Francisco Silva Filho*
Hoje eu comecei o meu dia participando do Programa do Nildo Freitas na Brasil FM, ocasião em que eu aproveitei para no dia mundial do abraço que se comemora nesta sexta feira (22), abraçar todos os meus amigos e, em especial, os que comigo compartilham das mesmas idéias. O Anderson, Edmundo Vieira, Ezequiel Sena, Paulo Nunes, Paulo Pires hoje, são as pessoas que fecham esse círculo dessa sinergia.O Gilberto Gil, no início da década de 70 dava ao povo brasileiro o seu imenso e carinhoso abraço. O abraço é a forma mais simples de nos expressarmos e demonstramos a nossa afetividade para com os nossos mais próximos. Nos países nórdicos, o abraço gratuito não é bem aceito, nesses países, o abraço só é bem recebido se vier de quem se conhece. Na Índia, cito esse país não pelo que eu passo a conhecer pelo folhetim que a Globo exibe em seu horário das 21h00m, mas, pelo que eu tenho lido. Os indianos não aceitam abraços, eles, pelos seus preceitos religiosos, evitam qualquer contato físico; o abraço que hoje dia 22 de maio se comemora mundialmente, não é tão mundial assim.No Brasil, acredito, - eu não fiz qualquer pesquisa para enriquecer esse meu artigo – que aqui seja o paraíso dos que adoram abraçar. Os nossos políticos profissionais têm no abraço o seu mais forte aliado na conquista dos seus incautos eleitores. Esses senhores têm técnica especial na arte do abraçar; abraçou, conquistou! A conquista, principalmente acontece entre as classes mais humildes da nossa sofrida e carente população.O abraço tem na sua concepção um magnetismo todo especial; sobre esse ato de fraternidade há até técnicas especiais oriundas dos ocidentais, as quais, não querendo roubar propriedade intelectual de ninguém, até por que, onde eu encontrei, não faz qualquer menção ao autor, aparece simplesmente ‘mensagens e poemas’ dessa forma eu reproduzo ipsis literis extraído do seguinte endereço: http://mensagensepoemas.uol.com.br/abraco/22-de-maio-dia-do-abraço.tml “Dizem os orientais que, quando abraçarmos uma pessoa querida a quem amamos, devemos fazer da seguinte forma: inspirando e expirando três vezes, e aí sua felicidade se multiplicará pelo menos dez vezes. O efeito terapêutico do abraço é inegável. Diante disso não podemos esperar para abraçarmos a quem queremos bem. Se você estiver sentindo um vazio interior, tente abraçar o seu amigo (a), deslizando delicadamente a mão sobre as costas dele (a), para que o possa sentir junto a você. Nos Momentos de dor e de alegria é que vemos o bem que um grande e demorado abraço nos causa.Pelo abraço, transmitimos emoções, recebemos carinho, trocamos afeto, compartilhamos alegria, amenizamos dores, demonstramos amizade, doamos amor, expressamos nossa humanidade. É tempo de enlaçarmos nossos braços num terno, profundo e afetuoso abraço.Neste dia, aproveito um pouco da técnica oriental para abraçar a todos os nossos leitores, amigos, simpatizantes ou não da nossa causa, e, principalmente aos nossos políticos, para que eles sintam a nossa sinergia, a beleza e a pureza do abraço sem qualquer interesse escuso no nosso gesto! Pra todos: AQUELE ABRAÇO!
Francisco Silva Filho, baiano de Vitória da Conquista, é advogado e vive em Curitiba
sábado, 23 de maio de 2009
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Uma crônica de Francisco*
O ano era de 1.993, nas ruas de Conquista fervilhavam milhares de pessoas pobres oriundas dos mais diversos cantos desta Bahia bem como, de outros estados do nordeste em busca de trabalho temporário na colheita do café. Eram comuns as cenas de pessoas sentadas nas calçadas com crianças de colo e, com a mão estendida pedindo uma esmola a qualquer um cristão que passasse, por exemplo, na calçada da COFET da esquina da Monsenhor Olímpio com o Beco de acesso à Avenida Lauro de Freitas; era uma cena na paisagem conquistense que a cada dia se tornava mais comum, como, igualmente comum eram os pedintes que não nos davam folga em nossas residências, era uma calamidade pública. E pensar, que os que eram responsáveis por essa tragédia no país, hoje são mortalmente contra o atual governo por promover uma distribuição de renda para os mais pobres...Certa manhã do mês de julho, daquele mesmo ano, ao me levantar e após as minhas abluções, percebi que à minha mesa faltavam o vinho, o queijo assim como, o indispensável salame tão necessários ao meu desjejum. Então resolvi sair e dirigir-me a um supermercado nas proximidades da minha residência e comprar um bom vinho assim como, os necessários acompanhamentos. O vinho que à época eu consumia, assim como os colegas do CESEC, provinha da Alemanha e Itália, era importado por uma iniciativa do colega Dário Ciacci (in memorian), que, comprado em grande quantidade barateavam os custos e, por essa razão, todos nós que fazíamos parte “desse clube do vinho” éramos beneficiados com uma aquisição em conta.Ao chegar ao supermercado – aqui não declinarei o nome – percebi uma movimentação estranha para aquela manhã tão fria daquele mês de julho. Tratava-se de um caso de furto. Para registro das devidas ocorrências, ali já se encontrava uma viatura da Polícia Militar, que fora acionada pelo proprietário do supermercado. Ao terceiro sargento que ali se fazia presente junto com outros dois colegas, eu perguntei, pronunciando o seu nome – tratava-se de um colega de infância, que também havia sido meu colega no Tiro de Guerra, sendo inclusive soldado (atirador) no meu pelotão (eu era Cabo) – o que houve? Que movimentação é essa? Ela me respondeu: aquele ladrão estava roubando o supermercado e fomos acionados para que seja efetuada a prisão. Cadê o ladrão? Perguntei. Está ali, veja lá!É, realmente, lá estava num canto do supermercado tremendo como um ratinho, acuado em um canto pelo malvado gato “Mefistófeles”. Ali estava o “Facínora”. Eu não pude compreender se o pobre e desgraçado tremia tanto, se era por causa do frio que ainda fazia apesar de já ser por volta de 09h10m, ou se era por causa dos olhares inquisidores dos curiosos tanto mais que dos policiais que ali se encontravam e, ainda esperavam por reforços (pasmem). Perguntei ainda ao sargento meu amigo: o que foi que ele roubou? Veja ali em cima do balcão, me respondeu. Dirigi-me ao balcão. Em cima do mesmo estavam: uma chuquinha; um bico (consolo); um pacotinho de fraldas; um saco de leite em pó; um engrossante do tipo arrozina, uma pequena caçarola... E, acho que era só.Voltei ao amigo e sargento e comentei – neste momento, acabara de chegar o reforço (eram mais duas viaturas) – por que vai prender o carinha, se já foram recuperadas as mercadorias? – Ah! O dono do supermercado disse que ele está entrando e saindo deste local desde as dez para as oito (07h50m), e que provavelmente deve ter mais coisas além destas. Ora, amigo! Você acredita nisso? Eu sinceramente não acredito que sejam mais mercadorias além destas aí em cima do balcão. Nisso, os valentosos do reforço foram segurando o desvalido com uma chave de braço. O sargento meu amigo, olhou-me com um olhar traduzindo-se em pedido de clemência. Gritei: Alto lá, amigos! Deixe o infeliz! Eu pagarei a conta dele. Não vêem que se trata de um crime de menor potencial ofensivo, e que, pode ser considerado famélico? Aí, o sargento encaminhou-se até os valorosos e valentosos colegas, confabularam um pouco e voltaram até a minha pessoa e disseram: tudo bem, mas, o que acontecer depois com um ladrão desses à solta por aí será de sua responsabilidade. Voltaram-se para o dono do supermercado e perguntaram se ele estava satisfeito com o desfecho. Ele meio que desapontado disse que sim. Acredito que ele na verdade queria que fosse dado o tratamento ao desvalido tal como no livro de Victor Hugo “Os Miseráveis” onde Jean Valjean acabou passando dezenove anos na prisão por ter roubado um pão para matar a sua fome.Quando entrava na viatura o meu amigo me chamou, eu fui até ele, e esse me disse: Chico, eu divido com você no que der as despesas. Eu respondi com uma ponta de emoção: amigo, só em você declinar esta sua vontade, considere-se paga por você toda a conta. Não precisa, deixe para outra oportunidade em que eu não possa estar presente, adeus!Voltei ao supermercado, chamei o “Facínora”, digo: o desafortunado e o convidei a entrar para que pudesse dessa forma comprar o que precisava. Eu posso? Respondi que sim. Fizemos uma compra basicamente para atender às necessidades de um recém nascido.Saímos dali, e, embaixo do viaduto estavam todos os que compunham aquela família. Comigo, também foram duas senhoras que se solidarizaram com o meu ato, e puderam também ajudar levando roupas para todos, sem contudo, desviarem-se do foco: o recém nascido. Foram levadas roupinhas de pagão, e para as idades que se seguiriam a partir daí.Chegando a minha casa dei um telefonema para Cezarina (Czarina é assistente social), contei-lhe o ocorrido, e esta socorreu com uma ajuda preciosa: conseguiu um lugar em um abrigo para pobres no Alto da Rua das Pedrinhas, onde, para lá foram os nossos bóias-frias que não conseguiram um só dia de colheita de café. E, para experimentar da hospitalidade conquistense tiveram que passar por uma manhã de cão. A nossa cidade alardeia que recebe bem os que chegam. Será? Com certeza, dão testemunhos dessa hospitalidade aqueles que pouco ou nada precisam dos conquistenses. A vida do chegante ficará melhor em Conquista se na bagagem trouxer pedigree, dinheiro e títulos! Não se demorará a ser agraciado com um honroso “título de cidadão conquistense”. Ah! E o vinho e os seus acompanhamentos, para o meu desjejum? Bom, no meu manual de connaisseur, esta mistura que aquela manhã acabara de me propor, ficaria intragável o meu fino vinho. Como diz o meu amigo Paulo Pires: fica para a próxima, e até a próxima!
Francisco Silva Filho, baiano de Vitória da Conquista, é advogado e vive em Curitiba.
Francisco Silva Filho, baiano de Vitória da Conquista, é advogado e vive em Curitiba.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
O homem do gugou tem razão
Da Associated Press
Filadélfia (EUA) - O diretor da ferramenta de buscas mais popular do mundo falou a universitários dos Estados Unidos nesta segunda-feira (18), e os incentivou para que saiam do mundo virtual e façam conexões humanas.Em palestra na Universidade da Pensilvânia, o diretor-executivo do Google, Eric Schmidt, disse para cerca de 6.000 graduados que eles precisam descobrir o que é mais importante para eles --e, para isso, que vivam "analogicamente" por alguns momentos.
"Desligue seu computador. Você realmente vai ter que desligar e descobrir tudo o que é humano em torno de nós", disse Schmidt. "Nada é melhor do que segurar a mão de seu neto enquanto ele caminha seus primeiros passos."
No discurso de ontem, ele lembrou que a escola Ivy League (grupo de universidades do nordeste dos EUA, do qual a Universidade da Pensilvânia faz parte) desempenhou um papel fundamental na indústria tecnológica, criando Eniac, um dos primeiros computadores eletrônicos do mundo, em 1946.
"Literalmente tudo que você vê --cada computador, cada telefone celular, cada dispositivo-- descende dos princípios que foram inventados aqui", observou Schmidt.
Schmidt, que tem um doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, também recebeu um grau honorário de doutor da ciência na cerimônia.
Amy Gutmann, reitora da Universidade da Pensilvânia, justificou o prêmio dado a Schmidt devido a "múltiplas contribuições para colocar o mundo ao alcance da humanidade".
"Você tem dedicado a sua carreira a uma nova era de aprendizado, habilitada pela tecnologia", disse Gutmann.
É o segundo grau honorário que Schmidt recebe em poucos dias: no domingo, ele obteve congratulação semelhante na Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, onde fez um discurso similar ao da Universidade da Pensilvânia.
Previsões
Nos próximos 10 anos, segundo ele, a tecnologia vai avançar para um ponto no qual será possível ter 85 anos de vídeo em um valor equivalente ao do iPod.
A classe de 2009 se graduará em uma difícil conjuntura econômica, mas a crise pode ser um momento de inovação, disse Schmidt. Ele observou que produtos de consumo famosos foram feitos durante a Grande Depressão, a partir de 1929.
Divertidamente, ele comparou a geração atual do "Google e Facebook" com a sua: celulares contra cabines telefônicas, Nintendo Wii contra Pong (um dos primeiros jogos de computador), blogs contra jornais, Red Bull contra Tang.
Ele disse que os membros da sua geração gastavam todo seu tempo tentando esconder os momentos mais embaraçosos. "Hoje, a geração tem registros de todos os momentos e lugares no YouTube", disse, fazendo a plateia rir.
"Estou ansioso para os próximos 30 ou 40 anos", afirmou.
Filadélfia (EUA) - O diretor da ferramenta de buscas mais popular do mundo falou a universitários dos Estados Unidos nesta segunda-feira (18), e os incentivou para que saiam do mundo virtual e façam conexões humanas.Em palestra na Universidade da Pensilvânia, o diretor-executivo do Google, Eric Schmidt, disse para cerca de 6.000 graduados que eles precisam descobrir o que é mais importante para eles --e, para isso, que vivam "analogicamente" por alguns momentos.
"Desligue seu computador. Você realmente vai ter que desligar e descobrir tudo o que é humano em torno de nós", disse Schmidt. "Nada é melhor do que segurar a mão de seu neto enquanto ele caminha seus primeiros passos."
No discurso de ontem, ele lembrou que a escola Ivy League (grupo de universidades do nordeste dos EUA, do qual a Universidade da Pensilvânia faz parte) desempenhou um papel fundamental na indústria tecnológica, criando Eniac, um dos primeiros computadores eletrônicos do mundo, em 1946.
"Literalmente tudo que você vê --cada computador, cada telefone celular, cada dispositivo-- descende dos princípios que foram inventados aqui", observou Schmidt.
Schmidt, que tem um doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley, também recebeu um grau honorário de doutor da ciência na cerimônia.
Amy Gutmann, reitora da Universidade da Pensilvânia, justificou o prêmio dado a Schmidt devido a "múltiplas contribuições para colocar o mundo ao alcance da humanidade".
"Você tem dedicado a sua carreira a uma nova era de aprendizado, habilitada pela tecnologia", disse Gutmann.
É o segundo grau honorário que Schmidt recebe em poucos dias: no domingo, ele obteve congratulação semelhante na Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, onde fez um discurso similar ao da Universidade da Pensilvânia.
Previsões
Nos próximos 10 anos, segundo ele, a tecnologia vai avançar para um ponto no qual será possível ter 85 anos de vídeo em um valor equivalente ao do iPod.
A classe de 2009 se graduará em uma difícil conjuntura econômica, mas a crise pode ser um momento de inovação, disse Schmidt. Ele observou que produtos de consumo famosos foram feitos durante a Grande Depressão, a partir de 1929.
Divertidamente, ele comparou a geração atual do "Google e Facebook" com a sua: celulares contra cabines telefônicas, Nintendo Wii contra Pong (um dos primeiros jogos de computador), blogs contra jornais, Red Bull contra Tang.
Ele disse que os membros da sua geração gastavam todo seu tempo tentando esconder os momentos mais embaraçosos. "Hoje, a geração tem registros de todos os momentos e lugares no YouTube", disse, fazendo a plateia rir.
"Estou ansioso para os próximos 30 ou 40 anos", afirmou.
sábado, 16 de maio de 2009
Boy Voador Não Pode
Plagiado de Chico Buarque
Quem foi, quem foi, que falou do boy voador
Manda prender esse boy
Seja esse boy o que for
Quem foi, quem foi que falou do boy voador
Manda prender esse boy,
Seja esse boy o que for
O boy ainda dá bode
Qual é a do boy que revoa
Boy realmente não pode voar à toa
É fora, é fora, é fora
É fora da lei, é fora do ar
É fora, é fora, é fora
Segura esse boy
É proibido voar
É fora, é fora, é fora, é fora da lei, é fora do ar
É fora, é fora, é fora
Segura esse boy
É proibido voar
Quem foi, quem foi, que falou do boy voador
Manda prender esse boy
Seja esse boy o que for
Quem foi, quem foi que falou do boy voador
Manda prender esse boy,
Seja esse boy o que for
O boy ainda dá bode
Qual é a do boy que revoa
Boy realmente não pode voar à toa
É fora, é fora, é fora
É fora da lei, é fora do ar
É fora, é fora, é fora
Segura esse boy
É proibido voar
É fora, é fora, é fora, é fora da lei, é fora do ar
É fora, é fora, é fora
Segura esse boy
É proibido voar
sexta-feira, 15 de maio de 2009
O celular do Ivan Lessa*
Passei anos me irritando com esses celulares carregando pessoas ao lado como pingentes.
Debochei, me irritei, lancei olhares malignos. Talvez porque gente falando sozinha na rua ou em condução me lembrasse os loucos de minha infância, que eu tanto temia e dos quais contavam histórias terríveis. Em suma, impliquei horrendamente com a nova tecnologia. Continuo implicando. Horrendamente.
Com uma diferença. Agora tenho um celular. Implico, pois, de cátedra, ou de meu sofá de couro, de onde posso dirigir meus maus pensamentos a todos que celularizam. Munido desta vez de algum conhecimento de causa.
A rigor, sem nenhum conhecimento de causa. Ganhei o celular, sorri agradecido, abri a caixinha, ouvi com atenção as primeiras explicações básicas, segurei o bruto nas mãos (não foi desagradável), folheei o livrinho de instruções. Nada entendi.
Admirei no entanto, sou forçado a admitir, o design do pequeno aparelho. Pequeno? Pequeno. Mais ou menos do mesmo tamanho de um valete de paus e a espessura das 13 cartas de um naipe.
Garantiram-me, pessoas e manual, que eu poderia entrar na net, googlar, enviar e-mails, tirar fotos e gravar vídeos. Formidável. Em tese. Definitivamente, não era esse o meu objeto de desejo. Sou mais um zimmer frame, um andador para idosos de alumínio cromado.
O fato de eu agora ser dono de um moderníssimo (é o que me dizem) celular não significa que eu tenho aderido à nova tecnologia. Já tem mais de uma semana e, até agora, liguei-o uma vez e, sim, iluminou-se como uma árvore de Natal. Por aí ficamos.
Ele dentro de seu preservativo me olhando, eu de calça e camisa esporte olhando-o. Há mais que desconfiança aí. Trata-se de um ódio calado. Que calado continuará, pois não se pode nem se deve desfazer de presente dado com as melhores das intenções.
Continuo sem ter ninguém para textar, ou torpedear, se é esse o verbo empregado no jargão celular. Ou para conversar. Nada é muito urgente em minha vida. Toda urgência passou. Acabou. Cada solidão é resolvida à maneira de cada um. Eu resolvi a minha sem celulares. Frisando sempre que não me é útil para o trabalho. Acrescentando que não sou corretor de nada muito menos vendedor de crack.
Será levado adiante o respeito mútuo, a letal desconfiança entre nós dois, dentro das tradições do faroeste, onde mocinho e bandido, ou bandido e bandido, ficavam apenas se espreitando, à espera da hora de mandar uma azeitona na testa do outro.
E azeitona na testa me leva ao bom Hugo Chávez que lançou nesta semana na Venezuela um celular ao alcance de todos os pobres coitados de seu país pelo mais que módico preço de 15 dólares. Não tivessem os pobres venezuelanos problemas suficientes.
Sim, o danado (refiro-me ao celular) faz tudo. Tem câmera e vídeo, acesso WAP à internet, rádio FM, MP3, MP4, MR8 e outros grupos de revolucionários armados. O interessante é o nome que o grande Chávez deu ao fruto de seu presidencial esforço virtual: batizou o bichão de "vergatório" (de verga, vara), que, em baixo calão venezuelano, refere-se, claro, ao membro masculino.
Meu celular já o batizei: na intimidade do lar chamo-o de Marzapo. E estamos desconversados.
*Ivan Lessa é jornalista, filho do escritor Orígenes Lessa (O feijão e o sonho, etc.) e da jornalista Elsie Lessa. Criou, no Pasquim, a seção de cartas, a seção gip-gip nheco, nheco e outras mumunhas. Vive em Londres desde os tempos do auto-exílio, anos 70, ditadura braba. Teve coluna na Folha, Estadão e Veja. Trabalha (ou já se aposentou) no serviço brasileiro da BBC. O texto acima é de sua coluna no site www.bbcbrasil.com.br É autor do livro Garotos da Fuzarca, hilária coleção de crônicas e, se não me engano, aforismos (vou ver se acho o livro). Se alguém perguntar ao Ivan sobre o celular, ele é capaz de responder, faunamente: "Marzapo é o cacete."
Debochei, me irritei, lancei olhares malignos. Talvez porque gente falando sozinha na rua ou em condução me lembrasse os loucos de minha infância, que eu tanto temia e dos quais contavam histórias terríveis. Em suma, impliquei horrendamente com a nova tecnologia. Continuo implicando. Horrendamente.
Com uma diferença. Agora tenho um celular. Implico, pois, de cátedra, ou de meu sofá de couro, de onde posso dirigir meus maus pensamentos a todos que celularizam. Munido desta vez de algum conhecimento de causa.
A rigor, sem nenhum conhecimento de causa. Ganhei o celular, sorri agradecido, abri a caixinha, ouvi com atenção as primeiras explicações básicas, segurei o bruto nas mãos (não foi desagradável), folheei o livrinho de instruções. Nada entendi.
Admirei no entanto, sou forçado a admitir, o design do pequeno aparelho. Pequeno? Pequeno. Mais ou menos do mesmo tamanho de um valete de paus e a espessura das 13 cartas de um naipe.
Garantiram-me, pessoas e manual, que eu poderia entrar na net, googlar, enviar e-mails, tirar fotos e gravar vídeos. Formidável. Em tese. Definitivamente, não era esse o meu objeto de desejo. Sou mais um zimmer frame, um andador para idosos de alumínio cromado.
O fato de eu agora ser dono de um moderníssimo (é o que me dizem) celular não significa que eu tenho aderido à nova tecnologia. Já tem mais de uma semana e, até agora, liguei-o uma vez e, sim, iluminou-se como uma árvore de Natal. Por aí ficamos.
Ele dentro de seu preservativo me olhando, eu de calça e camisa esporte olhando-o. Há mais que desconfiança aí. Trata-se de um ódio calado. Que calado continuará, pois não se pode nem se deve desfazer de presente dado com as melhores das intenções.
Continuo sem ter ninguém para textar, ou torpedear, se é esse o verbo empregado no jargão celular. Ou para conversar. Nada é muito urgente em minha vida. Toda urgência passou. Acabou. Cada solidão é resolvida à maneira de cada um. Eu resolvi a minha sem celulares. Frisando sempre que não me é útil para o trabalho. Acrescentando que não sou corretor de nada muito menos vendedor de crack.
Será levado adiante o respeito mútuo, a letal desconfiança entre nós dois, dentro das tradições do faroeste, onde mocinho e bandido, ou bandido e bandido, ficavam apenas se espreitando, à espera da hora de mandar uma azeitona na testa do outro.
E azeitona na testa me leva ao bom Hugo Chávez que lançou nesta semana na Venezuela um celular ao alcance de todos os pobres coitados de seu país pelo mais que módico preço de 15 dólares. Não tivessem os pobres venezuelanos problemas suficientes.
Sim, o danado (refiro-me ao celular) faz tudo. Tem câmera e vídeo, acesso WAP à internet, rádio FM, MP3, MP4, MR8 e outros grupos de revolucionários armados. O interessante é o nome que o grande Chávez deu ao fruto de seu presidencial esforço virtual: batizou o bichão de "vergatório" (de verga, vara), que, em baixo calão venezuelano, refere-se, claro, ao membro masculino.
Meu celular já o batizei: na intimidade do lar chamo-o de Marzapo. E estamos desconversados.
*Ivan Lessa é jornalista, filho do escritor Orígenes Lessa (O feijão e o sonho, etc.) e da jornalista Elsie Lessa. Criou, no Pasquim, a seção de cartas, a seção gip-gip nheco, nheco e outras mumunhas. Vive em Londres desde os tempos do auto-exílio, anos 70, ditadura braba. Teve coluna na Folha, Estadão e Veja. Trabalha (ou já se aposentou) no serviço brasileiro da BBC. O texto acima é de sua coluna no site www.bbcbrasil.com.br É autor do livro Garotos da Fuzarca, hilária coleção de crônicas e, se não me engano, aforismos (vou ver se acho o livro). Se alguém perguntar ao Ivan sobre o celular, ele é capaz de responder, faunamente: "Marzapo é o cacete."
domingo, 10 de maio de 2009
Janio de Freitas, na Folha deste domingo
Lembrança
Vejo o anúncio de um filme, "Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei", e parece que faltou uma palavra: "Simonal - Ninguém Sabe o Dedo-Duro que Dei".
Vejo o anúncio de um filme, "Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei", e parece que faltou uma palavra: "Simonal - Ninguém Sabe o Dedo-Duro que Dei".
sábado, 9 de maio de 2009
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