sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Maria Bethânia - Cântico Negro (1982)

Cântico negro

Este poema de José Régio descobri-o num show de Paulo Gracindo e Clara Nunes, que do nada nos iluminam, no show "Brasileiro, profissão: esperança", criado para homenagear Dolores Duran e Antônio Maria - dois pudins gordões geniais. Até hoje não sei por que escolheram - ou Paulo Gracindo escolheu - o poema do genial portuga José Régio.
Eu estava na plateia do Guairão, ainda garoto, em 1975, e aquilo me arrepiou, me deixou mal, parecia que havia baixado o santo no Paulo Gracindo. Foi das mais geniais interpretações que vi nesta encarnação - e olha que vi coisa nas anteriores.
Agora descobri que tenho um leitor, que tempos atrás me perguntou onde encontrava o poema.
Pois eis o porre.
Cântico negro em duas geniais - e diferentes - declamações, aí abaixo.
E agora, pra você exercitar, as palavras.
Drummond, Bandeira e João Cabral, gênios da raça, que me perdoem (mais Mário Quintana, Ferreira Gullar e outros poucos), mas este é meu poema favorito.
Saboreiem:

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

Cântico negro por João Villaret

Paulo Gracindo

Aqui ele recita "Cântico negro", do gênio portuga José Régio. Descobri ter um leitor -que me pediu.

Código de Hamurábi

137. Se um homem quiser se separar de uma mulher ou esposa que lhe deu filhos, então ele deve dar de volta o dote de sua esposa e parte do usufruto do campo, jardim e casa, para que ela possa criar os filhos. Quando ela tiver criado os filhos, uma parte do que foi dado aos filhos deve ser dada a ela, e esta parte deve ser igual a de um filho. A esposa poderá então se casar com quem quiser.
138. Se um homem quiser se separar de sua esposa que lhe deu filhos, ele deve dar a ela a quantia do preço que pagou por ela e o dote que ela trouxe da casa de seu pai, e deixá-la partir.
139. Se não tiver havido preço de compra, ele deverá dar a ela uma mina em ouro como presente de libertação.
140. Se ele for um homem livre, deverá dar a ela 1/3 de uma mina em ouro.

O olhar de Capitu - 21.º capítulo de um romance inexpugnável

E ela, mas ela? Disse-me, disse-nos, há nós, há nós, nós e o plural de nó, há nozes, há nós, nós, nós vários, vozes e vocês, há voz, há vós, avós. Chega, pare, paro. Nada mais digo nem direi nem farei, fariseu, farisei, farei. Há nossos antepassados, repassados dignos de nota, notas musicais. Há dós, rés e mis. E sóis. E o sol que rutila nauseabundantemente sobre nossas janelas e cinzeiros e altaneiros arrebóis. E a ressaca do mar e dos olhos sem fim de Capitu. E ela, e ela? Diamantes aos porcos, donde se conclui que, que, que, gaguejadamente se fazem abluções sobre letras e litros de palavras, lavras de pensatas. Pasta dental, flanelas, prateleiras, panelas altaneiras, lojas de amebas sensatas, silvos de tratados de sábios e nefelibatas.

Seres humanos

Do Diário da Região, de Rio Preto, cedido pelo amigão Montezuma Cruz.

A família de três angolanas economizou dinheiro durante três anos, atravessou o oceano Atlântico e viajou sete mil quilômetros até Rio Preto com apenas um objetivo: evitar a morte precoce. As africanas - duas meninas, de 7 e 9 anos, e uma jovem de 20 - sofrem de anemia falciforme, uma doença hereditária que causa dores pelo corpo, fraqueza, quadro anêmico persistente, acidente vascular cerebral (AVC) e pode, nos casos mais severos, matar. Em Angola, país africano colonizado por Portugal, até existem hematologistas, mas faltam medicamentos para tratar adequadamente a doença.

As angolanas descobriram Rio Preto depois que um conterrâneo, que sofre do mesmo mal, tratou-se na cidade e apresentou importante melhora na saúde. O caso ganhou repercussão na província de Zaire, a 400 km da capital, Luanda, onde moram. A dona de casa Isabel Antônio Helena, 44, conta que acredita, com todas as suas forças, em uma solução. Ela é mãe de Silvia Gisela Rosa, 20, e de Rosana Helena Silva, 9. As duas têm a doença e nunca passaram por acompanhamento médico. Sofrem dores fortes na cabeça e nas articulações e ficam, até duas semanas, sem frequentar a escola. A fraqueza limita até a ida ao banheiro - às vezes, são carregadas no colo pelos pais.

“Dói tanto que não consigo fazer nada”, relata Silvia, que cursa o equivalente ao oitavo ano do ensino fundamental brasileiro. Ela é pequena para a idade. Uma das complicações da doença é justamente o déficit de crescimento. “Quero ser advogada.” Silvia não tem o braço esquerdo, amputado na infância após uma sucessão de erros médicos. O membro foi fraturado em uma queda. Silvia revela que a família faz um esforço gigante na esperança de melhorar a vida dela e de Rosana. “O esforço não é só financeiro. Passamos noites inteiras acordadas cuidando delas. O meu sonho é vê-las em melhor estado. Quero que estudem e tenham uma vida normal”, diz Isabel.

Ela é mãe de mais duas meninas (que não sofrem da anemia) e tem parentes com a mesma doença. Estima gastar quase R$ 15 mil com a viagem. Somente as passagens aéreas custaram R$ 2 mil (ida e volta) para cada. Mas, como disse, não se arrepende. Maria João Fernandez, 31, também trouxe a filha Jaquelina João, 7, para se tratar em Rio Preto. A menina sente dores no peito com frequência. A dona de casa bateu na porta de inúmeros hospitais e clínicas angolanas, mas não conseguiu nada. Agora, está confiante em melhorar a saúde da filha. “Temos esperanças em fazer essa conquista.”

A doença da filha obrigou Maria João a parar de amamentar o filho, de 1 ano, para vir ao Brasil. O menino ficou sob os cuidados de uma irmã e da mãe. “Isso foi o mais difícil. Mas tenho que ajudar Jaquelina.” A família vai gastar R$ 10 mil. As cinco devem ir embora em duas semanas. O tratamento é feito em uma clínica particular de Rio Preto, sob comando do hematologista Flávio Naoum. Ele é sincero ao avaliar a falta de tratamento das angolanas até então. “Tiveram muita sorte. Correram risco de contrair infecções graves e de sofrer lesões permanentes em vários órgãos.”

O especialista já as medicou com vacinas e antibióticos, fez exames e vai indicar um tratamento para ser feito em Angola. Todo o procedimento das três vai custar R$ 1 mil. “Com essas medidas terão mais qualidade de vida. A cura, no entanto, só é possível com transplante de medula óssea.” As duas famílias estão hospedadas na casa de uma angolana, estudante da Unesp de Rio Preto, mas procuram casa para alugar. É que a moradia tem apenas dois cômodos e falta espaço para acomodar as visitas.

Teste do pezinho detecta a doença

A anemia falciforme é uma doença comum entre os negros. “Ela surgiu na África. Como uma defesa natural contra a malária. Foi introduzida no Brasil no período em que ocorreu tráfico de escravos”, afirma o hematologista Flávio Naoum. “Mas, hoje, também é comum em brancos e pardos brasileiros, em razão da miscigenação da população.” Segundo Naoum, a expectativa de vida de uma pessoa portadora de anemia falciforme é de 50 anos. “Com os novos tratamentos, é possível prolongar. Cada pessoa reage de uma forma à doença.”

Desde 2001, a doença é descoberta no Brasil com o teste do pezinho, após o nascimento da criança. Assim que constatada, o tratamento é iniciado. O uso preventivo de antibióticos ocorre até os cinco anos de idade da criança. Depois, é necessário acompanhamento regular com especialista. A taxa de óbito, diz Naoum, é de 20% em crianças de até cinco anos, que não realizam tratamento com prevenção de infecção. Em São Paulo, a proporção da doença é de um caso para cada 4 mil nascimentos.

A anemia falciforme pode causar acidente vascular cerebral (AVC) em crianças. Para quem apresenta esse quadro é recomendado a transfusão de sangue uma vez por mês. A manifestação clínica mais comum é a ocorrência de crises de dor, que atingem principalmente pés, mãos, braços, tórax, cabeça, abdômen e pernas. Além de AVC, há casos de úlcera de pernas, necrose do fêmur, retinopatia e déficit de crescimento.