sábado, 31 de julho de 2010

Mulheres: a traição

Por Ruth de Aquino, na Época
Mulheres traem pelo mesmo motivo que homens: por desejo, por vontade. A diferença é que elas costumam culpar o marido ou o namorado. “Ele não me dava mais atenção”, dizem. “Não era mais romântico, não me elogiava, nem sexo queria.”

O livro mais recente da antropóloga Mirian Goldenberg desfaz o mito de que o homem trai por sexo e a mulher trai por amor ou desamor. Se assim fosse, o homem seria sempre culpado: quando trai e quando é traído. Não é justo com eles.

Homens e mulheres gostam de acreditar que o marido é safado por natureza, e a mulher casada é santa por dedicação. Esses rótulos podem parecer convenientes, mas contaminam as relações amorosas. Trabalhando há 22 anos com dilemas de casais, Mirian diz, em seu livro Por que homens e mulheres traem?, que a maior diferença entre eles e elas não é o comportamento, mas o discurso.

“Em vez de assumirem o desejo, as mulheres preferem se fazer de vítimas. Sentimentalizam o caso extraconjugal e botam a culpa no marido. Os homens assumem ter sido infiéis porque quiseram. Raramente culpam a própria mulher.”

Cada vez mais, porém, a infidelidade feminina segue os mesmos padrões da infidelidade masculina. No livro da antropóloga, “Mônica” é uma mulher dos novos tempos. “Ela está muito bem em seu casamento e ama o marido. Mas surge um desejo sexual louco e novo em sua vida e ela se joga nele. Rompe a calmaria porque decide viver seu próprio prazer.”

O desejo de se sentir desejada conduz a pequenas e grandes infidelidades femininas. As mulheres escutaram, quando crianças, que seu maior objetivo na vida seria casar e ter filhos. No futuro, elas teriam um único homem para chamar de seu. E seriam únicas para um homem só. A idealização da monogamia romântica não mudou muito, mas a realidade a longo prazo é bem outra.

Mulheres são um pouco Leila Diniz no exercício da sedução, mas não necessariamente na transgressão. As obrigações sociais jogam sua libido num lugar invisível e inatingível. Várias sublimam o prazer ao assumir o papel de mãe. Isso não significa que abram mão de suas fantasias. Conheci mulheres absolutamente certinhas, monogâmicas, que casaram virgens e têm sonhos delirantemente libertários.

Algumas não se contentam em fantasiar. Catherine Deneuve, em A bela da tarde, de Buñuel, é uma das personagens mais enigmáticas do cinema. Bem casada, rica, belíssima, ela se entrega a desconhecidos após o almoço como prostituta de luxo. É um exemplo extremo de desvio.

Mas, se a infidelidade feminina fosse apenas um fetiche, Nélson Rodrigues não teria tocado com tanta propriedade a alma da classe média brasileira. Novelas como a atual Passione soariam falsas. Ali, as protagonistas traem compulsivamente, das cinquentonas às ninfetas. Traem por desejo, por sexo, por diversão.

O psicanalista Contardo Calligaris acha que as mulheres são tão infiéis quanto os homens. Não vê nisso um problema. “As mulheres só são campeãs na fidelidade companheira e solidária. Em hospitais ou presídios, os visitantes são mulheres. Mas, sexualmente, não vejo diferença. Caso contrário, existiria um problema lógico. Se os homens heterossexuais são infiéis, quem são suas amantes – todas solteiras e livres ou também casadas e namorando outros?”

Contardo acha a palavra infidelidade muito pesada para a traição puramente sexual: “Jamais deixaria minha mulher se ela me contasse algo parecido. Mas sou fiel. Acho um saco trair. Ter outra relação dá um trabalho horroroso”.

Nos tribunais do Rio de Janeiro, recentemente, o juiz Paulo Mello Feijó ignorou o pedido de indenização por danos morais de um marido traído. Para o juiz, marido traído é marido relapso. “Homens de meia-idade, já não tão viris, descarregam suas frustrações nas mulheres, chamando-as de gordas e deixando-lhes toda a culpa por seu pobre desempenho. E elas buscam o prazer em outros olhos, outros braços, outros beijos (...) e traem de coração.”

A ideia de que a mulher só trai por razões sublimes, “de coração”, não corresponde à realidade. Se ela for infiel, será por desejo e por vontade própria.

Microconto 14 de 100

Não faça isso comigo.
Sou casado e tal.
Deixa pra lá, deixa pra cá.
Já fez.

O Príncipe (como ser um maquiavélico virtuoso) - interpretação livre, que de tão livre...

A virtù
É a soma de qualidades – algumas moralmente condenáveis - com as quais o príncipe novo conquista o poder pelas próprias armas e homens, enfeixa-o nas mãos e o conserva. O príncipe precisa ter e exercer energia, vigor, talento, poder de decisão, valor bravio, ferocidade, até. Maquiavel recomenda que o príncipe reúna a astúcia da raposa e a força do leão. Graças à primeira, pode escapar de armadilhas, mas não dos lobos. A força do leão dará conta dos lobos. O príncipe, quando não impõe sua ferocidade leonina, usa a astúcia da raposa para praticar o bem e o mal. O príncipe de virtù sabe aproveitar a ocasião criada pela fortuna para conquistar e manter o poder.

O olhar de Capitu - décima parte de um romance impublicável

As fronteiras sibilantes se esvaem em sambas e montanhas. Muralhas à tardinha, dirá o vate da valeta, ladino proxeneta. Alvíssaras, alvíssaras! Ladra o ladrão nos desvãos dos macadames educacionais, qualidade apropriada ao muro. Quando, quando?, eis que beija a parede o devasso girassol, em meio ao soluço liberal dos amores saturninos. E logo o fonograma arrebata a tigela rarefeita e esparge, borrifa os personagens galhardos e tímidos dos potentes anzóis desorientados. Alados, livros livres despenteiam isolacionistas siderais, ósculos monocondriais e sálvias longínquas. Séculos e ósculos vos contemplam como hoje os ônibus lusitanos.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Patrimônio da regionalidade

Por Marcos Sá Correa, no Estadão de hoje
O Parque Nacional do Iguaçu está em rota de colisão com seu título de Patrimônio Natural da Humanidade. Aposta essa reputação em mesas avulsas, que o acaso juntou neste mês em Brasília, a capital dos desencontros.


Numa rodada, o governo afia a língua para convencer a comissão da Unesco, instalada na cidade, de que o parque vai bem, obrigado. Há queixas contra ele nos relatórios técnicos que precederam o encontro. Eles lamentam, para começo de conversa, a afobação para bater recordes de visitação ano após ano, em prejuízo da conservação da fauna e da flora.

Mas, até aí, a Garganta do Diabo fala mais alto. O título continuaria no papo, se não tivesse chegado a Brasília, pouco antes da comissão, mais uma proposta para reabrir a Estrada do Colono, cortando ao meio a floresta do Iguaçu. À Unesco se creditou, nove anos atrás, o empenho do governo brasileiro para interditar depressa a estrada, com o Exército e a Polícia Federal.

A ideia de reabri-la se apresentou no Ministério do Meio Ambiente pela mão do desembargador Álvaro Eduardo Junqueira. O Tribunal Regional Federal da 4.ª Região o encarregou de promover a conciliação entre o parque e seus tradicionais invasores, em vez de julgar o processo. E ele passou a cuidar disso pessoalmente.

Com a conciliação em marcha, o projeto, que era assunto de políticos locais, ganhou padrinho federal. E mudou de estilo. A reabertura da estrada agora é chamada de "restauração". Dispensa a força e a coreografia da luta armada que usou para ocupar o parque em 1997 e 2001. Mas ainda não perdeu ao ar de fato consumado.

Semanas atrás, os municípios paranaenses ouviram do desembargador, em assembleia, a sugestão de que se contentassem com uma estrada "mais ecológica". Imediatamente, materializou-se o projeto de Estrada Ecológica, assinada pelas associações de municípios do oeste e do sudoeste do Paraná.

O deputado paranaense Assis do Couto (PT), de quebra, apresentou na Câmara o projeto de lei 7.123, que cria a "Estrada-Parque Caminho do Colono". Vai relatá-lo outro deputado paranaense, o engenheiro Eduardo Sciarra (DEM) ? que, como sócio da construtora CRE, tem um pé na Cataratas S/A, a empresa que explora legalmente os serviços turísticos terceirizados no Iguaçu. E agora outro pé na informalidade.

Iniciativa "histórica". A estrada-parque é um atalho para a entrada no parque de concessionários que se credenciam, sobretudo, como detentores da "memória dos prisioneiros". Em outras palavras, da lenda que atribui aos colonos gaúchos e catarinenses a iniciativa "histórica" de rasgar na selva o tal caminho, aberto em terras da União pelo governo estadual. Isso, na década de 1950. Portanto, no mínimo 11 anos depois do decreto que instituiu o parque.

Mas trunfo histórico nunca falta, como ensinou o historiador Sérgio Buarque de Holanda em Visões do Paraíso. Arisco mesmo é o futuro. E ele escapa pelas frinchas do projeto, que fala em calçar os 17,6 quilômetros do caminho de terra com lascas de basalto, para que o piso irregular obrigue os veículos a trafegar em baixa velocidade. Garantindo, portanto, "a travessia segura da fauna". Mas, por via das dúvidas, manda cortar todas as árvores a 1,5 metro da pista, "para evitar acidentes".

Indica "ônibus elétricos" nos passeios turísticos, sem dar a menor pista de onde pretende encontrá-los. Enumera 15 investimentos. Não apresenta um só custo. Cabe inteiro em menos de dez páginas, apesar da farta ilustração. Dá para atravessá-lo, de ponta a ponta, em minutos. Se cair nas mãos da Unesco, o governo brasileiro terá muito o que explicar à comissão do Patrimônio Natural da Humanidade.




quinta-feira, 29 de julho de 2010

Código de Hamurábi

36. O campo, o jardim e a casa do capitão, do homem ou de outrém, não podem ser vendidos.
37. Se comprar o campo, o jardim e a casa do capitão, ou deste homem, a tábua de contrato deve ser quebrada (declarada inválida) e a pessoa perderá dinheiro. O campo, jardim e casa devem retornar a seus donos.
38. Um capitão, homem ou alguém sujeito a despejo não pode responsabilizar por a manutenção do campo, jardim e casa a sua esposa ou filha, nem pode usar este bem para pagar um débito.
39. Ele pode, entretanto, assinalar um campo, jardim ou casa que comprou e que mantém como sua propriedade, para sua esposa ou filha e dar-lhes como débito.
40. Ele pode vender campo, jardim e casa a um agente real ou a qualquer outro agente público, sendo que o comprador terá então o campo, a casa e o jardim para seu usufruto.
41. Se fizer uma cerca ao redor do campo, jardim e casa de um capitão ou soldado, quando do retorno destes, a campo, jardim e casa deverão retornar ao proprietário.
42. Se alguém trabalhar o campo, mas não obtiver colheita dele, deve ser provado que ele não trabalhou no campo, e ele deve entregar os grãos para o dono do campo.
43. Se ele não trabalhar o campo e deixá-lo pior, ele deverá retrabalhar a terra e então entregá-la de volta ao seu dono.

Os tuiteiros e as marcas de olho nos tuiteiros

Publicado pela metaAnálise
Análise conduzida pela Predicta durante o Mundial de Futebol da FIFA avaliou a percepção dos tuiteiros a respeito das marcas participantes do evento e mostra o ranking das marcas mais admiradas, lembradas e populares.

Ao contrário do que se fala ou imagina, as pessoas estão cada vez mais atentas às ações publicitárias. Durante o Mundial da África do Sul percebeu-se um comportamento curioso nos intervalos dos jogos da Seleção Brasileira, quando os tuiteiros aproveitavam para postar mensagens sobre as marcas que investiram em ações de marketing ou patrocínio na competição.

Essas e outras conclusões foram obtidas a partir da análise realizada pela Predicta, consultoria especializada no comportamento do consumidor nos meios digitais, durante o principal evento esportivo do ano. A Copa das Marcas (www.copadasmarcas.com.br) foi um estudo exploratório do comportamentos dos usuários no Twitter, com o objetivo de compreender como as grandes marcas seriam percebidas pelos brasileiros no microblog durante o Mundial.

Segundo André Freitas, Diretor de Novos Negócios da Predicta, a análise foi um grande exercício para a consultoria e para as marcas conhecerem mais sobre sua ressonância das redes sociais no mundo comtemporâneo. “O grande apredizado que tiramos desse estudo é que, cada vez mais, as organizações precisam estar atentas à importância do crossmedia”, afirma Freitas. O executivo aponta que na análise foi possível perceber que as campanhas de TV das marcas eram
constantemente comentadas pelos tuiteiros, assim como anúncios na mídia impressa.

Enquanto os demais meios de comunicação são uma via de mão única, onde as pessoas apenas recebem informação passivamente, as redes sociais permitem que as pessoas interajam com o conteúdo, possibilitando assim que as empresas estabelçam um diálogo em tempo real com estas pessoas. “Tendo em vista essa realidade, é imprescindível que as empresas estejam atentas ao que estão falando sobre elas nas redes sociais, para terem a capacidade de agir rapidamente quando preciso”, analisa Freitas.

Um bom exemplo de crossmedia pôde ser percebido ao longo da Copa. Como o caso do Extra, em que o presidente Abílio Diniz usou o Twitter para dar seu parecer sobre a publicação equivocada de um anúncio publicitário da marca na mídia impressa. A marca rapidamente percebeu a quantidade de pessoas que comentaram sobre o assunto na internet, e agiu rapidamente para que sua credibilidade não fosse ferida, esclarecendo o ocorrido no mesmo dia.

Isso comprova que utilizar o Twitter como fonte de informação para avaliar a percepção das pessoas sobre sua marca, produto, serviço ou campanha publicitária, por exemplo, é uma estratégia acertada por parte das empresas. “O Twitter traz ondas de informações. Se a empresa tem condições de aproveitar essas ondas que aparecem, certamente terão um retorno positivo”, destaca.

Outra percepção obtida com o estudo foi em relação aos tweets durante os intervalos dos jogos da Seleção Brasileira. As menções sobre as marcas nesses períodos foram maiores que durante a partida. Após o jogo de eliminação do Brasil, o volume de menções sobre as marcas foi ainda maior; os usuários utilizaram a rede social para reclamar sobre o fato de as empresas já terem os anúncios da eliminação prontos. “Sabemos que nas fases eliminatórias a produção de campanhas para a vitória e para a eliminação são comuns. Porém, durante esse Mundial conseguimos perceber o quanto essa prática do mercado publicitário incomoda as pessoas, que encararam o fato como um 'agouro' e utilizarm as redes sociais para reclamar”, afirma Freitas.

A ação

A consultoria uniu duas áreas de expertise: produtos e inteligência para realizar a medição. A captura dos tweets foi realizada diariamente por intermediário da ferramenta Radian6. Na sequência, o setor de inteligência avaliou o material, racionalizou e categorizou os dados. Foi necessário criar indicadores específicos para ponderar o volume de tweets, as características de cada um e a afinidade com a campanha veiculada. No total, foram analisados, ao longo de um mês, cerca de 300 mil tweets que mencionavam as marcas monitoradas. O ranking final com as marcas admiradas, lembradas e populares ficou assim:

Marcas Mais Amadas
1 - Adidas 95,26%
2 - Visa 94,81%
3 - Coca-Cola 93,16%
4 - Sony 91,95%
5 - Brahma 91,09%
6 - McDonald’s 86,40%
7 - Pepsi 86,24%
8 - Seara 82,43%
9 - Volkswagen 79,59%
10 - Itaú 70,53%

Share of Voice
1 - Coca-Cola 20,73%
2 - Nike 13,97%
3 - McDonald’s 9,67%
4 - Sony 9,55%

Marcas Mais Populares
1 - Seara 41,76%
2 - Vivo 17,26%
3 - Adidas 14,29%
4 - Itaú 12,27%