quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A mídia nunca desce às causas da corrupção

Dirceu Martins Pio
Perguntei ao filósofo Roberto Romano, em 2006, se acreditava que o “mensalão” de fato existiu e a resposta veio do fundo do poço, por onde perambula o pensamento dos filósofos: “Seria uma aberração do sistema se não tivesse existido”.
A voz de Roberto Romano é talvez a mais lúcida do país na hora de prospectarmos as causas dos flagelos que se abatem sobre a nossa velha e carcomida República. Trata-se, contudo, de uma voz que tem pouquíssima presença na mídia, pois esta navega hoje na superfície de todos os grandes temas. Nunca desce às causas que fazem eclodir os problemas. Gosto muito desta metáfora e acho que merece ser repetida ao falarmos de corrupção: se o Brasil fosse um paciente e a mídia um médico, diria que este vive a combater a febre, sem nunca se importar com a infecção que a produz.
Roberto Romano falou em sistema. É fácil descobrir o que pretendeu dizer com isso: para ele, o Brasil tem o modelo federativo mais centralizador do mundo e a centralização impôs a existência de um sistema controlado com argúcia e rigor pelas oligarquias regionais. Mais de 70% de tudo o que os brasileiros pagam de taxas e impostos vão parar nos cofres da União. Para não morrerem à míngua, os municípios elegem deputados e senadores e os mandam à Brasília para trazer de volta o dinheiro que serve para a construção da ponte e da escola. De emenda em emenda orçamentária, parte considerável desse dinheiro é desviada por corruptos e corruptores.
O Congresso Nacional só faz trabalhar para levar o dinheiro de volta para os municípios. Os brasileiros elegem seu novo presidente por milhões de votos e ele, quando assume, vai trombar, inexoravelmente, com um Congresso que trabalha com uma lógica miúda porque é uma instituição essencialmente regional. Conclusão, que é também do filósofo Roberto Romano: sem mensalão, nenhum presidente vai conseguir governar.
Uma das causas da corrupção, talvez a mais importante, é essa: a centralização de recursos e de poderes proporcionada por um modelo federativo que se manteve soberano durante toda a República. Ninguém tem interesse em modernizá-lo, mesmo que a Constituição de 1988 tenha aberto um capítulo – ainda não regulamentado – que prevê ampla autonomia municipal.
Roberto Romano, da Unicamp, nos dá, portanto, a possibilidade de avaliar o tamanho do pecado do ex-ministro José Dirceu, apontado como idealizador e coordenador do Mensalão ou do Valerioduto, como quiserem. Deve ser julgado pela história muito mais pelo que “não fez” do que propriamente pelo “que fez”. Ao fazer o que fez quis, certamente, apenas ampliar o índice de governabilidade de Lula e de seu partido, o PT, instalado no poder central pela primeira vez.
O “sistema” ao qual se refere Roberto Romano continua a mostrar a sua face terrível nestes primeiros meses de governo Dilma. A presidente já deve ter descoberto que não vai conseguir governar se não atender o pleito dos partidos da “base aliada” na remessa de recursos para o reduto eleitoral de deputados e senadores e não fizer “olhos grossos” para os inevitáveis desvios. A sua propalada faxina não passa de cortina de fumaça. A seu modo, Dilma também terá de pagar o seu mensalão.
Mas, afinal, o que José Dirceu não fez? Não moveu uma só palha na direção de modernizar esse sistema, trabalhar na regulamentação dos artigos constitucionais que prevêem maior autonomia política e financeira aos municípios, trabalhar na transformação do Congresso numa autêntica Casa de Leis. José Dirceu tem aparato intelectual e poder de articulação política para dar início a essa batalha. Preferiu, contudo, o caminho mais fácil, que foi o de achar que, mais uma vez, os meios vão justificar os fins. Aderiu sem nenhuma resistência à visão regional que avassala o Congresso Nacional, instituição pensada para legislar em favor das grandes causas da nação, mas transformada em grande ferramenta de todos os “malfeitos”.
Toninho Trevisan, por outro lado, é consultor e auditor empresarial de muito respeito no país. Ele aponta uma segunda – e também importante – causa da corrupção: o baixo índice de auditagem do dinheiro público no Brasil. Mostra, por exemplo, que cada tostão que sai dos cofres do governo alemão é acompanhado por severa auditoria até o instante de sua aplicação adequada. A Alemanha faz isso em dimensão mundial.
Se levássemos em conta apenas as denúncias de corrupção publicadas pela mídia nos últimos 10 anos, talvez tenhamos de lançar mão de megas computadores para calcular o montante do dinheiro que saiu dos cofres públicos e que não foi alvo de qualquer auditagem. Cadê uma lei que imponha rigorosa auditagem na aplicação de cada centavo que saia dos cofres públicos? Temos ainda uma terceira causa da corrupção. Tem sido apontada com veemência por ONGs que se dedicam à transparência da instância pública: é a verdadeira enxurrada de “cargos de confiança” e que tem permitido a contratação de milhares e milhares de pessoas sem concurso e sem critério pelos governos municipais, estaduais e federais. Esse é o espaço dos partidos que assumem o governo e não se enxerga nenhuma motivação profissional nas pessoas que assumem esses cargos, de salários ridículos, mas que valem muito a pena pela influência que as pessoas que os ocupam passam a exercer sobre a instância pública, inclusive e principalmente, sobre o destino dos recursos.
Houve uma certa frustração no último 7 de Setembro das pessoas que esperavam que os meios digitais seriam capazes de produzir uma grande mobilização nacional contra a corrupção. Entende-se o fracasso: o combate à corrupção não tem bandeiras muito claras e no imaginário das pessoas deve-se parecer como algo abstrato, genérico demais para produzir forte mobilização. E a meu ver a mídia é culpada por essa ausência de capacidade mobilizadora, justamente porque não tem avançado sobre as causas da corrupção.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Merval Pereira, o imortal

Por Paulo Nogueira (retirado do portal Brasil 247)

Bem, eis a Pataquada da Semana. Merval Pereira, jornalista, virou imortal. Lol.

Vou em busca de explicações. Ele deve ter escrito algum livro importante que não notei. Ou alguns, penso numa perspectiva mais otimista.

Pesquiso.

Mas.

Ele é autor de “O lulismo no poder”, uma coletânea de seus artigos no Globo. Quer dizer, não bastasse o leitor ser castigado por Merval uma vez na forma de jornal, ele apanha de novo na forma de livro.

Merval é, basicamente, contra tudo que Lula fez, do Bolsa Família às cotas universitárias. Se Lula inventar a cura do câncer, Merval vai atacar. Seu poder de persuasão pode ser facilmente medido nas urnas. Se eu fosse candidato, torceria para que Merval fosse contra mim.

Ao lado de Ali Kamel, ele é um dos mais fiéis reprodutores do ideário da família Marinho. (Esperemos para ver se Kamel não vira futuramente um imortal.)

Numa carta célebre a um editor, o barão da imprensa Joseph Pulitzer disse o seguinte: “Espero que você pense, pense, pense!!! (…) Que compreenda que todo editor depende do proprietário, é controlado pelo proprietário, deve veicular os desejos e as idéias do proprietário. (…) Sua função é pensar, o mais próximo possível, no que você pensa que eu penso.”

Merval – e nem Kamel – teriam que ouvir isso. Lembro que, nas reuniões do Conselho Editorial da Globo das quais participei entre 2006 e 2008, os dois pareciam disputar entre si quem era campeão em pensar como a família Marinho pensa.

Na cerimônia de posse de Merval, Machado de Assis, fundador da ABL, foi lembrado e de certa forma comparado ao novo imortal. Porque trabalhou como jornalista num certo período.

Esperemos então que Merval produza suas Memórias Póstumas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O cão chupando manga




Foto roubada do FB de Fernando Gerlach

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Baixa renda e escolaridade dos pais mantêm deficiente a dieta de jovens pobres

Da Agência Fapesp (www.fapesp.br)

A renda familiar e a escolaridade dos pais são fatores que influenciam na dieta dos adolescentes, restringindo a ingestão de nutrientes importantes no combate de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes.

A conclusão é de uma pesquisa realizada na capital paulista pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, e publicada na revista Public Health Nutrition.

O estudo foi tema do mestrado de Eliseu Verly Júnior, com coordenação de Dirce Maria Lobo Marchioni e participação de Regina Mara Fisberg, ambas professoras do Departamento de Nutrição da FSP-USP.

Com o objetivo de avaliar o consumo alimentar de 525 adolescentes, com idade entre 14 e 18 anos, o trabalho integrou o Inquérito de Saúde no Município de São Paulo (ISA), que visa conhecer com mais detalhes o perfil epidemiológico da população da cidade.

O nutriente com maior percentual de ingestão inadequada nessa faixa etária foi a vitamina E, apresentando deficiência de 99% na dieta de ambos os sexos. Em segundo lugar esteve o magnésio, com 89% de inadequação entre os adolescentes do sexo masculino e 84% do feminino, seguido pelas vitaminas A (78% e 71%), C (79% e 53%) e B6 (21% e 33%).

“Existem diversas variáveis que determinam o baixo consumo desses nutrientes nessa faixa etária como, por exemplo, a renda familiar per capita As pessoas que pertencem ao grupo de baixa renda apresentaram menor consumo de nutrientes, entre os quais as vitaminas A, C, B6, B12, fósforo, zinco, tiamina e riboflavina”, disse Verly à Agência FAPESP.

“Isso ocorre porque as pessoas dessa faixa etária geralmente consomem baixas quantidades de frutas, verduras e legumes, que são importantes fontes de nutrientes”, disse Verly, que atualmente faz doutorado na FSP-USP.

"A condição financeira restringe o acesso aos alimentos e, dessa forma, a uma dieta mais adequada. Isso indica que a camada menos favorecida tem pior condição nutricional”, apontou Fisberg.

O estudo verificou ainda que a deficiência na dieta também esteve relacionada ao nível escolar dos pais. Os dados mostraram que a menor escolaridade foi associada às maiores prevalências de inadequação de consumo dos mesmos nutrientes apontados em jovens de baixa renda.

Para Fisberg, os dados apresentados pela pesquisa podem auxiliar futuros programas de estímulo ao consumo de alimentos fontes dos nutrientes deficientes – presentes em frutas, vegetais e cereais, entre outros –, voltados à população de baixa renda.

O artigo Socio-economic variables influence the prevalence of inadequate nutrient intake in Brazilian adolescents: results from a population-based survey (doi:10.1017/S1368980011000760), de Eliseu Verly Júnior, Regina Mara Fisberg, Dirce Maria Lobo Marchioni e Chester Luiz Galvão César, pode ser lido por assinantes da Public Health Nutrition em journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=8347250&fulltextType=RA&fileId=S1368980011000760

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

No lugar de Scarlett, Berto Romero


O furdunço em que se transformou a rede depois da divulgação das fotos de Scarlett Johansson é o acontecimento da semana. Despubliquei a foto em que aparece a generosa bunda da atriz por, sinceramente, temer por meu patrimônio caso algum causídico estadunidense venha pedir indenização para a pobre gostosona.
Para meus raros seguidores não ficarem na mão (epa), a autofoto de um substituto: o humorista catalão Berto Romero.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Manito subiu

Manito foi, de longe, o melhor músico da Jovem Guarda. Nos Incríveis, era show de bola. Fundou o Som Nosso de Cada Dia, um trio bem adiantadinho para a época (já tive o LP deles).
Chamava-se Antonio Rosa Sanchez e era nascido na Galícia, Espanha. Talvez um parente distante. Minha família é de Galícia e tem Sanchez.
Morte gloriosa a Manito.
Aqui ele toca com Raul de Souza, ex-trombonista da banda da Base Aérea do Bacacheri.
Espero que Manito receba as merecidas homenagens.
A minha, humílima, segue aqui.

"El fin de los paseadores de perros"

Dirceu Martins Pio (publicado originalmente no Observatório da Imprensa).
A educação de qualidade –e só ela – vai conseguir sustentar o desenvolvimento do Brasil ao longo do tempo. Se tomarmos a premissa como verdadeira, descobriremos o quão graves são as informações divulgadas pela imprensa neste 26 de agosto: metade das crianças brasileiras que concluíram o 3º ano (antiga segunda série) em escolas públicas e privadas nas capitais brasileiras não aprendeu os conteúdos esperados para esse nível de ensino, ou seja, estão a caminho de serem transformadas em “analfabetos funcionais”, segundo resultados da prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização).
Mais grave que isso: a mídia dedicou ao assunto uma cobertura de rotina, pontual, burocrática, como se não entendesse a importância do assunto que divulgou. Está mais do que na hora de a mídia incentivar o debate, iluminar o assunto em toda a sua profundidade, para assim talvez produzir uma espécie de mutirão nacional pela qualidade do ensino fundamental, tal como aconteceu na iniciativa dos empresários com o seu “Todos pela Educação”. A baixa qualidade da educação deveria ser a nossa prioridade número um. É a grande emergência brasileira.
Minha sugestão é que editores e repórteres brasileiros fizessem uma visita a Buenos Aires na condição de meros turistas. Chegariam à conclusão, em poucos dias, que, se nada for feito para melhorar a qualidade do ensino brasileiro, seremos novamente a Argentina amanhã.
A deletéria reforma do ensino
O país de Cristina Kirchner, pelo que se vê através de sua maior cidade (4 milhões de habitantes num conglomerado metropolitano que beira os 12 milhões), está sem forças para vencer a crise que o assola há tantos anos e que o faz depender cada vez mais de seu único sustentáculo: o agronegócio. Em recente entrevista ao La Nación, o Nobel de economia Joseph Eugene Stiglitz, admirado pelos kirchenistas, apontou as causas dessas dificuldades: “O turismo cresce, há algum crescimento do setor tecnológico, mas não há suficiente diversificação da economia possivelmente porque a qualidade do sistema educativo em seu conjunto não é tão boa.”
Na frente do famoso La Biela, bar e restaurante do bairro La Recoleta, a professora aposentada Nádia Bernaz, com 76 anos, fala alto, para quem quiser ouvir: “O governo destruiu o ensino argentino por razões políticas. Eu era reitora de um grande colégio público de Buenos Aires quando vieram as mudanças, pensadas para que as escolas deixassem de produzir cérebros tão críticos em relação às mazelas da política.”
Bem informado sobre as questões da política Argentina, o jornalista Ricardo Sarmiento não apenas confirma o que diz a professora Nádia Albernaz como mostra que houve conivência da mídia argentina com a deletéria reforma do ensino introduzida pelo governo de Raul Alfonsín (1983/1989): “Como foi o primeiro governo democrático depois do regime militar, a mídia foi complacente com ele, de medo que houvesse retrocesso e os militares retornassem ao poder.”
Comércio popular
Os militares, que haviam abatido com suprema violência quase uma geração inteira de professores, cientistas, pesquisadores e intelectuais, não retornaram, mas os civis nada fizeram para recuperar o antigo modelo educacional do país, que já foi considerado o melhor da América Latina. Em seu primeiro mandato, Cristina Kirchner elevou os investimentos em educação dos tradicionais 1,5 a 2% do PIB para 6%, mas economistas e empresários ponderam que o acréscimo ainda não é suficiente para corrigir os erros do passado. Os sinais das dificuldades que a Argentina enfrenta para safar-se da crise estão por toda a parte de uma Buenos Aires hoje envelhecida (a professora Nádia Bernaz diz que a média da população aproxima-se de 45 anos de idade), onde se enxergam poucos jovens e quase nenhuma criança. “Não há como ter filhos neste país, pois será muito difícil sustentá-los”, diz Nádia Bernaz, que se queixa de que seus netos – todos eles, num total de seis – estudam mandarim e pretendem emigrar em busca de trabalho ou de melhor formação profissional.
Uma profusão de placas de “vende-se” ou “aluga-se” enfeita quase todos os prédios residenciais de bairros como San Telmo, Palermo, Retiro, Mataderos. Há edifícios que têm de duas ou três placas em cada andar.
Os turistas – brasileiros, em maior número – chegam aos milhares nos dois aeroportos, mas a cidade mostra-se desajeitada no modo de tratá-los e às vezes demonstra não ter interesse neles. Nos roteiros de compras – o que reflete a paralisia da indústria, incapaz de se diversificar – as mercadorias à venda se repetem à exaustão – artigos de couro, uma moda que dá sinais de cansaço, vinhos, queijos. E é só. A impressão que dá é que todo o comércio de Buenos Aires está em liquidação. Muitas lojas, contudo, apenas simulam um rebaixamento de preços, algo ilusório para o turista brasileiro, que só raramente consegue tirar proveito do valor de sua moeda, trocada a pesos (câmbio de agosto) à base de 2,5 por um.
As ruas da pequena Tigre – espécie de estância turística da região metropolitana onde as atrações são um cassino e uma feira de artesanato – ficam coalhadas de lixo nos fins de semana e feriados prolongados. Pergunto a um comerciante do lugar se não seria o caso de a comunidade mobilizar-se para limpar a cidade, mas a resposta demonstra uma atitude que parece comum em toda a região metropolitana: “A limpeza é obrigação da prefeitura, mas eles, os políticos, só sabem roubar o nosso dinheiro.” Os garis não dão conta de limpar tanto lixo jogado nas calçadas e nas ruas. E há recepcionistas de hotéis que recomendam aos hóspedes atirar tocos de cigarro e embalagens de plástico diretamente nas calçadas.
O glamour da Calle Florida parece viver seu estertor: com as “liquidações”, a rua tem sido invadida por turistas brasileiros, paraguaios, peruanos e chilenos, que a transformaram numa espécie de 25 de Março, rua de comércio popular de São Paulo. Os “puxadores” do comércio quase arrastam os transeuntes para dentro das lojas, onde há muita pechincha e pouquíssimas vendas.
População contaminada pela desesperança
Ônibus e trens carregam indícios da severidade da crise: levam placas que informam sobre os subsídios do governo ao transporte coletivo ou de protestos contra a entrada no setor de outras empresas concorrentes. Os trens suburbanos estão quase sucateados. As margens dos trilhos foram transformadas em depósito de lixo e algumas estações viraram abrigos para os indigentes que se multiplicam por toda a cidade. O melhor da viagem é, sem dúvida, a gastronomia, cujos restaurantes preservaram a qualidade de lomitos e bifes de chorizo a preços muito favoráveis aos visitantes brasileiros.
O mais eloquente sintoma da crise é sutil e só vai ser percebido pelas pessoas que estiveram em Buenos Aires 15 ou 20 anos atrás, num momento em que a economia do país vivia momentos bem mais favoráveis: trata-se da ausência, nas belas e extensas praças da cidade, dos paseadores de perros, jovens de ambos os sexos que levavam para passear os cães das famílias abastadas. Cobravam diária de até US$ 100 por animal e conduziam de 10 a 12 cães cada um. Esses personagens estão desaparecidos. Se continuam a existir, levam no máximo dois animais cada um. O que mais se vê em Buenos Aires são hoje homens e mulheres, geralmente de idade avançada, a levar seus cãezinhos para passeio. Na diária paga aos paseadores estava incluída a obrigação de recolher a sujeira que os cães produzem pelos longos passeios. O fim dos paseadores deve explicar a imundície que hoje toma conta do calçamento de ruas e praças dos bairros mais sofisticados de Buenos Aires.
O mais dramático é que a campanha eleitoral (a Argentina elegerá seu novo presidente em outubro e, ao que tudo indica, Cristina Kirchner será reeleita) está longe de empolgar a população da capital do país, contaminada pela desesperança. Pergunto a Nádia Bernaz em quem votará em outubro e sua resposta parece sintetizar o ânimo da maioria portenha: En cualquier uno, menos a Cristina.
Os jornais se preocupam menos com a campanha política e mais com as possíveis consequências para o país da crise internacional. Se continuar a investir em educação em seu provável segundo mandato, é possível que Cristina Kirchner resgate a qualidade do ensino público e assim deixe o país mais preparado para enfrentar os embates do futuro. Até agora, sua maior conquista foi estancar a evasão do ensino fundamental, um problema que no Brasil ainda é bastante grave. O problema que se coloca no momento é se haverá tempo de a Argentina colher os frutos da semeadura realizada com muito atraso.
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[Dirceu Martins Pio é ex-diretor da Agência Estado e da Gazeta Mercantil]