quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Código de Hamurábi

100. . . . juro pelo dinheiro que tenha recebido, ele dever dar nota, e no dia acordado, pagar ao mercador.
101. Se não existirem acordos mercantis no local onde foi, ele deverá deixar todo dinheiro que recebeu com o intermediário para ser dado ao mercador.
102. Se um mercador confiar dinheiro a um agente para algum investimento, e o agente sofrer uma perda, ele deve ressarcir o capital do mercador.
103. Se, quando em viagem, um inimigo levar dele tudo o que tiver, o intermediário deve jurar ante os deuses que não teve culpa no ocorrido e ser absolvido de qualquer culpa.
104. Se um mercador der a um agente cereais, lã, óleo ou quaisquer outros bens para transporte, o agente deve dar um recibo pela quantia, e compensar o mercador de acordo com o devido. Então ele deve obter um recibo do mercador pelo dinheiro que deve ao primeiro.
105. Se o agente for descuidado e não tomar recibo pelo dinheiro que deu ao mercador, ele não poderá considerar o dinheiro não recebido como seu.
106. Se o agente aceitar dinheiro do mercador, mas brigar com ele (o mercador negando o recibo), então o mercador deve jurar ante os deuses que deu dinheiro ao agente, e o agente deverá pagar ao mercador três vezes a soma devida.
107. Se o mercador enganar o agente, devolvendo ao dono o que lhe foi confiado, mas o mercador negar o recebimento do que for devolvido a ele, o agente deve condenar o mercador ante os deuses e juizes, e se ele ainda negar recebimento do que o agente lhe deu, ele deverá pagar seis vezes mais o total ao agente.

E o comandante Fidel surpreende outra vez

Retirado do El País, versão digital, o melhor jornal do mundo.


Las últimas declaraciones de Fidel Castro han vuelto a sorprender. Y ya se va convirtiendo en un hábito: desde que el ex mandatario comunista reapareció en público hace dos meses, tras cuatro años de reclusión y enfermedad, cada vez el Comandante dispara más alto. Si la semana pasada dejó a más de uno perplejo al reconocer su responsabilidad en la política de persecución a los homosexuales en la década de los sesenta y setenta, ahora Castro ha dado muestras de un increíble realismo al admitir a un periodista estadounidense que "el modelo cubano" no se puede exportar porque "no funciona" ni en la isla.

Castro, de 84 años, fue entrevistado la semana pasada en La Habana por el periodista Jeffrey Goldberg, junto a la experta norteamericana en relaciones exteriores Julia Sweig. Fueron más de diez horas de conversaciones y encuentros durante varios días. En ese tiempo hablaron de los temas últimamente preferidos por el líder comunista, especialmente el conflicto arabe-israelí y la posibilidad del estallido de una guerra nuclear si continúan las tensiones con Irán.

En un momento de la conversación, los norteamericanos preguntaron a Castro sobre la vigencia del modelo cubano y su posible validez en otros países. Castro, cada vez más por encima del bien y del mal, contestó que tal cosa no era pertinente y añadió: "El modelo cubano ya no funciona ni siquiera para nosotros". Lo escribió el propio Goldberg en la revista The Atlantic, y tanta fue su sorpresa que incluso le preguntó a Sweig -una reputada experta en asuntos cubanos- cuál era su interpretación a las palabras del ex presidente cubano, que continúa siendo primer secretario del Partido Comunista de Cuba.

Según Sweig, Castro "no estaba rechazando las ideas de la revolución" sino que se trataba de "un reconocimiento de que bajo el modelo cubano el Estado tiene un papel demasiado grande en la vida económica del país". La analista interpretó que con sus declaraciones Castro buscaba "crear un espacio" para que su hermano, el presidente Raúl Castro, pudiera poner en marcha "reformas necesarias, frente a lo que seguramente encontrará resistencias de los comunistas ortodoxos dentro del partido y la burocracia".

La entrevista publicada este miércoles por la revista norteamericana es la segunda de una serie que resumirá los encuentros de Golberg con Castro en la isla, respondiendo a una invitación del ex jefe de Estado. En el primer trabajo Castro criticó al presidente de Irán, Mahmud Ahmadineyad, por sus declaraciones antisemitas, y le pidió que "deje de difamar a los judíos" y que trate de entender por qué los israelíes temen por su existencia.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Chile: o verdadeiro milagre dos milagres

O escritor chileno Ariel Dorfman contextualiza o desastre na mina San José: a secular exploração dos mineiros, a sabedoria organizativa passada de geração em geração. E pede o milagre de que as coisas mudem em seu país. "O mundo maravilhou-se com a maneira pela qual os trinta e três mineiros confinados debaixo da terra de San José se organizaram em turnos, criaram uma hierarquia de mando e elaboraram um plano de sobrevivência usando os talentos e recursos acumulados ao longo de uma vida de trabalho tenaz. Eu confesso, em troca, não sentir surpresa alguma. É assim que os trabalhadores chilenos sempre resistiram e sobreviveram aos desafios mais formidáveis".

Ariel Dorfman - Página/12

Uma vida inteira. Creio que os trinta e três mineiros sepultados nas profundidades da mina San José,no Chile, prepararam-se durante toda sua vida para enfrentar o desafio de ficar vários meses debaixo da terra. Ou talvez possa me aventurar a dizer que essa é uma batalha que vêm travando desde antes mesmo de nascer.

A epopéia de homens que descem às trevas da montanha, separam minerais em meio à escuridão e sofrem um acidente que os deixa a mercê daquela escuridão é parte do DNA do Chile, uma parte integral da história do meu país. Foi uma das primeiras coisas que aprendi sobre o Chile, quando cheguei a Santiago, em 1954, aos doze anos de idade.

Abram seus livros até encontrar “El Chiflón del Diablo” – nos pediu um professor es espanhol. Um conto de Baldomero Lillo, publicado em 1904.

Era um relato de uma catástrofe semelhante a esta que, muitas décadas mais tarde, no dia 6 de agosto de 2010, afetaria os mineiros de San José. Ali se encontra uma tragédia que iria se repetir interminavelmente, como a terra devora aqueles que se atrevem a mergulhar em suas entranhas, uma exploração da miséria que, como tantos outros contos clássicos escritor por Baldomero Lillo no início do século XX, todo estudante chileno deve estudar. É claro que aqueles trinta e três mineiros não sabiam quando leram “El Chiflón del Diablo” no colégio que algum dia teriam que viver esse terror na realidade de suas vidas e não na literatura. Não podiam adivinhar que, mais de cem anos depois de Baldomero Lillo imaginar essa ficção, as precárias condições da vida mineira, a exploração humana, os riscos para os trabalhadores, seguiriam essencialmente inalterados.

A mineração forjou o Chile
Os conquistadores que fundaram as primeiras cidades cruzaram desertos alarmantes e vales proibidos em busca de ouro. Depois passou a se apreciar o valor de outros minérios: o ferro, que era fundido em altos fornos, o cobre que ainda hoje é o principal produto de exportação do Chile, e o carvão do Sul, sobre o qual Lillo escreveu e que foi crucial para os barcos que aportavam para se reabastecer a caminho de uma Flórida presa à febre do ouro. De fato, muitas das técnicas utilizadas na Califórnia, a partir de 1849, deveram-se a chilenos que nasceram e se criaram em Copiapó, perto de onde hoje se encontra a mina San José. Milhares e milhares deles partiram aos Estados Unidos com a repentina ilusão de enriquecer.

Mas, de todos os minerais, foi o salitre que, acima de todos os outros, criou o Chile da modernidade. Essas extensões de crosta salina no Atacama, o deserto mais seco do mundo, constituíam a base para o melhor fertilizante conhecido pelo homem e, além disso, serviam para fabricar explosivos. Centenas de pequenas cidades se levantaram nas planícies pedregosas do Pampa “salitrero” e milhões de toneladas foram enviadas a uma Europa atada a uma revolução industrial que necessitava desesperadamente aumentar sua produção agrícola. Algumas décadas mais tarde, como ocorre com tanta freqüência na América latina e outros lugares tristes do planeta – pensemos na borracha do Amazonas ou na prata de Potosí -, diminuiu a demanda de salitre e só restaram alguns povoados fantasmas, uma diáspora de casas raquíticas esparramadas pelo deserto, uma legião de vidas em ruínas.

O nitrato deixou algo mais do que desolação detrás de si. O mundo maravilhou-se com a maneira pela qual os trinta e três mineiros confinados debaixo da terra de San José se organizaram em turnos, criaram uma hierarquia de mando e elaboraram um plano de sobrevivência usando os talentos e recursos acumulados ao longo de uma vida de trabalho tenaz. Eu confesso, em troca, não sentir surpresa alguma. É assim que os trabalhadores chilenos sempre resistiram e sobreviveram aos desafios mais formidáveis. É o legado daqueles que extraíram o salitre em uma situação de solidão e pobreza, daqueles que, na época em que Baldomero Lillo escrevia sobre os tormentos dos mineiros, souberam estabelecer os primeiros sindicatos, os primeiros grupos de leitura, os primeiros jornais da classe operária. Essas lições de unidade, força e ordem e, sim, astúcia, foram passadas de pai para filho e neto: o que todo homem precisava saber para superar os desastres que o esperavam em um mundo sem misericórdia.

Por certo, uma sorte piedosa visitou os trinta e três mineiros neste dia de agosto, quando a montanha veio abaixo. Mas não foi a sorte que os manteve com vida. Dentro deles se encontrava o treinamento invisível, o alento de seus ancestrais, que se perpetuaram para murmurar-lhes o que deviam fazer para não morrer uma e outra vez na obscuridade. Houve um milagre em San José, mas por a ênfase tão somente na fortuna benigna é perder de vista o que pode ser talvez o significado mais recôndito do que ocorreu nesse lugar, e que segue ocorrendo, é deixar de lado as perguntas que verdadeiramente importam.

Como é possível que, mais de um século depois de os contos de Baldomero Lillo denunciarem as circunstâncias ferozes em que se trabalhava sob o solo, ainda persistam a mesma insegurança, os mesmos perigos? Quantos novos acidentes como este faltam ocorrer para que se legisle preventivamente e os mineiros possam tocar seu trabalho cotidiano sem arriscar suas vidas de uma forma indecorosa?

Esses trinta e três mineiros são agora heróis nacionais e internacionais, com todo o Chile, e uma boa parte do mundo, acompanhando seu progresso paulatino rumo à luz do dia. Devido a uma dessas coincidências que a história nos oferece de vez em quando, esses homens ficaram presos no preciso momento em que as últimas estatísticas demonstraram, para nossa vergonha, que a pobreza no Chile aumentou drasticamente pela primeira vez desde que Pinochet deixou de ser o ditador do país.
É demasiado sonhar que as tribulações desses homens perturbarão a consciência do Chile, que ajudarão a criar um país onde, dentro de cem anos, os relatos de Baldomero Lillo e a história dos trinta e três mineiros de San José serão coisa do passado, uma relíquia, algo lendário mas já não rotineiro?

Isso sim é que seria um milagre.

(*) Ariel Dorfman é o autor da novela “Americanos: Los Pasos de Murieta” e do livro “Memorias del Desierto”, que explora a vida dos mineiros do norte do Chile.

Tradução: Katarina Peixoto

sábado, 4 de setembro de 2010

Uma vez Gazeta, sempre Gazeta

Este é o primeiro parágrafo do destaque entre as notas de falecimento publicadas na edição de hoje da Gazeta do Povo, caquético jornal curitibano - e o único da capital que ainda se pode ler, imaginem os demais.

Durante seus 57 anos de vida, o autônomo Jair Cordeiro fez um pouco de tudo. Não gostava de ficar parado. Nascido em Curitiba, durante a infância foi um moleque esperto, que ajudava os pais na lida diária. Quando completou 18 anos, foi servir o Exército na antiga base aérea do Bacacheri.

Pois é: trata-se do primeiro caso de alguém que serve o Exército numa dependência da Aeronáutica.
Certamente, há pilotos no 20.º BIB.

A Gazeta do Povo é uma coisa.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Duio na Academia Paranaense de Letras

O texto abaixo é um dos perfis traçados pelo jornalista joaçabense-curitibano Eduardo Sganzerla, de quem tenho a honra de ser amigo desde os gloriosos tempos do Colégio Estadual do Paraná, lá pelos idos de 1970 ou 1971. É uma das mais belas passagens do livro "Homens do Mar", que Eduardo, o Duio dos amigos, produziu em parceria com a (bela) fotógrafa Mariana Branco.
Já nem sei mais quantos livros ele escreveu ou apenas editou, em suas editoras Esplendor, a nave-mãe, e Rosea Nigra. Uma das obras, de culinária tradicional para crianças, foi recentemente premiada num salão na França.
Tive o prazer de ler, antes da maioria, seu primeiro e até agora único romance publicado, "Caminhos que levam para o Norte", que por si só já explica a competência do Duio e justifica a campanha aqui, por mim, iniciada: queremos Eduardo Sganzerla na Academia Paranaense de Letras.
Já está lá uma catreba de jornalistas de boa estirpe: Adherbal Fortes de Sá Jr., Luiz Geraldo Mazza, Dante Mendonça, Ernani Buchmann, Apolo Taborda França, Laurentino Gomes, Dante Mendonça (ainda não empossados) e um ou outro que me escapou.
Pois agora queremos o Duio, que merece a vaga pelo que escreve e pelo que edita.
Candidatura lançada. Mexa-se, sr. Dante José Mendonça.


Benedito Matias Porto, o formulador do pensamento dos “pescadores invisíveis”

Com 8 anos o pai, que pescava e trabalhava na roça, o colocou na canoa pela primeira vez. Não podia remar de tão franzino que era. “Filho de pescador, não tinha outra coisa a fazer senão pescar e trabalhar na roça”. Nascido em Costa Dourada, no extremo Sul da Bahia, Benedito Matias Porto, que todos chamam de Bi, 57 anos, vivendo hoje não muito distante de onde nasceu, em Conceição da Barra, seguiu esta sina, a de ser pescador. Não trabalha mais na roça porque nem terra tem. Tão franzino quando era como criança, crio-se na tradição mar, mas com uma grande diferença de seu pai, José Qoch Porto, 84 anos: autodidata, aprendeu a compreender os fatos além da mera constatação da realidade. Quem sabe por dom da natureza e muito esforço próprio, é um homem dotado de uma capacidade intelectual excepcional. Por esta qualidade, é muito respeitado e ouvido por seus companheiros pescadores dali e de toda a região.
“Nós, pescadores, vivemos praticamente até hoje em um sistema arcaico, por falta de assistência do poder público, que nos abandonou de tal forma que temos que ser doutores de nossa própria causa”, diz ele. “No Brasil, foi criado um sistema de controle dos pescadores que ignorou a grande maioria deles. Fomos submetidos a este poder a vida toda. Nunca fomos ouvidos, como se fôssemos os ‘invisíveis da pesca’. Mas os pescadores têm uma cultura de resistência. Por isso, sobrevivem”, acrescenta.
Bi nunca estudou. Perdeu a mãe quando era criança. Foi criado pela madrasta. Fugiu de casa aos 14 anos, de canoa, indo parar em Conceição da Barra. Aprendeu a ler e escrever “na escola da vida”. Hoje, com quatro filhos e quatro netos, vive numa casa modesta na praia da Bugia, bem próximo à foz do rio São Mateus. Seu passatempo preferido é a leitura. Defronte à rua, abriu uma lanchonete, que ajuda no sustento da família. Quem cuida é a mulher. Tem suas incursões na política local, já foi candidato a vereador; polêmico, participa de conselhos municipais com intensidade, mas o que gosta de fazer é se dedicar a tudo que está relacionado com a pesca e o mar. Atualmente, é presidente da Associação dos Maricultores, que abriga 96 famílias.
“Até recentemente, o pescador ficava totalmente isolado mar. Aqui, por exemplo, na pesca de arrastão de camarão, permanecia da 1 hora às 17 horas trabalhando. As únicas coisas que ouvia era o barulho do motor e das águas. Quando chegava em casa, não tinha tempo de conversar, porque chegava atabalhoado. Não conseguia dar atenção à família de tanto stress. O único ponto de convívio social era no barzinho, onde, com os amigos, tomava sua pinga. Que futuro esses homens tinham, ainda mais se não possuíam representação de classe? Hoje, as coisas começaram a mudar. O pescador tem um conhecimento diferente”, explica.
Embora os tempos sejam outros, Bi acredita que o pescador faz parte ainda de uma “subcategoria”, por culpa dos atrasos do passado. Dentre esses fatores, o que mais pesa é a estrutura de representação criada pela antiga Marinha. Embora uma nova estrutura sindical tenha passado a vigorar a partir da Constituição de 1988, na opinião dele, não atende aos interesses da base, os “invisíveis”. O sistema hierarquizado de colônias, federações e confederação, para ele, é falho porque há uma distância muito grande entre as estruturas de poder. “Até porque – está provado – que os que mandam não trabalham”, diz com ironia.
Em função disso, Bi acredita que o pescador é levado a cometer “graves erros sem saber”, na sua atividade. No caso do camarão, a principal fonte de sustento de Conceição da Barra e região, considera a pesca predatória. “Trabalhamos como há 50 anos; não pode ser pesca de arrastão. O certo é em covas que só pega o camarão adulto. Para levarmos um quilo de camarão à mesa do consumidor, matamos doze quilos.”, diz.
Um dos elementos essências que falta à pesca artesanal, no entender dele, é a assistência técnica. O acesso a um conhecimento que explique as características da espécie, as quantidades de produção e a comercialização, por exemplo. “Isto é algo que o próprio poder ignora. Quando o governo aparece, é só para multar. Precisamos de informações voltadas para cada espécie, sem que haja destruição em volta. A pesca da traineira, outro exemplo, é criminosa, mas pouco se faz para combatê-la. Isto é um absurdo. Hoje, existe sonar, equipamento que permite pegar a espécie e peixe no tamanho corretos”, diz ele.
Ele critica também a forma de atuação dos técnicos do setor: “Eles se fixam apenas no que aprenderam na teoria. Não buscam os conhecimentos ‘invisíveis’. São ‘invisíveis’ porque não foram buscados. Ora, é como acreditar nas lendas do Boitatá, do Lobisomem e do Saci Pererê. Eles nunca foram buscar a realidade”.
Outro problema que ele aponta é a política de financiamento do governo federal, através do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Recentemente, o governo ofertou uma linha de crédito para os pescadores, com o objetivo de que eles renovassem suas embarcações. “O pescador, mesmo no modelo arcaico, não tem condições de progredir possuindo apenas um barquinho. Necessita de um barco de R$ 150 a R$ 200 mil. Em nosso caso, o governo só liberou RS 18 mil – o que não dava nem para comprar uma boa rede. Em parte, a culpa é dos gestores da parte de baixo, que, em função disso, nos ofereceram a opção de comprarmos barcos sucateados. Parecia a salvação. No meu caso, paguei o financiamento, mas fiquei sem barco. Teve gente que não conseguiu nem pagar a primeira prestação e ficou sem barco”.
Benedito Porto tem apenas um bote, no qual ia ultimamente aos mangues do entorno do rio São Mateus, para catar caranguejo. A verdade é que, hoje, não há praticamente mais o caranguejo-uçá (Ucides cordatus) que possa ser consumido no litoral Norte capixaba. A população adulta foi dizimada pela Doença do Caranguejo Letárgico (DCL). O primeiro foco foi confirmado em 2005, em São Mateus, e a partir daí a doença se alastrou rapidamente. Depois, contaminou animais e dizimou quase toda a população do litoral capixaba. A maior parte dos mangues foi interditada e as autoridades contam com a própria resistência de alguns animais para a recuperação da população da espécie.
Ao todo, no Espírito Santo, 1.050 catadores profissionais de caranguejo foram obrigados a procurar outro meio de vida. Segundo o governo, a economia do caranguejo girava em torno de R$ 40 milhões anuais no estado. A situação dos caranguejeiros de Conceição da Barra, mais de 200 pessoas, assim, ficou pior do que a dos pescadores. Agora, diz Bi, “o pessoal vive jogado no lixo”. Com a Associação dos Maricultores, eles estão tentando uma nova alternativa de emprego e renda, mas o projeto que apresentaram, por questionamentos ambientais, ficou “enroscado na burocracia do governo”.
Benedito Porto acredita que todas essas deficiências, no Brasil, são resultado do modelo educacional. Ele tem uma visão muito própria, neste aspecto: acha que, “no primeiro dia de vida”, o estudante devia aprender política, porque “é este entendimento que determina a vida das pessoas”. E observa: “As pessoas têm que entender o que move o mundo; não podem ficar limitadas na aparência das coisas. Portanto, é preciso se aprofundar nos conhecimentos para entender de fato a realidade”.
Hoje, Benedito Porto sai muito pouco com seu bote. Só para catar algum tipo de marisco que a família possa consumir ou mesmo que ele possa vender para ajudar no sustento, mas já viveu “trinta anos de mar”. Quando fala sobre isso, se emociona e para de falar. Retoma o fôlego, lembrando com nostalgia quando singrava em canoa de vela, bem à frente de outros pescadores, porque magricela e dominava esta arte com muita destreza. “Como disse, não tinha força para remar. Era uma criança, mas desafiava os outros na vela e vinha bem à frente”. É justamente com esse espírito que ele continua enfrentando a vida.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Sambinha

Meu primeiro CD está em fase de pré-produção. Uma das canções de que mais gosto, ainda não finalizada, tem a letra aí embaixo. Aguardo a opinião da musa.


“Minha rainha nagô”

Arrumei uma morena

Do cabelo assim fulô

Ela me faz tanto carinho

Que eu me sinto um rei nagô

Minha morena tem olhinhos

Bem escuros, negrinhos

Que me olham brilhandinho

Feito assim dois passarinhos

Sua boca tem um céu

Onde os dentes são anjinhos

Bem branquinhos, bem branquinhos

Toda vez que ela me beija

Sinto tudo e quero mais

E de novo ela me beija

Como se fosse sempre agora

E nunca mais

Minha morena é uma escultura

Uma linda criatura

Um presente que Deus me deu

E eu não posso agradecer

Não há prece nessa vida

Não há penitência sentida

Que pague tamanho amor

Que ganhei e dou em dobro

Pra morena que me abraça

Me sufoca em seu ardor

E depois em seus silêncios

Logo depois do amor

Ela de novo me enlaça

E me enche de carinhos

Me dá ainda mais amor

Minha morena é um presente

Pra essa vida e pras outras

Se outras vidas eu tiver

E se tiver vou levar

Seu coração, seu carinho

Todos os abraços, beijinhos

E os seus olhos passarinhos

Também vou levar o cheirinho

Da minha lindinha pequena

Minha musa, namorada

Minha sereia encantada

Que me afoga nos seus braços

Me beija com todo amor

Todo esse amor de morena

Minha rainha nagô

Cara de um, fiofó de outro

Quando ninguém tá olhando, Dilma Rousseff vira Yamandu Costa e vice-versa

Yamandu Costa


Dilma Rousseff