Candidata Dilma Rousseff,
Considerando-se a necessidade de um maior detalhamento do Programa de Governo apresentado por sua candidatura em relação à EDUCAÇÃO, nós, servidores do Ministério da Educação, aqui representados por meio do Movimento de Valorização dos Trabalhadores em Educação do MEC – MOVATE, solicitamos a Vossa Senhoria manifestar-se perante os seguintes compromissos – os quais esperamos que sejam acolhidos em seu possível mandato:
* cumprir e colaborar efetivamente com as determinações legais do Plano Nacional de Educação – PNE, direcionando as ações do MEC no rumo dos PLANOS DE ESTADO, em detrimento de Planos de Governo, de forma que possamos assegurar um regime de continuidade da políticas públicas em educação;
* apoiar efetivamente os municípios na elaboração e acompanhamento dos respectivos Planos Municipais de Educação;
* estabelecer uma gestão técnica do Plano de Ações Articuladas – PAR para que esse instrumento possa de fato servir às políticas do MEC, não sendo implementado apenas com o atual viés político;
* priorizar a competência técnica e a clareza de princípios dos agentes que venham a ocupar cargos de direção no MEC, não mais utilizando a estrutura de cargos como forma de angariar apoio político de entidades ligadas a educação e de partidos políticos – muitos com interesses dissonantes dos reais propósitos do Órgão;
* reestruturar a força de trabalho do MEC priorizando abertura imediata de concurso público para provimento das vagas de nível superior – sobretudo da área fim do Ministério da Educação;
* priorizar a capacitação técnica dos servidores de acordo com o estabelecido no Art. 6º do Decreto 5.707/06 e garantir a isonomia salarial da estrutura remuneratória do MEC com as demais instituições vinculadas a este órgão, tais como FNDE, INEP, CAPES – estes já possuem planos de carreira, enquanto o MEC luta há mais de 20 anos pela estruturação de seus quadros;
* respeitar o Decreto 5151/04 e não mais contratar serviços de consultoria como forma de recompor a força de trabalho do MEC ou de atender a anseios fisiologistas de determinados grupos, reconhecendo o concurso público como forma legítima de acesso ao Ministério para trabalhadores que hoje prestam serviços ao Órgão de forma ilegal;
* comprometer-se com a inserção de servidores públicos efetivos na elaboração, execução e acompanhamento das políticas públicas, criando condições para o fortalecimento da memória institucional do MEC;
* investigar a lisura dos procedimentos que envolveram os contratos do MEC com organismos internacionais realizados nos últimos anos;
* cessar com as perseguições políticas desencadeadas pela atual administração do MEC contra servidores públicos que levaram a órgãos de controle denúncias de irregularidades praticadas por dirigentes do Ministério;
* permitir a reunião dos trabalhadores em seu local de trabalho, não mais impedindo o acesso de servidores do MEC aos auditórios que eram habitualmente utilizados como espaços de reuniões da categoria;
* elucidar à população brasileira o real alcance do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB, transparecendo o que de fato é mensurado pelo Índice e criando mecanismos contra a manipulação política dos dados (como o aumento artificial do IDEB por intervenções no fluxo escolar). Também combater qualquer tipo de discriminação das escolas ou sistemas de ensino baseada na pontuação do IDEB;
* assegurar a autonomia e restabelecer a missão política-administrativa do Conselho Nacional de Educação – CNE, dotando-o de meios para ampliar sua contribuição à educação brasileira;
* comprometer-se com a discussão ampla da Administração Pública, criando propostas alternativas que superem a lógica burocrática da administração clássica e a lógica da administração gerencial do governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, mantidas em boa parte pela atual gestão do MPOG.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Ao mestre, com carinho
Da Agência Fapesp
Estudioso do padrão de evolução dos répteis na América do Sul por mais de 60 anos, o zoólogo Paulo Emílio Vanzolini é um dos autores da Teoria dos Refúgios, que explica o surgimento da diversidade da fauna no continente.
A incalculável contribuição de Vanzolini para a ciência poderá ser apreciada em sua totalidade no livro Evolução ao Nível de Espécie: Répteis da América do Sul, lançado na última sexta-feira (15/10), na sede da Fapesp, com a presença do autor.
Publicada pela Editora Beca, com apoio da Fa´pesp, a obra traz na íntegra os 153 artigos científicos publicados por Vanzolini entre 1945 e 2004. O volume de 704 páginas, contendo 47 publicações selecionadas, é acompanhado por um CD-ROM com os outros 106 artigos do período.
De acordo com Vanzolini, o livro possibilita uma compreensão geral de sua obra, dedicada ao estudo sistemático dos répteis e à busca por um modelo evolutivo capaz de explicar a sua diversidade.
“Foi uma iniciativa muito interessante, porque muitos desses artigos estavam dispersos em revistas que não estão disponíveis mundialmente. O conteúdo é bastante representativo da minha carreira e é bom ter tudo isso reunido em um lugar só”, disse ele à Agência Fapesp.
Segundo Celso Lafer, presidente da Fapesp, a publicação do livro é um reconhecimento da contribuição de Paulo Vanzolini para o desenvolvimento da ciência no campo da zoologia. “É também uma maneira de sublinhar como a história de sua vida está ligada de maneira tão construtiva à da Fapesp, desde a década de 50 do século passado”, disse Lafer.
Vanzolini teve participação ativa nos movimentos organizados por pesquisadores de instituições paulistas voltados para tornar real a criação do órgão de fomento à pesquisa científica que era previsto na Constituição Estadual Paulista de 1947.
A ação desses cientistas resultou na elaboração do Projeto de Lei que levou à criação da Fapesp, também com a participação de Vanzolini. “Ele contribuiu para a estruturação da Fundação e para a concepção do seu modelo de organização”, afirmou Lafer.
Vanzolini também integrou a primeira composição do Conselho Superior da Fapesp, de 1961 a 1967, e cumpriu mandatos de conselheiro de 1977 a 1979 e de 1986 a 1993, além de coordenar inúmeros projetos com apoio da Fundação.
Formado em Medicina na Universidade de São Paulo (USP), Vanzolini concluiu o doutorado em 1951 na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e decidiu trabalhar com herpetologia, o estudo de répteis e anfíbios.
Diretor do Museu de Zoologia da USP de 1962 a 1993, teve forte atuação na organização da coleção da instituição. Em sua gestão, a coleção passou de pouco mais de mil exemplares catalogados para mais de 300 mil.
Além de zoólogo, Vanzolini se destacou também como compositor de música popular. É um dos maiores nomes do cancioneiro nacional, autor de músicas - gravadas por dezenas de cantores - como Ronda, Praça Clóvis e Volta por cima.
Gênese de uma teoria
No fim da década de 1960, em conjunto com o biólogo norte-americano Ernest Williams e com a colaboração do geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber, Vanzolini resgatou conceitos que eram usados para explicar a diferenciação de aves na Europa e apresentou a Teoria dos Refúgios. A mesma proposta foi feita simultaneamente pelo alemão Jurgen Haffer, de forma independente.
Até ali, a hipótese mais aceita para explicar a existência da biodiversidade nas florestas sul-americanas era a influência de longos períodos de estabilidade climática e geológica, que teriam representado ambiente propício para cruzamentos e reprodução, gerando grande número de espécies.
“Mas havia diferenciações que não se explicavam pelas diferenças da ecologia das florestas. A Amazônia, por exemplo, não foi sempre igual. No passado houve períodos de redução da floresta e certas formas de vida, isoladas nesses refúgios remanescentes, não se misturaram mais e geraram novas espécies”, explicou Vanzolini.
A Teoria dos Refúgios estabelece que o continente teria passado, no último 1,6 milhão de anos, por ciclos de variações climáticas intensas. Quando o continente enfrentou a última glaciação – entre 18 mil e 14 mil anos atrás –, o frio teria formado nichos geográficos com florestas tropicais – ou refúgios –, que garantiram a sobrevivência de espécies menos acostumadas ao frio.
“A diversidade e a especiação não surgiram a partir de uma evolução estável, mas graças à formação das ilhas de isolamento e a mudanças frequentes”, disse.
Haffer, de acordo com Vanzolini, foi mesmo o primeiro a chegar a essa ideia, não a partir de dados experimentais, mas de uma perspectiva teórica. “Quem inventou a Teoria dos Refúgios foi ele, a partir de um brilhante trabalho conceitual. Eu apenas confirmei tudo isso, de forma independente, a partir da análise de um grupo de lagartos com base em um amplo trabalho de campo. Chegamos ao mesmo ponto, quase simultaneamente, por caminhos inversos”, disse.
Em 1969, Vanzolini trabalhava no Museu de Zoologia da USP na companhia de Williams – que viera da Universidade Harvard para o Brasil especialmente para desenvolver a pesquisa que fundamentava a Teoria dos Refúgios – quando recebeu um envelope da revista norte-americana Science.
“Eles estavam me pedindo um parecer sobre o artigo do professor Haffer. Ele era meu amigo, mas eu não sabia que estava desenvolvendo essa teoria, pois até ali não havia documentação alguma. Eu e Williams ficamos surpresos e enviamos para Haffer o trabalho sobre a distribuição de répteis. Ele veio em seguida para o Brasil e publicamos simultaneamente, em 1970, os dois artigos”, relembrou.
Vanzolini, no entanto, não considera a Teoria dos Refúgios como o foco central de seus trabalhos e sim como uma de suas consequências.
“Meu foco científico sempre foi o padrão de evolução dos répteis na América do Sul no Terciário Superior e no Quaternário. A Teoria dos Refúgios é um aspecto desse trabalho. Uma consequência de uma visão interdisciplinar da pesquisa. Sou zoólogo de profissão, mas tive que aprender a usar ferramentas estatísticas e interagir com os geógrafos. Eu me diverti muito fazendo isso”, afirmou.
Ab’Saber, segundo Vanzolini, foi o responsável por fornecer a bibliografia necessária na área de geomorfologia. “Nossa sorte foi que existia em São Paulo uma faculdade de geografia de qualidade muito alta”, afirmou.
Apesar da grande influência da Teoria dos Refúgios, há estudos que procuram contestá-la ou até negá-la completamente. Vanzolini, no entanto, afirma que até o momento ninguém apresentou nenhuma explicação científica mais convincente.
“Eu, pessoalmente, não tenho dúvida alguma. As contestações levantadas até agora eram superficiais. Podemos dizer até mesmo que a Teoria dos Refúgios é algo que ficou no passado, como algo consolidado. Trata-se de uma teoria tão lógica que o primeiro que estudou o assunto a fundo chegou a ela”, apontou.
Futuro promissor
Para Vanzolini, no entanto, a partir da base fornecida pela Teoria dos Refúgios, os estudos na área de zoologia deverão avançar com muita rapidez, nos próximos anos, graças às novas ferramentas e metodologias disponíveis.
“Quando comecei minha carreira, a zoologia brasileira era uma tristeza. O mais importante era competir com os estrangeiros em termos de nomenclatura. Hoje já avançamos muito. E o futuro é muito promissor”, afirmou.
Vanzolini citou a tese de doutorado defendida em 2009 por Fernando Mendonça d'Horta, no Instituto de Biociências da USP, orientada pela professora Cristina Yumi Miyaki, como exemplo das possibilidades de avanço da zoologia a partir de novas ferramentas.
“Ele trata da Teoria dos Refúgios a partir da perspectiva da genética, que gera resultados incomparavelmente mais robustos que a perspectiva da estatística. Há 20 anos, isso seria impensável. Hoje, temos essa interação com geneticistas. No Museu de Zoologia, temos teses sobre peixes nessa mesma linha”, disse.
Estudioso do padrão de evolução dos répteis na América do Sul por mais de 60 anos, o zoólogo Paulo Emílio Vanzolini é um dos autores da Teoria dos Refúgios, que explica o surgimento da diversidade da fauna no continente.
A incalculável contribuição de Vanzolini para a ciência poderá ser apreciada em sua totalidade no livro Evolução ao Nível de Espécie: Répteis da América do Sul, lançado na última sexta-feira (15/10), na sede da Fapesp, com a presença do autor.
Publicada pela Editora Beca, com apoio da Fa´pesp, a obra traz na íntegra os 153 artigos científicos publicados por Vanzolini entre 1945 e 2004. O volume de 704 páginas, contendo 47 publicações selecionadas, é acompanhado por um CD-ROM com os outros 106 artigos do período.
De acordo com Vanzolini, o livro possibilita uma compreensão geral de sua obra, dedicada ao estudo sistemático dos répteis e à busca por um modelo evolutivo capaz de explicar a sua diversidade.
“Foi uma iniciativa muito interessante, porque muitos desses artigos estavam dispersos em revistas que não estão disponíveis mundialmente. O conteúdo é bastante representativo da minha carreira e é bom ter tudo isso reunido em um lugar só”, disse ele à Agência Fapesp.
Segundo Celso Lafer, presidente da Fapesp, a publicação do livro é um reconhecimento da contribuição de Paulo Vanzolini para o desenvolvimento da ciência no campo da zoologia. “É também uma maneira de sublinhar como a história de sua vida está ligada de maneira tão construtiva à da Fapesp, desde a década de 50 do século passado”, disse Lafer.
Vanzolini teve participação ativa nos movimentos organizados por pesquisadores de instituições paulistas voltados para tornar real a criação do órgão de fomento à pesquisa científica que era previsto na Constituição Estadual Paulista de 1947.
A ação desses cientistas resultou na elaboração do Projeto de Lei que levou à criação da Fapesp, também com a participação de Vanzolini. “Ele contribuiu para a estruturação da Fundação e para a concepção do seu modelo de organização”, afirmou Lafer.
Vanzolini também integrou a primeira composição do Conselho Superior da Fapesp, de 1961 a 1967, e cumpriu mandatos de conselheiro de 1977 a 1979 e de 1986 a 1993, além de coordenar inúmeros projetos com apoio da Fundação.
Formado em Medicina na Universidade de São Paulo (USP), Vanzolini concluiu o doutorado em 1951 na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e decidiu trabalhar com herpetologia, o estudo de répteis e anfíbios.
Diretor do Museu de Zoologia da USP de 1962 a 1993, teve forte atuação na organização da coleção da instituição. Em sua gestão, a coleção passou de pouco mais de mil exemplares catalogados para mais de 300 mil.
Além de zoólogo, Vanzolini se destacou também como compositor de música popular. É um dos maiores nomes do cancioneiro nacional, autor de músicas - gravadas por dezenas de cantores - como Ronda, Praça Clóvis e Volta por cima.
Gênese de uma teoria
No fim da década de 1960, em conjunto com o biólogo norte-americano Ernest Williams e com a colaboração do geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber, Vanzolini resgatou conceitos que eram usados para explicar a diferenciação de aves na Europa e apresentou a Teoria dos Refúgios. A mesma proposta foi feita simultaneamente pelo alemão Jurgen Haffer, de forma independente.
Até ali, a hipótese mais aceita para explicar a existência da biodiversidade nas florestas sul-americanas era a influência de longos períodos de estabilidade climática e geológica, que teriam representado ambiente propício para cruzamentos e reprodução, gerando grande número de espécies.
“Mas havia diferenciações que não se explicavam pelas diferenças da ecologia das florestas. A Amazônia, por exemplo, não foi sempre igual. No passado houve períodos de redução da floresta e certas formas de vida, isoladas nesses refúgios remanescentes, não se misturaram mais e geraram novas espécies”, explicou Vanzolini.
A Teoria dos Refúgios estabelece que o continente teria passado, no último 1,6 milhão de anos, por ciclos de variações climáticas intensas. Quando o continente enfrentou a última glaciação – entre 18 mil e 14 mil anos atrás –, o frio teria formado nichos geográficos com florestas tropicais – ou refúgios –, que garantiram a sobrevivência de espécies menos acostumadas ao frio.
“A diversidade e a especiação não surgiram a partir de uma evolução estável, mas graças à formação das ilhas de isolamento e a mudanças frequentes”, disse.
Haffer, de acordo com Vanzolini, foi mesmo o primeiro a chegar a essa ideia, não a partir de dados experimentais, mas de uma perspectiva teórica. “Quem inventou a Teoria dos Refúgios foi ele, a partir de um brilhante trabalho conceitual. Eu apenas confirmei tudo isso, de forma independente, a partir da análise de um grupo de lagartos com base em um amplo trabalho de campo. Chegamos ao mesmo ponto, quase simultaneamente, por caminhos inversos”, disse.
Em 1969, Vanzolini trabalhava no Museu de Zoologia da USP na companhia de Williams – que viera da Universidade Harvard para o Brasil especialmente para desenvolver a pesquisa que fundamentava a Teoria dos Refúgios – quando recebeu um envelope da revista norte-americana Science.
“Eles estavam me pedindo um parecer sobre o artigo do professor Haffer. Ele era meu amigo, mas eu não sabia que estava desenvolvendo essa teoria, pois até ali não havia documentação alguma. Eu e Williams ficamos surpresos e enviamos para Haffer o trabalho sobre a distribuição de répteis. Ele veio em seguida para o Brasil e publicamos simultaneamente, em 1970, os dois artigos”, relembrou.
Vanzolini, no entanto, não considera a Teoria dos Refúgios como o foco central de seus trabalhos e sim como uma de suas consequências.
“Meu foco científico sempre foi o padrão de evolução dos répteis na América do Sul no Terciário Superior e no Quaternário. A Teoria dos Refúgios é um aspecto desse trabalho. Uma consequência de uma visão interdisciplinar da pesquisa. Sou zoólogo de profissão, mas tive que aprender a usar ferramentas estatísticas e interagir com os geógrafos. Eu me diverti muito fazendo isso”, afirmou.
Ab’Saber, segundo Vanzolini, foi o responsável por fornecer a bibliografia necessária na área de geomorfologia. “Nossa sorte foi que existia em São Paulo uma faculdade de geografia de qualidade muito alta”, afirmou.
Apesar da grande influência da Teoria dos Refúgios, há estudos que procuram contestá-la ou até negá-la completamente. Vanzolini, no entanto, afirma que até o momento ninguém apresentou nenhuma explicação científica mais convincente.
“Eu, pessoalmente, não tenho dúvida alguma. As contestações levantadas até agora eram superficiais. Podemos dizer até mesmo que a Teoria dos Refúgios é algo que ficou no passado, como algo consolidado. Trata-se de uma teoria tão lógica que o primeiro que estudou o assunto a fundo chegou a ela”, apontou.
Futuro promissor
Para Vanzolini, no entanto, a partir da base fornecida pela Teoria dos Refúgios, os estudos na área de zoologia deverão avançar com muita rapidez, nos próximos anos, graças às novas ferramentas e metodologias disponíveis.
“Quando comecei minha carreira, a zoologia brasileira era uma tristeza. O mais importante era competir com os estrangeiros em termos de nomenclatura. Hoje já avançamos muito. E o futuro é muito promissor”, afirmou.
Vanzolini citou a tese de doutorado defendida em 2009 por Fernando Mendonça d'Horta, no Instituto de Biociências da USP, orientada pela professora Cristina Yumi Miyaki, como exemplo das possibilidades de avanço da zoologia a partir de novas ferramentas.
“Ele trata da Teoria dos Refúgios a partir da perspectiva da genética, que gera resultados incomparavelmente mais robustos que a perspectiva da estatística. Há 20 anos, isso seria impensável. Hoje, temos essa interação com geneticistas. No Museu de Zoologia, temos teses sobre peixes nessa mesma linha”, disse.
Consenso conservador cria falsa divergência entre Serra e Dilma
Do Correio da Cidadania
Aqueles que esperavam se deparar com um digno debate político no primeiro turno, que pudesse ajudar na escolha de um candidato, acabaram bastante frustrados. Denuncismo hipócrita, promessas excessivas, citações de feitos passados, desfile de números e siglas invadiram o cotidiano dos eleitores, sem nada lhes dizer dos problemas reais do Brasil e de projeções efetivas para o futuro.
Entre os adversários à frente nas pesquisas, e que agora disputarão o segundo turno, nós cidadãos, vimos, de um lado, um candidato que não se arriscaria jamais a uma crítica cerrada ao presidente Lula, com medo de perder mais popularidade; de outro lado, uma candidata que não poderia levantar os temas cruciais da nação, temerosa de perder o apoio da burguesia.
A ausência de radicalização por parte de Serra e de Dilma perfaz um retrato cabal da despolitização a que assistimos, de forma a só cortejar as visões mais consensuais e conservadoras. O estilo comum aos dois candidatos consiste, ademais, em uma demonstração inequívoca da sua conformação ao modelo de sociedade neoliberal.
Para o sociólogo Francisco de Oliveira, nosso entrevistado especial, não é necessário ir longe e nem divagar pela questão religiosa ou ambiental para buscar as causas do crescimento de Marina no primeiro turno. Foi em meio à convergência entre Serra e Dilma que pôde surfar uma candidata, que, para Oliveira, não tem proposta alguma, prega um ambientalismo vago e genérico, não entra em bola dividida e sequer se pronuncia em assuntos cruciais.
O futuro, pelo menos o mais próximo, não se apresenta muito alvissareiro para o sociólogo. Dilma será a provável vitoriosa, os debates entre ela e o adversário devem prosseguir bastante rasteiros no segundo turno e a maioria parlamentar obtida no Congresso pelo bloco liderado pelo PT deverá reforçar o conservadorismo do partido, assim como a regressiva característica de uma agremiação que passou a se constituir em uma mistura entre o PRI (Partido Revolucionário Institucional, no México) e o peronismo.
Confira abaixo.
Correio da Cidadania: Como o senhor avalia os resultados das eleições presidenciais até o momento, que definiu o 2º turno entre Dilma Rousseff e José Serra? Por que Dilma não ganhou no primeiro turno, conforme muitos esperavam?
Francisco de Oliveira: Acho que está tudo dentro das margens de erro das próprias pesquisas. Não houve grande surpresa. A surpresa, de fato, foi a Marina Silva com quase 20%, que as pesquisas não detectavam e ninguém acreditava. Essa é a grande surpresa. Mas os resultados entre Serra e Dilma não são nada surpreendentes.
Correio da Cidadania: Há diversas teorias sobre o crescimento da candidatura Marina na reta final - um dos motivos apontados, inclusive, para a existência do segundo turno. Alguns crêem na força do eleitorado religioso e anti-aborto, tema usado grosseiramente para denegrir Dilma; outros desmistificam tal questão e dizem que Marina entrou no vácuo de uma classe média desorientada politicamente, mas que de alguma maneira se opõe à atual política. Enfim, como o senhor define essa 'onda verde'?
Francisco de Oliveira: Olha, o fenômeno Marina não é tão enigmático assim. Na verdade, ela cresceu porque a campanha dos outros dois principais candidatos não se radicalizou. Eles são, de fato, muito convergentes e, evidentemente, uma brecha no eleitorado foi bem aproveitada por Marina. Não creio que tenha sido voto religioso, ou em função de a candidata se declarar contra o aborto... Acredito que foi produto da não radicalização das outras duas campanhas.
Correio da Cidadania: A existência do 2º turno representa, a seu ver, algo positivo para o país nestas eleições?
Francisco de Oliveira: Acho que é positivo sempre, não só nessa eleição, como em todas. Não é bom para a democracia termos unanimidades burras, como dizia Nelson Rodrigues. É bom haver mais discussão, espaço, mais candidatos. Acho que lucramos. Esse segundo turno poderia servir pra aprofundar o debate. Não é certo que vá acontecer, mas existe a possibilidade.
Correio da Cidadania: Como o senhor enxergou o debate eleitoral realizado para o primeiro turno, no que se refere à priorização de temas e à profundidade com que foram tratados?
Francisco de Oliveira: Sempre muito pobre. O único que tinha algo a dizer era o Plínio, mas não tinha muito tempo. Foi tudo muito raso, de parte a parte. O Serra não tinha muito a prometer, pois, na verdade, tem muito pouca divergência com a Dilma, e vice-versa. Ambos são tidos como desenvolvimentistas, favoráveis a ritmos acelerados de crescimento. Serra conflitou-se com FHC quando era ministro do Planejamento em questões monetárias, cambiais, mas com a Dilma há muita convergência. E é isso que leva à não radicalização de propostas.
A Dilma deve ter também suas divergências com Lula, a não ser que ela seja um fantoche mesmo, o que ainda não está provado. Que ela é uma invenção do Lula, é, mas pode não ser um fantoche. Porém, o fato é que existe muita convergência com o Serra. Em princípio, estamos em um ciclo virtuoso e não há muito a corrigir nos rumos do país, uma vez que a herança de Lula é bem vista. Aumenta um pouquinho o Bolsa-família e por aí vai, de modo que o debate seria morno mesmo.
E foi essa convergência entre Serra e Dilma que, como mencionei, abriu o espaço para a Marina. Mas, se repararmos direito, ela não tem proposta alguma. Prega um ambientalismo vago, genérico, não entra em bola dividida, como se diz em futebol. Em nenhum assunto crucial ela sequer se pronuncia, de modo que foi uma ascensão muito específica, conjuntural, e não avaliza nenhuma promessa futura.
Correio da Cidadania: Como avalia a atuação da esquerda socialista nesta eleição, representada essencialmente pelo PSOL, PCB, PSTU e PCO?
Francisco de Oliveira: A esquerda teria muitos motivos para criticar o sistema e a forma como vem funcionando no país, mas não tinha tempo e nem recursos, e hoje eleição é isso. Foi muito complicado o desempenho. O Plínio ainda conseguiu ser convidado para os debates principais, os demais nem sequer foram convidados. Mas, de toda forma, a grande imprensa ignorou a todos.
Por conta disso, não dá pra dizer que os resultados foram decepcionantes, porque uma coisa que não é exposta, proposta, não chega ao grande público, não pode mesmo se transformar em voto. A Marina teve condições maiores de exposição devido à entrada do dono da Natura, que lhe deu recursos e, ao que parece, tomou gosto pela política, ao menos de acordo com declarações nos jornais. Assim, ela pôde fazer campanha. E a imprensa também se interessou muito por ela, por ser uma espécie de ser exótico, que estava ali no meio com uma história pessoal muito dignificante, uma pessoa pobre que nasceu em seringais, disputando a presidência, muito parecida com o Lula.
Portanto, todos esses fatores criaram muito interesse sobre ela. Até porque o ambientalismo dela é genérico e não contesta o todo, o sistema. Quanto ao seu partido, o Partido Verde, só tem alguma expressão na Alemanha, em nenhum outro país tem expressão política ou eleitoral. De modo que no Brasil não há nada muito promissor. Creio que sua ascensão foi bastante conjuntural devido às características dessa eleição.
Correio da Cidadania: O senhor discorda, portanto, de várias análises que vêm circulando, e que ressaltam a expressiva votação obtida por Marina como um capital para que a candidata se confirme como força política de peso no país, carregando a bandeira da Terceira Via e do Ambientalismo?
Francisco de Oliveira: Não acho que seja um capital que vá render muitos juros... Como disse, só na Alemanha existe Partido Verde com certo peso; em outros países, os verdes nem existem. E não vejo no Brasil tal perspectiva. Seria muito surpreendente que os brasileiros se transformassem em ambientalistas militantes. Isso é mais coisa de religião que de cultura política. Não acredito que Marina tenha se constituído num capital que vá ter desdobramentos adiante e abrir uma via alternativa.
Correio da Cidadania: Qual a sua opinião quanto aos resultados eleitorais no que se refere ao Parlamento, com o avanço do PT e sua base aliada nas duas casas, ao lado da regressão de partidos como PSDB e DEM?
Francisco de Oliveira: É a velha história. PSDB e DEM estão na verdade como defuntos, foram arrastados para o buraco; o PT e o PMDB nadam, por sua vez, de braçada, com muito dinheiro, como se foi sabendo aos poucos; e o PMDB permanece com sua eterna característica de ser um partido muito regionalizado, sem uma liderança nacional (o Temer não será tal liderança), e muito fraturado em todos os lados. Mas essas características também concedem ao PMDB uma capilaridade importante para eleger muitos deputados. Nada excepcional, já que, se não houver nenhuma trombada histórica, o PMDB sempre terá tais resultados.
Enquanto isso, o PT também nada de braçada, com muito dinheiro, todo mundo querendo agradar ao rei, sem nenhuma dificuldade, além de carregar uma campanha muito vitoriosa, com um resultado positivo em votos proporcionais. Não acredito que essa bancada poderosa constituída por PT e PMDB vá resultar em diferença política. Vão se comportar como já estão: de maneira fisiológica e muito conservadora.
Correio da Cidadania: Caso Dilma vença as eleições, governar com esta maioria não levará a um predomínio ainda maior do Executivo na política nacional, na medida em que poderá crescer a sua ingerência sobre o Legislativo?
Francisco de Oliveira: Essa ingerência já ocorre em elevado grau. Mais do que com Lula, não dá nem pra imaginar. Para o povão, não tem nenhuma importância. O povo vai no velho ditado de que todo político é ladrão, não tem apreço por essa discussão. O Legislativo é uma instituição que existe desde o Império e que nunca se firmou para nada. Sempre fazia a vontade do rei no Império.
Não se criou, portanto, uma cultura política nacional que desse destaque e importância ao Legislativo. Situação que permanece, com os parlamentares como espécies de reis civis. E com a tendência crescente de maior importância da economia sobre a política, leva-se o Executivo a dar de braço e cutelo sobre o Legislativo.
O Legislativo não tem autorização e nem poder pra criar despesas, onde já se viu isso? Trata-se de algo que ficou da ditadura e não foi reformado pela nova Constituição. Não há nenhum ato ou lei que saia do Legislativo que implique em despesas que o Executivo seja obrigado a obedecer.
Portanto, mesmo com muita desinformação, caciquismo, de alguma maneira o povo sabe disso: que, para arranjar um empreguinho, um deputado ou senador podem ser eficientes; mas, para algo mais, sabe também que o Legislativo não funciona.
Correio da Cidadania: De todo modo, o governo Lula freou diversas pautas progressistas e reformistas, alegando não haver uma correlação de forças favorável para levar adiante as mudanças, o que acabou tornando célebre o discurso da governabilidade. Acredita que, com maioria no Congresso, haveria alguma chance de serem levadas adiante questões mais polêmicas e combatidas por uma elite ainda muito conservadora, como o aborto, a reforma agrária e a afirmação de direitos de minorias, entre outras?
Francisco de Oliveira: Não, vai ser pior. Essa maioria vai tornar o PT mais conservador do que já é. É um equívoco pensar que assim o PT se liberta de algumas amarras e pode retomar um papel transformador. É o contrário, essa maioria vai dar liberdade para que seja mais explícito em seu fisiologismo e conservadorismo. Não tenho a menor esperança.
Correio da Cidadania: Ainda na hipótese de vitória de Dilma, fala-se muito a respeito da mexicanização de nossa política, em alusão ao longo período em que o PRI - o Partido Revolucionário Institucional - permaneceu no poder no México. O que pensa disso?
Francisco de Oliveira: Acho que o PT já é uma mistura entre o PRI e o peronismo. O lado PRI é o de apropriar-se e usurpar os cargos do Estado, manipular e cevar-se nos fundos públicos. O lado peronista, decadente na Argentina, é o lado propriamente político, uma vez que o peronismo fincou raízes realmente populares e com isso manobrou o tempo todo. O PT tem a mesma raiz popular, mas esse lado sugere uma peronização do PT, ou seja, a inclinação pela cultura do favor, do clientelismo, da corrupção, uma mistura muito estranha, desagradável e politicamente regressiva.
Correio da Cidadania: Findo o primeiro turno, já começaram as especulações sobre as estratégias dos candidatos para o segundo turno, onde a candidata petista já deu claras demonstrações de recuo em alguns temas polêmicos, como, por exemplo, na questão do aborto. Como acha que vão caminhar os debates eleitorais do segundo turno?
Francisco de Oliveira: Vão continuar mornos. Eles vão tentar apenas encontrar motivos de perturbação para o adversário, mas nada de debater os grandes temas nacionais. Nem a Dilma e nem o Serra, a nenhum deles interessa esse debate. O Serra não pode fazer uma crítica cerrada ao Lula, com medo de perder mais popularidade; a Dilma não pode levantar temas importantes, com medo de perder o apoio do que resta da burguesia nacional e da grande burguesia internacional. Não acredito que saia algo interessante, portanto; creio que procurarão os flancos abertos dos adversários para tirar proveito eleitoral.
Correio da Cidadania: Vários setores de esquerda críticos ao governo Lula, e já há bastante tempo descrentes do chamado programa democrático popular, sentem-se em uma sinuca de bico neste segundo turno. Afinal, se o governo Lula não avançou em questões essenciais, como a reforma agrária, com Serra, nem mesmo o diálogo com os movimentos sociais tem sido possível. O que o senhor diria a estes setores neste momento?
Francisco de Oliveira: Eles têm absoluta razão nesse temor. Eu diria para que não esperem nenhuma facilidade de ambos os lados. Do lado tucano, porque estão ideologicamente comprometidos com tudo que é antipopular. Do lado lulista, não haverá abertura para os movimentos sociais a fim de se buscar uma nova estruturação do poder no Brasil.
A vitória do lulismo não é muito promissora, pois, no meu modo de ver, reforçará o estilo de governo que o Lula implantou nos últimos oito anos, a ser confirmado pela eleição de sua candidata, como se fosse a confirmação de que é disso que o povo gosta. Essa é a tese do André Singer, agora o principal intelectual a defender as posições do petismo e do governo Lula. Tudo seguro, sem conflito. Lembra um menino que dançava frevo em Recife e abria os bracinhos dizendo: "dá pra todo mundo, dá pra todo mundo". A mensagem do lulismo é assim, "tem pouquinho, mas dá pra todo mundo. Não precisa brigar, de conflito, porque dá pra todo mundo!".
Esse é o estilo de um governo muito conservador, mais do que se pensa e mais até do que os próprios tucanos supõem. É um governo muito privatista, mais até do que o do FHC. FHC privatizou as empresas; Lula, sobre essa tendência, empurrou o Brasil para o campo do capitalismo monopolista de Estado, no qual não há avanço e nunca se produziram bons resultados em política interna.
O André Singer andou utilizando muito o exemplo do Roosevelt, dizendo que o Lula é sua versão brasileira, esquecendo-se somente que o êxito da administração Roosevelt acabou com o movimento de trabalhadores dos EUA, levando à fusão das centrais sindicais que eram competidoras, e que viraram uma única confederação. E ironicamente, o maior país capitalista do mundo nunca teve condições de formar um partido de trabalhadores. Lá, os trabalhadores sempre foram a reboque do Partido Democrata. É disso que Singer esquece. Roosevelt foi um grande estadista, é verdade, impulsionador do capitalismo americano, mas acabou com o movimento dos trabalhadores norte-americanos. Se é isso que se deseja para o Brasil, então, tome-se lulismo.
A vitória da Dilma traria mais imobilismo. Ela terá muitos problemas, até porque a economia não vai surfar numa onda contínua de progressão como a existente nos oito anos de Lula, sobretudo no segundo mandato. As contradições crescem na medida em que o capitalismo se desenvolve. A tendência é subjugar e fraturar o movimento dos trabalhadores até ele ficar inerte politicamente, sem nenhuma expressão.
Correio da Cidadania: Nesse sentido do imobilismo a que foram conduzidos os movimentos sociais sob o governo Lula, o senhor comungaria, de alguma forma, com a idéia de que a vitória de uma candidatura escancaradamente conservadora como a de Serra seria mais benéfica para as lutas sociais e políticas a longo prazo, no sentido de chacoalhar movimentos paralisados e cooptados pelos anos Lula?
Francisco de Oliveira: Não sei. É uma pergunta interessante, mas difícil de responder, até porque a história pregressa dos tucanos é negativa a esse respeito. Pode haver diferenças pessoais entre Serra e Dilma, mas nada nos autoriza a pensar que uma vitória tucana abriria o campo das contradições e movimentaria mais o campo da luta política. Isto poderia ocorrer se o PT retomasse seu papel de transformação na história brasileira. Mas esse é um cenário tão ilusório quanto pensar que os tucanos possam ter esse impacto no movimento social.
Correio da Cidadania: Qual a importância e quais as chances de reconstituição de uma frente de esquerda de agora em diante?
Francisco de Oliveira: Ainda são poucas, porque, com o crescimento de algumas bancadas no Congresso, vai se deixar pouco espaço para a esquerda atuar. Nossa responsabilidade é tentar descobrir os novos motivos e questões que o povo possa ter e perceber na política.
Não vai haver descanso, folga alguma. A tendência é de se sufocar qualquer manifestação de insubordinação, de críticas. Mas a história caminha e surpresas são sempre bem vindas, além de muitas contradições que vão aparecer e reforçar o destino quase inarredável do Brasil de sua condição de país sub-imperialista.
Essa história de política progressista para a América Latina é uma farsa, pois dominamos o Paraguai, a Bolívia, não temos nenhuma política externa progressista, isso é uma mentira. E do ponto de vista interno, caminhamos para um capitalismo monopolista de Estado, implacável, de olho apenas nos grandes lucros. E vem aí o Pré-Sal, que pode ser um desastre, porque reforçaria estruturas capitalistas mais monopólicas no país... Não vejo nada de promissor.
Acho que a esquerda continuará com as mesmas divisões, uma frente de esquerda ainda não é visível, pelo menos no futuro imediato. Os partidos são todos pequenos e, primeiramente, têm de fazer um esforço extraordinário para sobreviver e ampliar um pouco sua penetração, porque o fogo de barragem sobre qualquer projeto crítico é enorme. E esse fogo de barragem não é só dos demais partidos, mas também da mídia. Que espaço os jornais deram para a discussão dos pequenos partidos? Já eram logo ridicularizados como nanicos, delirantes...
Os partidos pequenos da esquerda têm de fazer um esforço enorme para sobreviver, explorar todas as debilidades do sistema e fazer uma crítica que possa chegar ao povo.
Correio da Cidadania: Arriscaria fazer uma previsão para o segundo turno e, ademais, a projetar qual candidato faria melhor por nosso país?
Francisco de Oliveira: Acho que tudo indica que a Dilma ganha no segundo turno. Não acredito numa transferência maciça de votos da Marina para o Serra. Seus votos vão se dispersar entre ambos; portanto, o mais provável é que a Dilma se eleja presidente.
Mas não sei que governo ela fará, penso apenas na tentativa de continuar os governos do Lula, que na verdade será o personagem atrás do trono, que irá mantê-la com rédea curta. Até porque ela não tem muita experiência na política nacional, nem dentro do PT, e estará cercada de chacais por todos os lados.
Até mesmo pensando em seu futuro, se quiser retornar à presidência, Lula tem de proteger a Dilma, senão ela será estraçalhada na luta política miúda que agora vai se abrir no Estado. Quanto ao seu desempenho no governo, as linhas gerais indicam que ela só dará continuidade ao que o Lula implementou.
Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.
Aqueles que esperavam se deparar com um digno debate político no primeiro turno, que pudesse ajudar na escolha de um candidato, acabaram bastante frustrados. Denuncismo hipócrita, promessas excessivas, citações de feitos passados, desfile de números e siglas invadiram o cotidiano dos eleitores, sem nada lhes dizer dos problemas reais do Brasil e de projeções efetivas para o futuro.
Entre os adversários à frente nas pesquisas, e que agora disputarão o segundo turno, nós cidadãos, vimos, de um lado, um candidato que não se arriscaria jamais a uma crítica cerrada ao presidente Lula, com medo de perder mais popularidade; de outro lado, uma candidata que não poderia levantar os temas cruciais da nação, temerosa de perder o apoio da burguesia.
A ausência de radicalização por parte de Serra e de Dilma perfaz um retrato cabal da despolitização a que assistimos, de forma a só cortejar as visões mais consensuais e conservadoras. O estilo comum aos dois candidatos consiste, ademais, em uma demonstração inequívoca da sua conformação ao modelo de sociedade neoliberal.
Para o sociólogo Francisco de Oliveira, nosso entrevistado especial, não é necessário ir longe e nem divagar pela questão religiosa ou ambiental para buscar as causas do crescimento de Marina no primeiro turno. Foi em meio à convergência entre Serra e Dilma que pôde surfar uma candidata, que, para Oliveira, não tem proposta alguma, prega um ambientalismo vago e genérico, não entra em bola dividida e sequer se pronuncia em assuntos cruciais.
O futuro, pelo menos o mais próximo, não se apresenta muito alvissareiro para o sociólogo. Dilma será a provável vitoriosa, os debates entre ela e o adversário devem prosseguir bastante rasteiros no segundo turno e a maioria parlamentar obtida no Congresso pelo bloco liderado pelo PT deverá reforçar o conservadorismo do partido, assim como a regressiva característica de uma agremiação que passou a se constituir em uma mistura entre o PRI (Partido Revolucionário Institucional, no México) e o peronismo.
Confira abaixo.
Correio da Cidadania: Como o senhor avalia os resultados das eleições presidenciais até o momento, que definiu o 2º turno entre Dilma Rousseff e José Serra? Por que Dilma não ganhou no primeiro turno, conforme muitos esperavam?
Francisco de Oliveira: Acho que está tudo dentro das margens de erro das próprias pesquisas. Não houve grande surpresa. A surpresa, de fato, foi a Marina Silva com quase 20%, que as pesquisas não detectavam e ninguém acreditava. Essa é a grande surpresa. Mas os resultados entre Serra e Dilma não são nada surpreendentes.
Correio da Cidadania: Há diversas teorias sobre o crescimento da candidatura Marina na reta final - um dos motivos apontados, inclusive, para a existência do segundo turno. Alguns crêem na força do eleitorado religioso e anti-aborto, tema usado grosseiramente para denegrir Dilma; outros desmistificam tal questão e dizem que Marina entrou no vácuo de uma classe média desorientada politicamente, mas que de alguma maneira se opõe à atual política. Enfim, como o senhor define essa 'onda verde'?
Francisco de Oliveira: Olha, o fenômeno Marina não é tão enigmático assim. Na verdade, ela cresceu porque a campanha dos outros dois principais candidatos não se radicalizou. Eles são, de fato, muito convergentes e, evidentemente, uma brecha no eleitorado foi bem aproveitada por Marina. Não creio que tenha sido voto religioso, ou em função de a candidata se declarar contra o aborto... Acredito que foi produto da não radicalização das outras duas campanhas.
Correio da Cidadania: A existência do 2º turno representa, a seu ver, algo positivo para o país nestas eleições?
Francisco de Oliveira: Acho que é positivo sempre, não só nessa eleição, como em todas. Não é bom para a democracia termos unanimidades burras, como dizia Nelson Rodrigues. É bom haver mais discussão, espaço, mais candidatos. Acho que lucramos. Esse segundo turno poderia servir pra aprofundar o debate. Não é certo que vá acontecer, mas existe a possibilidade.
Correio da Cidadania: Como o senhor enxergou o debate eleitoral realizado para o primeiro turno, no que se refere à priorização de temas e à profundidade com que foram tratados?
Francisco de Oliveira: Sempre muito pobre. O único que tinha algo a dizer era o Plínio, mas não tinha muito tempo. Foi tudo muito raso, de parte a parte. O Serra não tinha muito a prometer, pois, na verdade, tem muito pouca divergência com a Dilma, e vice-versa. Ambos são tidos como desenvolvimentistas, favoráveis a ritmos acelerados de crescimento. Serra conflitou-se com FHC quando era ministro do Planejamento em questões monetárias, cambiais, mas com a Dilma há muita convergência. E é isso que leva à não radicalização de propostas.
A Dilma deve ter também suas divergências com Lula, a não ser que ela seja um fantoche mesmo, o que ainda não está provado. Que ela é uma invenção do Lula, é, mas pode não ser um fantoche. Porém, o fato é que existe muita convergência com o Serra. Em princípio, estamos em um ciclo virtuoso e não há muito a corrigir nos rumos do país, uma vez que a herança de Lula é bem vista. Aumenta um pouquinho o Bolsa-família e por aí vai, de modo que o debate seria morno mesmo.
E foi essa convergência entre Serra e Dilma que, como mencionei, abriu o espaço para a Marina. Mas, se repararmos direito, ela não tem proposta alguma. Prega um ambientalismo vago, genérico, não entra em bola dividida, como se diz em futebol. Em nenhum assunto crucial ela sequer se pronuncia, de modo que foi uma ascensão muito específica, conjuntural, e não avaliza nenhuma promessa futura.
Correio da Cidadania: Como avalia a atuação da esquerda socialista nesta eleição, representada essencialmente pelo PSOL, PCB, PSTU e PCO?
Francisco de Oliveira: A esquerda teria muitos motivos para criticar o sistema e a forma como vem funcionando no país, mas não tinha tempo e nem recursos, e hoje eleição é isso. Foi muito complicado o desempenho. O Plínio ainda conseguiu ser convidado para os debates principais, os demais nem sequer foram convidados. Mas, de toda forma, a grande imprensa ignorou a todos.
Por conta disso, não dá pra dizer que os resultados foram decepcionantes, porque uma coisa que não é exposta, proposta, não chega ao grande público, não pode mesmo se transformar em voto. A Marina teve condições maiores de exposição devido à entrada do dono da Natura, que lhe deu recursos e, ao que parece, tomou gosto pela política, ao menos de acordo com declarações nos jornais. Assim, ela pôde fazer campanha. E a imprensa também se interessou muito por ela, por ser uma espécie de ser exótico, que estava ali no meio com uma história pessoal muito dignificante, uma pessoa pobre que nasceu em seringais, disputando a presidência, muito parecida com o Lula.
Portanto, todos esses fatores criaram muito interesse sobre ela. Até porque o ambientalismo dela é genérico e não contesta o todo, o sistema. Quanto ao seu partido, o Partido Verde, só tem alguma expressão na Alemanha, em nenhum outro país tem expressão política ou eleitoral. De modo que no Brasil não há nada muito promissor. Creio que sua ascensão foi bastante conjuntural devido às características dessa eleição.
Correio da Cidadania: O senhor discorda, portanto, de várias análises que vêm circulando, e que ressaltam a expressiva votação obtida por Marina como um capital para que a candidata se confirme como força política de peso no país, carregando a bandeira da Terceira Via e do Ambientalismo?
Francisco de Oliveira: Não acho que seja um capital que vá render muitos juros... Como disse, só na Alemanha existe Partido Verde com certo peso; em outros países, os verdes nem existem. E não vejo no Brasil tal perspectiva. Seria muito surpreendente que os brasileiros se transformassem em ambientalistas militantes. Isso é mais coisa de religião que de cultura política. Não acredito que Marina tenha se constituído num capital que vá ter desdobramentos adiante e abrir uma via alternativa.
Correio da Cidadania: Qual a sua opinião quanto aos resultados eleitorais no que se refere ao Parlamento, com o avanço do PT e sua base aliada nas duas casas, ao lado da regressão de partidos como PSDB e DEM?
Francisco de Oliveira: É a velha história. PSDB e DEM estão na verdade como defuntos, foram arrastados para o buraco; o PT e o PMDB nadam, por sua vez, de braçada, com muito dinheiro, como se foi sabendo aos poucos; e o PMDB permanece com sua eterna característica de ser um partido muito regionalizado, sem uma liderança nacional (o Temer não será tal liderança), e muito fraturado em todos os lados. Mas essas características também concedem ao PMDB uma capilaridade importante para eleger muitos deputados. Nada excepcional, já que, se não houver nenhuma trombada histórica, o PMDB sempre terá tais resultados.
Enquanto isso, o PT também nada de braçada, com muito dinheiro, todo mundo querendo agradar ao rei, sem nenhuma dificuldade, além de carregar uma campanha muito vitoriosa, com um resultado positivo em votos proporcionais. Não acredito que essa bancada poderosa constituída por PT e PMDB vá resultar em diferença política. Vão se comportar como já estão: de maneira fisiológica e muito conservadora.
Correio da Cidadania: Caso Dilma vença as eleições, governar com esta maioria não levará a um predomínio ainda maior do Executivo na política nacional, na medida em que poderá crescer a sua ingerência sobre o Legislativo?
Francisco de Oliveira: Essa ingerência já ocorre em elevado grau. Mais do que com Lula, não dá nem pra imaginar. Para o povão, não tem nenhuma importância. O povo vai no velho ditado de que todo político é ladrão, não tem apreço por essa discussão. O Legislativo é uma instituição que existe desde o Império e que nunca se firmou para nada. Sempre fazia a vontade do rei no Império.
Não se criou, portanto, uma cultura política nacional que desse destaque e importância ao Legislativo. Situação que permanece, com os parlamentares como espécies de reis civis. E com a tendência crescente de maior importância da economia sobre a política, leva-se o Executivo a dar de braço e cutelo sobre o Legislativo.
O Legislativo não tem autorização e nem poder pra criar despesas, onde já se viu isso? Trata-se de algo que ficou da ditadura e não foi reformado pela nova Constituição. Não há nenhum ato ou lei que saia do Legislativo que implique em despesas que o Executivo seja obrigado a obedecer.
Portanto, mesmo com muita desinformação, caciquismo, de alguma maneira o povo sabe disso: que, para arranjar um empreguinho, um deputado ou senador podem ser eficientes; mas, para algo mais, sabe também que o Legislativo não funciona.
Correio da Cidadania: De todo modo, o governo Lula freou diversas pautas progressistas e reformistas, alegando não haver uma correlação de forças favorável para levar adiante as mudanças, o que acabou tornando célebre o discurso da governabilidade. Acredita que, com maioria no Congresso, haveria alguma chance de serem levadas adiante questões mais polêmicas e combatidas por uma elite ainda muito conservadora, como o aborto, a reforma agrária e a afirmação de direitos de minorias, entre outras?
Francisco de Oliveira: Não, vai ser pior. Essa maioria vai tornar o PT mais conservador do que já é. É um equívoco pensar que assim o PT se liberta de algumas amarras e pode retomar um papel transformador. É o contrário, essa maioria vai dar liberdade para que seja mais explícito em seu fisiologismo e conservadorismo. Não tenho a menor esperança.
Correio da Cidadania: Ainda na hipótese de vitória de Dilma, fala-se muito a respeito da mexicanização de nossa política, em alusão ao longo período em que o PRI - o Partido Revolucionário Institucional - permaneceu no poder no México. O que pensa disso?
Francisco de Oliveira: Acho que o PT já é uma mistura entre o PRI e o peronismo. O lado PRI é o de apropriar-se e usurpar os cargos do Estado, manipular e cevar-se nos fundos públicos. O lado peronista, decadente na Argentina, é o lado propriamente político, uma vez que o peronismo fincou raízes realmente populares e com isso manobrou o tempo todo. O PT tem a mesma raiz popular, mas esse lado sugere uma peronização do PT, ou seja, a inclinação pela cultura do favor, do clientelismo, da corrupção, uma mistura muito estranha, desagradável e politicamente regressiva.
Correio da Cidadania: Findo o primeiro turno, já começaram as especulações sobre as estratégias dos candidatos para o segundo turno, onde a candidata petista já deu claras demonstrações de recuo em alguns temas polêmicos, como, por exemplo, na questão do aborto. Como acha que vão caminhar os debates eleitorais do segundo turno?
Francisco de Oliveira: Vão continuar mornos. Eles vão tentar apenas encontrar motivos de perturbação para o adversário, mas nada de debater os grandes temas nacionais. Nem a Dilma e nem o Serra, a nenhum deles interessa esse debate. O Serra não pode fazer uma crítica cerrada ao Lula, com medo de perder mais popularidade; a Dilma não pode levantar temas importantes, com medo de perder o apoio do que resta da burguesia nacional e da grande burguesia internacional. Não acredito que saia algo interessante, portanto; creio que procurarão os flancos abertos dos adversários para tirar proveito eleitoral.
Correio da Cidadania: Vários setores de esquerda críticos ao governo Lula, e já há bastante tempo descrentes do chamado programa democrático popular, sentem-se em uma sinuca de bico neste segundo turno. Afinal, se o governo Lula não avançou em questões essenciais, como a reforma agrária, com Serra, nem mesmo o diálogo com os movimentos sociais tem sido possível. O que o senhor diria a estes setores neste momento?
Francisco de Oliveira: Eles têm absoluta razão nesse temor. Eu diria para que não esperem nenhuma facilidade de ambos os lados. Do lado tucano, porque estão ideologicamente comprometidos com tudo que é antipopular. Do lado lulista, não haverá abertura para os movimentos sociais a fim de se buscar uma nova estruturação do poder no Brasil.
A vitória do lulismo não é muito promissora, pois, no meu modo de ver, reforçará o estilo de governo que o Lula implantou nos últimos oito anos, a ser confirmado pela eleição de sua candidata, como se fosse a confirmação de que é disso que o povo gosta. Essa é a tese do André Singer, agora o principal intelectual a defender as posições do petismo e do governo Lula. Tudo seguro, sem conflito. Lembra um menino que dançava frevo em Recife e abria os bracinhos dizendo: "dá pra todo mundo, dá pra todo mundo". A mensagem do lulismo é assim, "tem pouquinho, mas dá pra todo mundo. Não precisa brigar, de conflito, porque dá pra todo mundo!".
Esse é o estilo de um governo muito conservador, mais do que se pensa e mais até do que os próprios tucanos supõem. É um governo muito privatista, mais até do que o do FHC. FHC privatizou as empresas; Lula, sobre essa tendência, empurrou o Brasil para o campo do capitalismo monopolista de Estado, no qual não há avanço e nunca se produziram bons resultados em política interna.
O André Singer andou utilizando muito o exemplo do Roosevelt, dizendo que o Lula é sua versão brasileira, esquecendo-se somente que o êxito da administração Roosevelt acabou com o movimento de trabalhadores dos EUA, levando à fusão das centrais sindicais que eram competidoras, e que viraram uma única confederação. E ironicamente, o maior país capitalista do mundo nunca teve condições de formar um partido de trabalhadores. Lá, os trabalhadores sempre foram a reboque do Partido Democrata. É disso que Singer esquece. Roosevelt foi um grande estadista, é verdade, impulsionador do capitalismo americano, mas acabou com o movimento dos trabalhadores norte-americanos. Se é isso que se deseja para o Brasil, então, tome-se lulismo.
A vitória da Dilma traria mais imobilismo. Ela terá muitos problemas, até porque a economia não vai surfar numa onda contínua de progressão como a existente nos oito anos de Lula, sobretudo no segundo mandato. As contradições crescem na medida em que o capitalismo se desenvolve. A tendência é subjugar e fraturar o movimento dos trabalhadores até ele ficar inerte politicamente, sem nenhuma expressão.
Correio da Cidadania: Nesse sentido do imobilismo a que foram conduzidos os movimentos sociais sob o governo Lula, o senhor comungaria, de alguma forma, com a idéia de que a vitória de uma candidatura escancaradamente conservadora como a de Serra seria mais benéfica para as lutas sociais e políticas a longo prazo, no sentido de chacoalhar movimentos paralisados e cooptados pelos anos Lula?
Francisco de Oliveira: Não sei. É uma pergunta interessante, mas difícil de responder, até porque a história pregressa dos tucanos é negativa a esse respeito. Pode haver diferenças pessoais entre Serra e Dilma, mas nada nos autoriza a pensar que uma vitória tucana abriria o campo das contradições e movimentaria mais o campo da luta política. Isto poderia ocorrer se o PT retomasse seu papel de transformação na história brasileira. Mas esse é um cenário tão ilusório quanto pensar que os tucanos possam ter esse impacto no movimento social.
Correio da Cidadania: Qual a importância e quais as chances de reconstituição de uma frente de esquerda de agora em diante?
Francisco de Oliveira: Ainda são poucas, porque, com o crescimento de algumas bancadas no Congresso, vai se deixar pouco espaço para a esquerda atuar. Nossa responsabilidade é tentar descobrir os novos motivos e questões que o povo possa ter e perceber na política.
Não vai haver descanso, folga alguma. A tendência é de se sufocar qualquer manifestação de insubordinação, de críticas. Mas a história caminha e surpresas são sempre bem vindas, além de muitas contradições que vão aparecer e reforçar o destino quase inarredável do Brasil de sua condição de país sub-imperialista.
Essa história de política progressista para a América Latina é uma farsa, pois dominamos o Paraguai, a Bolívia, não temos nenhuma política externa progressista, isso é uma mentira. E do ponto de vista interno, caminhamos para um capitalismo monopolista de Estado, implacável, de olho apenas nos grandes lucros. E vem aí o Pré-Sal, que pode ser um desastre, porque reforçaria estruturas capitalistas mais monopólicas no país... Não vejo nada de promissor.
Acho que a esquerda continuará com as mesmas divisões, uma frente de esquerda ainda não é visível, pelo menos no futuro imediato. Os partidos são todos pequenos e, primeiramente, têm de fazer um esforço extraordinário para sobreviver e ampliar um pouco sua penetração, porque o fogo de barragem sobre qualquer projeto crítico é enorme. E esse fogo de barragem não é só dos demais partidos, mas também da mídia. Que espaço os jornais deram para a discussão dos pequenos partidos? Já eram logo ridicularizados como nanicos, delirantes...
Os partidos pequenos da esquerda têm de fazer um esforço enorme para sobreviver, explorar todas as debilidades do sistema e fazer uma crítica que possa chegar ao povo.
Correio da Cidadania: Arriscaria fazer uma previsão para o segundo turno e, ademais, a projetar qual candidato faria melhor por nosso país?
Francisco de Oliveira: Acho que tudo indica que a Dilma ganha no segundo turno. Não acredito numa transferência maciça de votos da Marina para o Serra. Seus votos vão se dispersar entre ambos; portanto, o mais provável é que a Dilma se eleja presidente.
Mas não sei que governo ela fará, penso apenas na tentativa de continuar os governos do Lula, que na verdade será o personagem atrás do trono, que irá mantê-la com rédea curta. Até porque ela não tem muita experiência na política nacional, nem dentro do PT, e estará cercada de chacais por todos os lados.
Até mesmo pensando em seu futuro, se quiser retornar à presidência, Lula tem de proteger a Dilma, senão ela será estraçalhada na luta política miúda que agora vai se abrir no Estado. Quanto ao seu desempenho no governo, as linhas gerais indicam que ela só dará continuidade ao que o Lula implementou.
Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
O desemprego e o Nobel de Economia
Da Agência Fapesp
O Prêmio Nobel de Economia de 2010 foi concedido a três pesquisadores que formularam e desenvolveram uma teoria capaz de explicar por que há tanta gente sem emprego ao mesmo tempo em que as empresas não param de abrir postos de trabalho.
Pela criação de modelos matemáticos que explicam situações de mercado em que há ruídos ou imperfeições entre a demanda e a oferta de bens ou serviços, os norte-americanos Peter A. Diamond, de 70 anos, professor de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e Dale T. Mortensen, 71, da Universidade Northwestern, dividirão o prêmio com Christopher A. Pissarides, cidadão cipriota e inglês de 62 anos que dá aulas na London School of Economics and Political Science.
Os três dividirão o prêmio de 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 2,5 milhões), que receberão com diplomas e medalhas de ouro em cerimônia no dia 10 de dezembro, aniversário da morte de Alfred Bernhard Nobel (1833-1896), o inventor da dinamite.
“Felizmente, estava sentado e não estava dirigindo [quando recebi a notícia do Nobel]”, disse Diamond em entrevista coletiva no MIT. “É algo que tira o seu fôlego.”
Pissarides reagiu de forma semelhante ao anúncio do prêmio, concedido pela Real Academia Sueca de Ciências e o Sveriges Riksbank (o Banco Central da Suécia). Disse que sentiu um “misto de surpresa e alegria.”
O terceiro premiado, Mortensen, estava na Dinamarca, onde dá no momento aulas como professor visitante, e só soube que era um Nobel durante um almoço com colegas. “Eles sabem guardar segredo lá em Estocolmo. Não tinha ideia do prêmio”, comentou.
Os primeiros trabalhos dos economistas nesse campo datam dos anos 1970 e redundaram no chamado modelo Diamond-Mortensen-Pissarides (DMP), atualmente a ferramenta mais utilizada para analisar o desemprego, o mecanismo de formação de salários e o impacto das políticas públicas sobre nesse setor.
Embora o mercado de trabalho seja a área em que a teoria é mais empregada, o modelo também pode ser usado para entender o mercado imobiliário e outras esferas da economia.
Segundo a academia sueca, o mérito do trabalho dos economistas consiste em mostrar que a visão clássica do mercado perfeito não encontra amparo no mundo concreto.
A teoria tradicional defende a ideia de que compradores e vendedores de bens e serviços se encontram rapidamente no mercado, sem qualquer custo para as partes, e que todos estão bem informados sobre os preços das mercadorias. Não há oferta ou demanda em excesso de um produto e todos os recursos são usados em sua plenitude.
Nessa situação ideal, o preço de bens e serviço expressa a igualdade de oferta e da demanda. “Mas não é isso que ocorre no mundo real. Custos elevados são frequentemente associados às dificuldades dos compradores em encontrar vendedores. Mesmo depois de eles terem se encontrado, as mercadorias em questão podem não corresponder aos requerimentos do compradores. O comprador pode considerar o preço do vendedor muito alto, ou o vendedor pode achar a oferta do comprador muito baixa. Então, a transação não ocorre e as duas partes continuam a procurar (a mercadoria) em outro lugar”, destacou o comitê do Nobel.
Esse mecanismo é típico de muitos setores da economia, inclusive o mercado de trabalho.
Mais informações sobre o Nobel: http://nobelprize.org
O Prêmio Nobel de Economia de 2010 foi concedido a três pesquisadores que formularam e desenvolveram uma teoria capaz de explicar por que há tanta gente sem emprego ao mesmo tempo em que as empresas não param de abrir postos de trabalho.
Pela criação de modelos matemáticos que explicam situações de mercado em que há ruídos ou imperfeições entre a demanda e a oferta de bens ou serviços, os norte-americanos Peter A. Diamond, de 70 anos, professor de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e Dale T. Mortensen, 71, da Universidade Northwestern, dividirão o prêmio com Christopher A. Pissarides, cidadão cipriota e inglês de 62 anos que dá aulas na London School of Economics and Political Science.
Os três dividirão o prêmio de 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 2,5 milhões), que receberão com diplomas e medalhas de ouro em cerimônia no dia 10 de dezembro, aniversário da morte de Alfred Bernhard Nobel (1833-1896), o inventor da dinamite.
“Felizmente, estava sentado e não estava dirigindo [quando recebi a notícia do Nobel]”, disse Diamond em entrevista coletiva no MIT. “É algo que tira o seu fôlego.”
Pissarides reagiu de forma semelhante ao anúncio do prêmio, concedido pela Real Academia Sueca de Ciências e o Sveriges Riksbank (o Banco Central da Suécia). Disse que sentiu um “misto de surpresa e alegria.”
O terceiro premiado, Mortensen, estava na Dinamarca, onde dá no momento aulas como professor visitante, e só soube que era um Nobel durante um almoço com colegas. “Eles sabem guardar segredo lá em Estocolmo. Não tinha ideia do prêmio”, comentou.
Os primeiros trabalhos dos economistas nesse campo datam dos anos 1970 e redundaram no chamado modelo Diamond-Mortensen-Pissarides (DMP), atualmente a ferramenta mais utilizada para analisar o desemprego, o mecanismo de formação de salários e o impacto das políticas públicas sobre nesse setor.
Embora o mercado de trabalho seja a área em que a teoria é mais empregada, o modelo também pode ser usado para entender o mercado imobiliário e outras esferas da economia.
Segundo a academia sueca, o mérito do trabalho dos economistas consiste em mostrar que a visão clássica do mercado perfeito não encontra amparo no mundo concreto.
A teoria tradicional defende a ideia de que compradores e vendedores de bens e serviços se encontram rapidamente no mercado, sem qualquer custo para as partes, e que todos estão bem informados sobre os preços das mercadorias. Não há oferta ou demanda em excesso de um produto e todos os recursos são usados em sua plenitude.
Nessa situação ideal, o preço de bens e serviço expressa a igualdade de oferta e da demanda. “Mas não é isso que ocorre no mundo real. Custos elevados são frequentemente associados às dificuldades dos compradores em encontrar vendedores. Mesmo depois de eles terem se encontrado, as mercadorias em questão podem não corresponder aos requerimentos do compradores. O comprador pode considerar o preço do vendedor muito alto, ou o vendedor pode achar a oferta do comprador muito baixa. Então, a transação não ocorre e as duas partes continuam a procurar (a mercadoria) em outro lugar”, destacou o comitê do Nobel.
Esse mecanismo é típico de muitos setores da economia, inclusive o mercado de trabalho.
Mais informações sobre o Nobel: http://nobelprize.org
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
O drama dos mineiros
Ivan Lessa, no BBC Brasil
Há algumas semanas o metrô em que eu fazia meu trajeto humilde ficou parado entre duas estações. Poucas pessoas no vagão. Um aviso do condutor pelo alto-falante nos informou de que teríamos de esperar por um trem emperrado mais adiante. Passam-se os primeiros dez minutos. O cavalheiro à minha frente faz muxoxos repetidos de impaciência. Uma senhora se abana. A maior parte continua a ler os letreiros dos anúncios ou a se concentrar (sem sair da mesma página) no jornal aberto diante de si.
Eu, que não chego a ser apavorado com lugares fechados, mas sou impaciente, olho repetidamente o relógio e, para passar o tempo, vou tentando me lembrar da letra inteira de uma velha valsa de Orestes Barbosa. A situação era chata. Nada de muito grave. Aos 20 minutos, um cidadão se levantou e começou a dizer qualquer coisa em voz alta. Não ouvi. Meu coração batia um pouco mais rápido e eu empacara naquele trecho de Serenata que vem logo depois de “na serpente de seda de teus braços”. Estava, definitivamente, deflagrada uma crise.
A coisa – a crise – durou uns bons 40 minutos. A bem da verdade, uns horrendos 40 minutos. Enfim, a voz do condutor, segura de si, nos informou que a situação fora resolvida e iríamos seguir viagem. Assim foi. Que não seja nunca mais. Não tenho temperamento para essas coisas.
Por isso mesmo é que venho acompanhando o drama dos mineiros chilenos com o maior interesse. Deixei há algum tempo de ter o “maior interesse” em qualquer coisa. No entanto, por um desses mistérios insondáveis, os mineiros chilenos passaram a ocupar boa parte de minha vida acordado e, às vezes, sob a forma de pesadelo, dormindo também.
Estou do lado deles que chego ao ponto de quase mandar carta para a imprensa britânica quando não noticiam nada. Quero, porque quero, saber como vão as coisas. E como deverão ir.
Não acompanho visitas papais, recessões, greves no metrô (os metrôs ocultam perigos, digo para mim mesmo como um paraguaio paranóico), escândalos políticos. A mim, no momento, e até o futuro previsível – meu Deus, será mesmo só no Natal? – meu pensamento, meu sofrimento, minha solidariedade é com os 33 mineiros chilenos presos a 700 metros de profundidade no deserto de Atacama. O resto do mundo que continue na sua: que se vire.
Sei de cor dos planos e previsões e das medidas até agora tomadas. Fico torcendo, em vão, bem sei, para que um segundo milagre aconteça (não morrer ninguém e eles estarem vivos foi o primeiro) e a ciência, de mãos dadas à tecnologia, traga todos os 33 para o solo firme chileno, onde há sol, nuvens, árvores e mesmo que chova um pouco não faz mal.
Uma das coisas mais comoventes que vi este ano foi o desenho feito num guardanapo por um dos 33, o José Ojeda, um viúvo de 45 anos, e cuja especialidade é a broca e a dinamite. Na tela improvisada, que uma revista americana publicou, lá está o esboço de onde e como vivem desde 5 de agosto.
Fui de lupa, para melhor saber como vivem, se é essa a palavra. Lá está a rampa. O “quarto” central de 50 metros onde os mineiros se reúnem para as refeições, papo e companhia. Lá estão os túneis que os 33 usam para dormir naquela noite constante em que vêm vivendo. Lá está o local onde fazem suas “necessidades”. Lá assinalados os tubos por onde recebem comida e coisas essenciais: um buraco de nada com 15 centímetros de diâmetro.
Mais que tudo, de doer, é o cuidado de Ojeda em mostrar onde ficam a maior parte do tempo (não há muita escolha) seus companheiros e amigos. A simples menção de seus nomes, nos garatujos que o homem escrevinhou dá uma coisinha lá dentro: Jonny Barrio, Carlos Barrio, Jimmy Sanchez, Dick Vega, Claudio Acuña – e paro por aqui, que já estou ficando sem ar, talvez por solidariedade, que sei indevida.
Penso no que os noticiosos informam, quando não tem mais escândalo a expor. Quando chegar o tempo, por volta do Natal, dizem, cada um dos 33 será literalmente içado à superfície numa viagem de duas horas, depois de sedados (para manter a calma) e terem os olhos vedados. A operação toda levará cerca de três dias.
Não consigo deixar de pensar no último a fazer a dolorosa, inda que tão ansiada, viagem. Consolo-me de minha (inútil) aflição sabendo que, entre os livros que os mineiros chilenos estão lendo, está um Manual de Como Falar em Público.
Desta distância toda, e cá em cima no que me asseguram que é a superfície, não consigo deixar de dar um palpite: mineiros chilenos, deixem esse livro de lado, que não deveriam ter mandado, como não mandaram nem a bebida alcoólica nem os cigarros pedidos. Cá em cima, de volta ao mundo dos homens, sejam o que estão sendo: de uma sobre-humana naturalidade.
Há algumas semanas o metrô em que eu fazia meu trajeto humilde ficou parado entre duas estações. Poucas pessoas no vagão. Um aviso do condutor pelo alto-falante nos informou de que teríamos de esperar por um trem emperrado mais adiante. Passam-se os primeiros dez minutos. O cavalheiro à minha frente faz muxoxos repetidos de impaciência. Uma senhora se abana. A maior parte continua a ler os letreiros dos anúncios ou a se concentrar (sem sair da mesma página) no jornal aberto diante de si.
Eu, que não chego a ser apavorado com lugares fechados, mas sou impaciente, olho repetidamente o relógio e, para passar o tempo, vou tentando me lembrar da letra inteira de uma velha valsa de Orestes Barbosa. A situação era chata. Nada de muito grave. Aos 20 minutos, um cidadão se levantou e começou a dizer qualquer coisa em voz alta. Não ouvi. Meu coração batia um pouco mais rápido e eu empacara naquele trecho de Serenata que vem logo depois de “na serpente de seda de teus braços”. Estava, definitivamente, deflagrada uma crise.
A coisa – a crise – durou uns bons 40 minutos. A bem da verdade, uns horrendos 40 minutos. Enfim, a voz do condutor, segura de si, nos informou que a situação fora resolvida e iríamos seguir viagem. Assim foi. Que não seja nunca mais. Não tenho temperamento para essas coisas.
Por isso mesmo é que venho acompanhando o drama dos mineiros chilenos com o maior interesse. Deixei há algum tempo de ter o “maior interesse” em qualquer coisa. No entanto, por um desses mistérios insondáveis, os mineiros chilenos passaram a ocupar boa parte de minha vida acordado e, às vezes, sob a forma de pesadelo, dormindo também.
Estou do lado deles que chego ao ponto de quase mandar carta para a imprensa britânica quando não noticiam nada. Quero, porque quero, saber como vão as coisas. E como deverão ir.
Não acompanho visitas papais, recessões, greves no metrô (os metrôs ocultam perigos, digo para mim mesmo como um paraguaio paranóico), escândalos políticos. A mim, no momento, e até o futuro previsível – meu Deus, será mesmo só no Natal? – meu pensamento, meu sofrimento, minha solidariedade é com os 33 mineiros chilenos presos a 700 metros de profundidade no deserto de Atacama. O resto do mundo que continue na sua: que se vire.
Sei de cor dos planos e previsões e das medidas até agora tomadas. Fico torcendo, em vão, bem sei, para que um segundo milagre aconteça (não morrer ninguém e eles estarem vivos foi o primeiro) e a ciência, de mãos dadas à tecnologia, traga todos os 33 para o solo firme chileno, onde há sol, nuvens, árvores e mesmo que chova um pouco não faz mal.
Uma das coisas mais comoventes que vi este ano foi o desenho feito num guardanapo por um dos 33, o José Ojeda, um viúvo de 45 anos, e cuja especialidade é a broca e a dinamite. Na tela improvisada, que uma revista americana publicou, lá está o esboço de onde e como vivem desde 5 de agosto.
Fui de lupa, para melhor saber como vivem, se é essa a palavra. Lá está a rampa. O “quarto” central de 50 metros onde os mineiros se reúnem para as refeições, papo e companhia. Lá estão os túneis que os 33 usam para dormir naquela noite constante em que vêm vivendo. Lá está o local onde fazem suas “necessidades”. Lá assinalados os tubos por onde recebem comida e coisas essenciais: um buraco de nada com 15 centímetros de diâmetro.
Mais que tudo, de doer, é o cuidado de Ojeda em mostrar onde ficam a maior parte do tempo (não há muita escolha) seus companheiros e amigos. A simples menção de seus nomes, nos garatujos que o homem escrevinhou dá uma coisinha lá dentro: Jonny Barrio, Carlos Barrio, Jimmy Sanchez, Dick Vega, Claudio Acuña – e paro por aqui, que já estou ficando sem ar, talvez por solidariedade, que sei indevida.
Penso no que os noticiosos informam, quando não tem mais escândalo a expor. Quando chegar o tempo, por volta do Natal, dizem, cada um dos 33 será literalmente içado à superfície numa viagem de duas horas, depois de sedados (para manter a calma) e terem os olhos vedados. A operação toda levará cerca de três dias.
Não consigo deixar de pensar no último a fazer a dolorosa, inda que tão ansiada, viagem. Consolo-me de minha (inútil) aflição sabendo que, entre os livros que os mineiros chilenos estão lendo, está um Manual de Como Falar em Público.
Desta distância toda, e cá em cima no que me asseguram que é a superfície, não consigo deixar de dar um palpite: mineiros chilenos, deixem esse livro de lado, que não deveriam ter mandado, como não mandaram nem a bebida alcoólica nem os cigarros pedidos. Cá em cima, de volta ao mundo dos homens, sejam o que estão sendo: de uma sobre-humana naturalidade.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Código de Hamurábi
108. Se uma dona de taverna não aceitar grãos de acordo com o peso bruto em pagamento por bebida, mas aceitar dinheiro, e o preço da bebida for menor do que o dos grãos, ela deverá ser condenada e atirada na água.
109. Se conspiradores se encontrarem na casa de um dono de taverna, e estes conspiradores não forem capturados e levados à corte, o dono da taverna deverá ser condenado à morte.
110. Se uma irmã de um deus abrir uma taverna ou entrar numa taverna para beber, então esta mulher deverá ser condenada à morte.
111. Se uma estalajadeira fornecer sessenta ka de usakani (bebida) para... ela deverá receber cinqüenta ka de cereais na colheita.
109. Se conspiradores se encontrarem na casa de um dono de taverna, e estes conspiradores não forem capturados e levados à corte, o dono da taverna deverá ser condenado à morte.
110. Se uma irmã de um deus abrir uma taverna ou entrar numa taverna para beber, então esta mulher deverá ser condenada à morte.
111. Se uma estalajadeira fornecer sessenta ka de usakani (bebida) para... ela deverá receber cinqüenta ka de cereais na colheita.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Erenice Brega
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