hotel de luxo em São Paulo. Estavam lá, além dos "estudiosos", articulistas da agressividade contratada e de potentados de áreas conexas, os herdeiros da meia dúzia de famílias que monopolizam o ramo: Frias, Civitas, Marinhos, Mesquitas e que tais. O espetáculo, denominado Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, foi convocado pelo "Instituto Millenium", que, pelo que se viu, articula a convergência entre a defesa dos interesses dos pontos fortes do mercado e o discurso da direita ensandecida.

A fala dos representantes do governo federal, sem dúvida, foi o ponto alto do convescote. O ministro Hélio Costa, das Comunicações, afirmou: "Na Conferência Nacional de Comunicação, o governo foi unânime em dizer que em hipótese alguma aceitaria uma discussão sobre o controle social da mídia". E adiantou que, para ele, a idéia de controle social da mídia é "absolutamente inadmissível". O deputado Palocci, pronto para reassumir a linha de frente (superado os incômodos provocados por aquele caseiro com feições de Kafka), foi além. Segundo ele, quem critica monopólio e concentração está errado: "há concentração na comunicação, mas há em várias atividades econômicas no Brasil. Considero normal e uma característica do amadurecimento das economias". Imagina-se que, ao ouvir tal música, a platéia tenha aplaudido de pé.

Sendo assim, tudo seguirá como dantes. Os meios de comunicação de massa, afastado o "risco" do controle público, continuarão protegidos na fortaleza inexpugnável do poder privado. A direita social, garantida a liberdade de movimento da máquina mercante, proverá recursos fartos aos partidos certos. São elos de uma corrente que alimenta o milenarismo de mercado.

Léo Lince é sociólogo e mestre em ciência política

sexta-feira, 5 de março de 2010

Che e Korda, há 50 anos

Há 50 anos, de olho em Sartre e Simone, Albert Korda foi tomado pela força da expressão do Che e, com o filme acabando, fez uma das maiores fotos do século XX. Por coincidência, fotos de Korda foram vendidas em leilão, na Inglaterra. Leia abaixo o texto retirado do El País, o melhor jornal do mundo.

Fidel Castro y el Che Guevara jugando al golf, pescando, charlando con intelectuales... el lote de imágenes del día a día de los líderes de la Revolución Cubana, captada por el objetivo del fotógrafo Alberto Korda, han sido vendidas en subasta en Dominic Winter Auctioneers , en la localidad de Cirencester (Reino Unido), por un total de 35.240 euros, informa la cadena BBC .

Se trata de 14 imágenes en blanco y negro captadas entre 1959 y los albores de la década de los sesenta. Han sido vendidas a distintos compradores. En concreto la imagen del Che de pesca fue adquirida por un coleccionista privado radicado en Reino Unido, quien en total ha desembolsado 20.000 euros. También se ha hecho con la foto de Fidel Castro jugando al golf, por la que ha pagado 3.700 euros.

Fuentes de la casa de subastas han asegurado a la BBC que la venta ha desatado mucha expectación hasta el punto de verse "inundados" de llamadas telefónicas de coleccionistas de toda Europa.

Cincuenta años de un icono

Hoy se cumplen 50 años del día en que el fotógrafo cubano tomó un primer plano del Che con su boina de guerrillero y el cabello alborotado, una de las imágenes más reproducidas, veneradas y comercializadas del siglo XX. El 5 de marzo de 1960 el Che, decretado "cubano de nacimiento" por su compañero de armas Fidel Castro, asistía con otros líderes de la revolución recién nacida al funeral de casi 100 víctimas del atentado que sufrió la víspera en el puerto de La Habana el vapor francés La Coubre, cargado de armas.

La prensa cubana recuerda hoy que era un día gris e invernal (en el Caribe significa que la máxima no pasó de 20 grados) y que Korda (1928-001) no se dio cuenta al principio de que su Leika había captado una imagen que recorrería el planeta en portadas de libros, carteles políticos, fachadas de edificios o camisetas de moda. El ahora ex presidente Fidel Castro lanzó aquel día, por primera vez, su no menos famoso "Patria o Muerte", encaramado en una tarima en la que dirigió un encendido discurso a miles de asistentes al funeral-maniestación, con el Che en segundo plano.

Cerca del argentino estaban los intelectuales franceses Jean Paul Sartre y Simone de Beauboir, a quienes perseguía Korda, fotógrafo del periódico Revolución, con el rollo de película a punto de acabarse y un lente de 90 milímetros. Según contaría después Korda, Guevara tenía una mirada tan intensa que lo turbó por unos instantes, pero no tanto como para evitar que tomara enseguida dos instantáneas, vertical una, horizontal la otra, antes de que el Che desapareciera de nuevo tras los personajes de la primera fila.

La foto "no fue concebida, fue intuida", aseguró también Korda, citado hoy por la prensa habanera, y explicó que luego redondeó en el laboratorio el trabajo para resaltar la mirada, recortando del lado izquierdo de la toma horizontal el perfil de otra persona y del derecho la inevitable palmera tropical.

Korda no cobró ni un céntimo por su más difundido retrato, aunque el empresario italiano que reprodujo aquel primer cartel vendió en pocos meses un millón de ejemplares, sin citar al fotógrafo pero si el copyright de su editorial. El colmo de la comercialización de la foto del Che llevó a su autor a demandar en 2000 a la productora de vodka Smirnoff, que la utilizó para una campaña publicitaria. Korda, que tenía entonces 72 años y murió un año después, ganó el pleito a Smirnoff y 60.000dólares.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Pra lembrar

O herói redime a humanidade à deriva.
(Lourenço Diaféria)

Lula, Zapata e nóis

A direita cobra e a esquerda se cala: Lula foi a Cuba e nada disse sobre a morte, por inanição, do dissidente Zapata (um pobre pedreiro e faz-tudo da região onde vivia, mas fundamentalmente um homem, e do contra - que ótimo para uma democracia). Que nome, hem?
Tudo bem. Lula nada disse e nada poderia ter dito, em público, pois estava em visita a um país amigo. Imagine Raúl, acá, dar palpite sobre os 300 mil presos não políticos que criam mofo em nossas cadeias.
Mas Lula voltou e continua calado.
Lula é um babaca, nossa política internacional relativa aos DH é medrosa.
Está certo os EUA, que aprisiona 450 mil negros em suas cadeias e prende gente por nada?
Quer cagar regra ao mundo apesar de Guantánamo, mata civis mundo afora, tem espiões até debaixo da saia da tia judia de Israel e quer nos ensinar...
Fizeram sua revolução, antes da francesa, e tal, tudo bem. Mas...
Vamos ao Brasil.
Nossa política internacional, no plano dos direitos humanos, é uma merda.
Tem gente morrendo nas prisões do Irã e nas de Cuba, só pra dizer dois casos, e o Brasil se cala.
Aqui o governo paga pensão por tudo e por nada, basta ter sido contra a ditadura.
Tudo bem.
Mas é obrigação de todo país democrata agir democraticamente, sempre, condenando países que reprimem, oprimem, suprimem direitos.
Lula não poderia ditar regras aos manos Castro, visitando-os. Geisel visitava Stroessner, Videla...
Mas nas instâncias internacionais pode e deve, sim.
O Brasil pode e deve, sim, encher o saco de seus irmãos que não respeitam os DH, inda que o Brasil lute para os fazer respeitar internamente.
Temos deveres democráticos a cumprir.
Lição um: limpar as delegacias de polícia e mandar aos presídos os condenados;
Dois: limpar os presídios e mandar pra casa os que cumpriram pena;
Três: condenar às galés apenas os perigosos à sociedade, pois aquilo é o inferno;
Quatro: adotar a pena civil - tipo multa -, pois esta, sim, ferra quem age contra a sociedade;
Cinco: proteger a sociedade, garantindo segurança a quem paga impostos e abre mão da autodefesa; algo assim Suiça, pelo menos.
Ou liberemos a PM para que elimine nossos inimigos.
Ponto.
Mais tarde escreverei aqui sobre meu Estado,noves fora Rousseau: o homem não presta e ponto final.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Curitiba, Curitiba

Letra de uma canção feita em 1980. Por Jorge Teles.
Retirada do site 50 anos de textos, criado, teúdo e manteúdo pelo grande Sérgio Vaz. Confira o http://50anosdetextos.com.br



Eu quero, agora, cantar Curitiba,
cidade branca, limpa e sadia,
pedindo à Musa que me não proíba.

Quero cantar miséria e alegria,
munido de poética coragem
e equipado de inspirada ousadia.

Começo, então, esta minha viagem
procurando arrolar seus disparates,
o seu trabalho e sua vadiagem.

Rua das Flores, dolés, chocolates,
cafés e churros. Todos misturados,
estelionatários e engraxates,

mendigos, bichas loucas, advogados,
confusão de inquietos e teimosos,
de ofendidos e de humilhados.

Boca Maldita, encontro de ociosos
com o linguajar ferino criticando,
mas sem nada assumir, de tão medrosos.

Batel, com suas bruxas convidando
outras bruxas pros chás beneficentes,
e o jornalista idiota, publicando

suas recepções e seus presentes,
suas viagens pela Argentina,
seus filhos belos, vis e delinqüentes.

Enquanto as filhas, diante da vitrina
discutem de vestidos dispensáveis
pra debutar a vaidade cretina.

Nas marechais, políticos vendáveis,
executivos, ladrões, contadores,
corruptos, banqueiros execráveis,

subornos, mordomias, mil horrores,
tudo de acordo com a justiça cega
e a proteção dos desembargadores.

E o dinheiro secreto que escorrega
pros cofres da canalha protetora
que despoja, assassina e sonega.

Rua Riachuelo, a domadora
provocando o passante com o convite
em troca da moeda enganadora.

Sede das pragas mil de Afrodite,
fome e dor simuladas e escondidas,
nas máscaras de um prazer sem limite.

Madrugadas eternas e sofridas,
batidas, cassetetes, frio e sono,
té que o sol afugente as desvalidas.

Passeio Público, o filho sem dono,
filho que é só filho da empregada
mal paga pela mãe do abandono.

Na areia a criança é negligenciada
enquanto a pobre moça fica à espera
do soldadinho que está de emboscada.

Nas áreas verdes, a alegria austera
dos papais e mamães endomingados
que a TV anunciou a primavera.

Em volta disso tudo, os amontoados
de cães, caixotes, latas, ferro velho,
lixo e alguns casebres definhados;

as roupas com remendos no joelho,
nas panelas só cabeças de bagre,
os bens aventurados do evangelho.

Filhos do fel diário e do vinagre,
disputando o diabólico pão:
sustentáculos do podre milagre.

Guabirotuba, Xaxim, Boqueirão,
Abranches, Oficinas, Barigüi,
Pinheirinho, Los Angeles, Portão,

Juvevê, Vila América, Tingüi,
Uberaba, Boa Vista, Cajuru,
Barreirinha, Cabral, Bacacheri,

Bigorrilho, Água Verde e Ahu,
Alto da Quinze, Mercês e Taboão.
Curitiba, querida, I love you.

Jorge Teles é formado em Letras-Português, apesar de ter trabalhado mais especificamente com Arte na Educação. Durante todo o magistério foi diretor de grupos de teatro amador e esteve à frente de textos de Gil Vicente, Plauto, Cervantes, Camões e outros. Em 1986 conheceu o Esperanto, tendo publicado duas obras de ficção em edição bilingue. Gosta de brincar de fazer música.