domingo, 25 de dezembro de 2011

Varapaus dos campos carecas

Sérgio Augusto, no Estadão de hoje. Craque.
Sete meses atrás, emendei a vitória do Barcelona sobre o Manchester United na Liga dos Campeões com um jogo do Campeonato Brasileiro. Fui de Wembley ao Engenhão. Choque cultural é pouco. Os jogadores nem haviam entrado em campo e já estávamos perdendo; e não me refiro ao meu time, que afinal ganhou a partida, mas ao estado do gramado: careca, cheio de buracos e implantes de areia. É assim a maioria dos campos de futebol do Brasil, que ainda mais medonhos ficam se imediatamente expostos a uma comparação com o de qualquer estádio europeu de primeira e segunda linha.

Com a bola rolando, a derrota ampliou-se. Passes errados de tudo quanto é distância, chutes descalibrados, faltas a granel, jogadas bisonhas, cruzamentos patéticos para varapaus obsoletos. Que esporte é esse?, perguntei-me, perplexo. Se era futebol aquilo que eu acabara de ver na ESPN, o que estava vendo no SporTV - e outras vezes vira e continuaria vendo - precisava ser rebatizado. Pensando bem, aquela cancha estava à altura do insípido esporte que nela botinavam o Botafogo e seu adversário, justo o Santos, que há cinco décadas dividia com o alvinegro carioca o galardão de melhor time de futebol do melhor futebol do mundo.

Acabou-se o que era doce. E não foi no domingo passado não. Aquele olé catalão na arena de Yokohama foi apenas a última faena de uma corrida iniciada faz tempo. Quando? Antes da última Copa do Mundo, que apenas sacramentou a atual superioridade do futebol europeu, mais especificamente do espanhol. Bem antes, portanto, da desclassificação do Internacional pelo congolês Mazembe, no Mundial de Clubes de 2010, e da medíocre temporada da seleção brasileira sob o comando de Mano Menezes, que ainda não conseguiu extirpar todos os vícios da Era Dunga e nos assegurou um sexto lugar (sexto lugar!) no ranking da Fifa.

Estagnamos técnica, tática e filosoficamente. Como na educação, descuidamos do ensino fundamental, do estudo nas escolinhas de base, da formação de jogadores que conheçam bem os fundamentos do futebol e não cresçam semialfabetizados com a bola nos pés e na cabeça, sem uma visão coletiva do que, afinal, se chama football association. A crítica vale para toda a América do Sul. São erros acumulados que, como os problemas econômicos que em parte os determinaram, não se superam de uma hora para outra. A próxima Copa do Mundo já é daqui a dois anos. O Brasil corre o risco de ser o primeiro campeão mundial a perder as duas copas que disputou em casa. Já foi o primeiro a perder um ministro do Esporte por corrupção, durante os preparativos para hospedar um Mundial.

Se ainda vivo e à sombra das chuteiras imortais, Nelson Rodrigues teria escrito que o Santos levou do Barcelona "um banho de Paulina Bonaparte", e que os gandulas de Wembley pegaram mais na bola que os jogadores santistas. Mas não há como saber se o seu "patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo" o deixaria enxergar o óbvio: que não mais se trata de um confronto entre a "saúde de vaca premiada" e a "velocidade burríssima" dos jogadores europeus e a "morosidade inteligentíssima" dos brasileiros, Fla-Flu retórico dos anos 60, soberbamente superado pela seleção que levantou o caneco em 1970.

No Mundial do México fizemos a maior diferença porque, além de bem preparados fisicamente, ousamos desde a primeira convocação, sem as hesitações que liquidaram nosso time na Copa da Inglaterra, e escalando os melhores até fora de suas habituais posições - Piazza de zagueiro, Rivellino na ponta esquerda, Tostão enfiando-se pelo meio da área -, e adotando o "sistema Dumas": um por todos, todos por um. Mais "association", impossível. E, como havia alguns gênios no time para aumentar a diferença, fizemos a mais fulgurante campanha de um país numa Copa do Mundo.

O que se viu no México foi a culminância de uma revolução a rigor iniciada pelo húngaro Béla Guttman, no início dos anos 50, só ultrapassada pelo "futebol total" que Rinus Michels impôs ao futebol holandês do início da década de 70. Fala-se muito no 16 de julho de 1950, quando perdemos a Jules Rimet para os uruguaios, mas não sei o que é pior, se perder para um time inferior, jogando em casa, ou levar um baile de técnica, tática, disposição e o escambau, como aconteceu com o que sobrara do dream team de Zagalo no dia 3 de julho de 1974, quando a Laranja Mecânica regida por Cruyff nos tirou o tetra em Dortmund.

"Muito tico-tico no fubá", desdenhou Zagallo sobre o alucinante toque de bola dos holandeses, antes da Copa. Tico-tico, sim. Mas o fubá era verde e amarelo.

Depois, como se sabe, Michels levou o futebol tico-tico para o Barcelona, por onde, aliás, passariam duas gerações de craques holandeses. E é por aí que podemos começar a decifrar o enigma da acachapante superioridade do futebol catalão. Ora, direis, fazendo vosso um raciocínio bem rodrigueano, que a Holanda não venceu sequer sua melhor Copa, ao passo que o Brasil, para todo sempre liberto de seu complexo de vira-lata, emplacaria mais dois Mundiais. Ambos, medíocres, diga-se.

Mas o fato é que ganhamos, somos pentacampeões, produzimos e exportamos craques em profusão, como exportávamos ouro e pedras preciosas, e substituímos o complexo de vira-lata pelo que Francisco Bosco muito apropriadamente batizou de "complexo de dálmata", tão ou mais danoso que o outro na medida em que o narcisismo de que se nutre pode nos dar a ilusão de que o futebol jogado pelo Barcelona tem o mesmo pedigree do que jogamos na Copa de 1982. Para encurtar a discussão: quem é o Serginho Chulapa do Barcelona?

Mesmo sem ter visto o Honved de Puskas, o Real Madrid de Di Stéfano, o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha, Bosco afirma, intrepidamente, que nada se compara ao Barcelona. Eu, que vi todos os citados (os dois primeiros só em imagens), assino embaixo desse juízo e desta explicação: "Os times do passado jogavam o mesmo futebol dos adversários, só que melhor. Esse time do Barcelona não joga o mesmo futebol que os adversários; joga um futebol inédito". Sorte nossa que Mano Menezes também tenha percebido isso.

Direito e justiça

Eliana Calmon forévis.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Então é natal

Roubado do FB do Nilson Monteiro, amigo de muitos anos, sessentão, cidadão honorário de Londrina, Curitiba e Paraná.

Minha forma de desejar bom Natal a todos: um texto que escrevi à minha filha, Ana, na madrugada de seu nascimento, no início dos anos 80.

Ana, amém

Início de noite. Fachos esquisitos, ardentes, brilharam ao mesmo tempo em três distâncias diferentes. Clarão maior que farol de milha. E mágico: não cegava, tampouco atrapalhava a visão. Os três magros, suados, camisetas roídas nos sovacos, largaram para o mesmo destino, os brutões bufando.

Os faróis luziam mais que todas as estrelas - quem acreditasse em cometas do asfalto já teria o que contar para o resto da vida. O risco brilhante dos caminhões podia ser visto em Colorado, Curitiba, Ribeirão Preto, Ipatinga, Manaus, Belém, Areia ou São Paulo. A tocha, como um triângulo, seguia para o encardido Norte do Paraná.

Os caminhantes, os que foram acordados pelo brilho, os assustados, os descrentes, os crentes, uns e outros seguiram Dito, Tião e Mané. Mecânicos, lavadores, bóias-frias, guardas rodoviários, feirantes, políticos, prostitutas, motoristas, ciganos, padres, jornalistas, fazendeiros, ladrões, garçonetes, bancários, empresários, professores, médicos, agricultores, vagabundos, obscuros ou luzentes homens e mulheres que enxergaram os faróis, com ou sem profissão, crentes ou descrentes, nem chegaram a perceber um pó fino, roxo, grudando nos poros, melecando as costas. Ou o cheiro doce de antemanhã. Caminharam.

Maria vencera preconceitos. Caminhoneira, dirigira até não suportar mais as dores. José, seu companheiro, improvisara um berço na banheira onde testava câmeras e pneus remendados.Na borracharia, o cheiro era sujo, cinza, com mosquitos cansados namorando a lâmpada quase morta, cara de tomate.

José abaixou a voz de Sérgio Reis e seu menino da porteira no radinho vermelho de pilha. Olhou as unhas maceradas, as mãos grossas, a roupa engraxada, pneus, câmaras, o batente, rodas, o martelo, o sossego do gato, a torneira pingando mole, nacos de borracha espalhados pelo chão, olhou a vida. E sorriu.

Boca a boca, buzina a buzina, a notícia correu o país. E este meteu o pé na estrada. De Cambará a Paranavaí, de Presidente Prudente a Ortigueira, de São José dos Pinhais a Vitória, de Foz do Iguaçu a Fortaleza, de Curitiba a Campo Grande, feito rastilho a mão virou única: atrás do Dito, Mané e Tião.

Foram noite-dia-ano, secas e tempestades, calarões e geadas, meninos e velhos, orações e brigas, poeira soprando nos carreadores, relâmpagos tricando trilhas, trilhos e camilhos misturados, lágrimas caudalosas, espontâneas, quase inexplicáveis.

Dito, Tião e Mané brecaram os brutos. Bufavam. Cheiro de lona. Nas mãos, uma garrafa de cachaça, um quilo de feijão e meio quilo de carne de sol. Os fachos se encontraram, único, varando o mato beira-de-linha.

Maria ardia. Por um instante se fez silêncio. Absoluto. Absurdo. O mundo estacionado no acostamento, entre Londrina e Ibiporã. Até os grilos e pererecas aquietaram. Tião, Dito e Mané, as mãos ensebadas de direção e câmbio, arderam, abraçados a José, em brasa.

Um berro cortou a madrugada. Os sinos desembestaram. Feito loucos, um carrilhão descabelado, badalaram em todo país, vararam o mundo. A moda sertaneja comeu solta em cada barraco. Forró de sons, imagens e signos. E na borracharia Brasil começaram a aparecer coisas fantásticas como pães, goiabada, café, lápis, queijo, cadernos, roupas, peixes, um pedaço de rapadura, banana, arroz, mel, cachaça, espigas maduras, feijão, calçados, açúcar, respeito, sal, liberdade, prazer, laranjas, solidariedade, bifes, água, dignidade, terra...

Ana chorava, miúda e melecada. Era Natal!

Nilson Monteiro

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A lista das pautas indigestas

Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa.

O ruidoso silêncio dos jornais de circulação nacional em torno do livro A privataria tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., diz muito sobre o que tem sido, nos últimos anos, o viés político da imprensa brasileira. Mas deixa ainda mais obscuros os escaninhos da relação entre o ex-governador, ex-ministro, ex-prefeito e ex-senador José Serra com a cúpula das empresas de comunicação dos principais centros do país.

Repórteres que acompanham a carreira desse político paulista se habituaram há muito tempo a aceitar como normal sua ascendência sobre as cabeças coroadas da imprensa tradicional. Nunca ocorreu a ninguém – ou se ocorreu, nunca antes qualquer profissional havia enfrentado essa tarefa – vasculhar os segredos dessa estranha relação.

O livro de Ribeiro Jr., pelo menos nos trechos já divulgados em entrevistas que circulam pela internet e reproduzidos por blogs, levanta hipóteses que podem conduzir a conclusões perigosas demais para serem tratadas com leviandade. Talvez seja essa exatamente a razão pela qual os grandes jornais ainda não se dispuseram a entrar no assunto com a dedicação que ele merece.

Silêncio da imprensa

Se é verdade metade do que já se disse sobre a investigação de Ribeiro Jr., deve haver motivos para preocupações em muitas casas de boa reputação. Mais alguns dias e os primeiros compradores terão completado a leitura das 334 páginas do livro, e então o silêncio da chamada grande imprensa será de pouca valia.

Argumentando-se que é apenas a cautela do jornalismo responsável o motivo de tamanha retração – pois seria leviano conceder o aval da imprensa ao livro e seu autor sem uma leitura cuidadosa da obra – ainda assim não se pode escapar de uma comparação com outros livros sobre políticos publicados recentemente.

Não é mistério para as pessoas afeitas ao mister do jornalismo que muitas das resenhas publicadas pela nossa imprensa são produzidas por osmose, sem que os redatores de cadernos de cultura tenham que se dar o trabalho de ler inteiramente a obra analisada. O método é descrito deliciosa e ironicamente pelo escritor Ronaldo Antonelli, ex-redator do jornalismo cultural, em seu romance O crepúsculo das letras.

Foi assim, claramente, que alguns livros sobre políticos ganharam destaque recentemente. Principalmente aqueles escritos por seus desafetos, como foram os casos daqueles que têm como personagem o ex-presidente Lula da Silva.

Se o caso é de esperar que algum bom resenhista termine sua leitura, louvado seja o silêncio da imprensa em torno do livro-bomba de Amaury Ribeiro Jr. Caso contrário, pode-se dizer que se trata do silêncio dos indecentes.

Choque de realidade

Há evidências de que o viés conservador da imprensa nacional se transforma em padecimento mental. A possibilidade de que um livro venha a desfazer a imagem pública de um aliado político parece paralisar as grandes redações.

Mesmo a hipótese de que se trate de uma grande farsa, a esta altura muito improvável, seria motivo para que o tema atiçasse a curiosidade dos editores. Se nem a possibilidade de provar que se trata de uma armação, com a consequente canonização midiática de José Serra, é capaz de mover os grandes jornais, pode-se afirmar que a imprensa precisa de um choque de realidade.

Uma imprensa ruim ainda é melhor que nenhuma imprensa, mas para merecer o respeito da sociedade é preciso algum sinal vital de jornalismo, ainda que tênue. A imobilidade das grandes redações diante de um escândalo potencial como o que representa o livro de Amaury Ribeiro Jr. alimenta de argumentos aqueles que defendem o controle externo da mídia.

A melhor defesa é o esforço pelo jornalismo de qualidade, que inclui banir a prática da lista negra de pautas indigestas.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O Barça e a bola

Alberto Helena Jr., no IG

Estádio lotado de merengues e o Real vindo de quinze vitórias consecutivas, time azeitado, pleno de estrelas, líder do Campeonato Espanhol, sensação da Liga dos Campeões e tal e cousa e lousa e maripousa.

Eis que, logo de cara, o goleiro Victor Valdés, do Barça, faz uma lambança e Benzema abre a contagem. A tragédia catalã se desenha no ar do Santiago Bernabeu.

Que nada, espie só o Barça. É como se nada tivesse acontecido e tudo estivesse ainda por acontecer, pois o jogo, para ele, nem era realmente no Santiago Bernabeu, em Madrid, ou qualquer outro recanto real que a bola rolava. Era num campo dos sonhos, flutuando acima de qualquer paixão.

Perceba como esses caras não dão a menor pelota para o placar, o adversário, o juiz, a torcida. Seu negócio é a bola. Onde ela estiver, eles a tratam com ternura e cuidados. Mesmo sob intensa pressão, apesar do erro grotesco do goleiro, nenhum chutão pra frente, nenhum despacho sem endereço certo, nenhum temor.

Como cunhou certa vez o técnico Muricy: a bola pune. Sim, pune quem a trata mal, mas premia quem lhe dispensa tanto respeito e carinho. E, lá vai a bichinha ronronando de prazer de pé em pé, submissa, agradecida, seduzida, até se deitar na rede branca por três vezes ainda antes do apito final.

Há quem consiga traçar e retraçar, durante o jogo, todos os meandros desse time maravilhoso, construindo e reconstruindo fórmulas as mais cabalísticas possíveis; mas, para mim, o mistério desse Barcelona é a simplicidade em seu estado mais puro, como a primeira lição das cartilhas d’antanho, que começava assim: O Menino e a Bola.

Veja as melhores fotos de 2011

http://www.buzzfeed.com/mjs538/the-most-powerful-photos-of-2011

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ao inferno com esses esqueitistas

As desautoridades de trânsito de Curitiba, que, com categoria, transformaram as ruas - e calçadas - da cidade numa verdadeira zona, desprezam agora um novo personagem que já se transforma em problemão: o esqueitista, ou skatista, como preferem os puristas.
Depois de infestarem as ruas dos bairros, metendo-se entre os carros e sempre à beira de serem atropelados, esses (alguns nem tão) garotos boçais começam a ocupar até as ruas do centro. Por volta de 9h25 de hoje, na Carlos de Carvalho, entre Visconde do Rio Branco e Visconde de Nacar, um escrotinho a bordo de um esqueite descia a rua na contramão e, gozando da cara de todo mundo, falava ao celular. Passou por ele a Kombi 510 da Diretran, placa ATE-9647, lotada de tirivas de blocos à mão. A viatura apenas desviou do babaca e continuou seu caminho. Tirar o garoto da rua e colocá-lo calçada, apreender-lhe o esqueite, dar-lhe umas palmadas? Que nada. As desautoridades estavam mais preocupadas em chegar aos locais do EstaR para começar a distribuir suas notificações. E vai ser assim até que o primeiro motorista desça do carro e aplique uma surra num desses moleques estúpidos.