sábado, 7 de agosto de 2010

Adoniran Barbosa - 100 anos


Retrato por Elifas Andreato

O príncipe - uma leitura (antes foi a virtù; agora, a fortuna)

“Acredito poder ser verdadeiro o fato de que a fortuna arbitre metade de nossas ações, mas que, mesmo assim, ela nos permita governar a outra metade quase inteira (pelo livre-arbítrio).”
A fortuna proporciona a ocasião. Pela destreza do uso da virtù, o príncipe sempre estará com a boa fortuna. A virtù é seu instrumento para dominá-la. A fortuna mostra seu poder a quem não se preparou para enfrentá-la. Maquiavel inicialmente a compara a um rio impetuoso, que transborda, inunda as planícies, arranca árvores, erode a terra, destrói edificações. Contudo, por mais temível que seja o rio, o homem pode enfrentá-lo, domando-o com diques e outras obras para que não saia de seu canal. O príncipe que está preparado coloca obstáculos ao rio e o domina. Maquiavel compara também a fortuna à mulher. Convém ao príncipe – recomenda o autor – que até se mostre impetuoso diante da fortuna. Afinal, ela “é mulher” e está sempre pronta a ceder aos que empregam violência e a tratam com rudeza. A fortuna cede mais aos arrebatados e autoritários que aos homens mais maduros, retos, respeitosos. O príncipe que assim age, aquele que sabe conservar o que a fortuna lhe presenteou, está equipado a manter o poder.

Maquiavel: a ética do político

Renato Janine Ribeiro, em O Estado de S. Paulo
Em milênios de filosofia, só dois filósofos quebraram as fronteiras da academia para que seus nomes gerassem adjetivos conhecidos de todos, até de quem não sabe quem eles foram: Platão e Maquiavel. Todos ouvimos falar em amor platônico ou em pessoas maquiavélicas. Não interessa que os especialistas se irritem porque Maquiavel não foi maquiavélico; o fato é que ele, como Platão, deixou uma marca no imaginário social.

O Príncipe, que em breve completará 500 anos, tem características notáveis. Primeira: é livro facílimo de ler. Segunda: apesar disso, não há acordo sobre o que quer dizer. Lemos com facilidade e não temos certeza do que ele pretende. Talvez porque, terceira característica, parece contradizer o resto da vida e obra do autor. Maquiavel foi um dos chefes da República de Florença, passou anos escrevendo uma grande obra republicana - os Discursos - mas somente se tornou um dos maiores pensadores da história devido a um livro curto que redigiu em poucas semanas, banido da cidade, com o fim de agradar aos novos senhores de uma Florença monárquica. Por isso nos perguntamos o que é O Príncipe: é um livro de apologia à monarquia ou uma sátira cáustica? Sustenta que os fins justificam os meios ou mostra a essência da política? Contradiz o político e pensador republicano ou nutre, com ele, uma secreta harmonia?

Vamos às questões principais do Príncipe. Concentro-me em duas. A primeira é a convicção de Maquiavel, segundo a qual metade - por assim dizer - do que nos sucede depende da fortuna. "Fortuna" inclui aqui o infortúnio - a sorte, o acaso, em suma, o que não está em nossas mãos. O máximo que conseguiremos, com muito empenho, será controlar a outra metade. Para isso, teremos de mostrar valor, que ele chama virtù. Usamos a palavra italiana, que significa "virtude", justamente porque é o contrário do que costumamos chamar de virtude. Sua virtù nada tem de moral. Aqui começa o problema. Enquanto estávamos só na estatística, no fifty-fifty fortuna vs. ação planejada e deliberada, tudo bem. Mas quando Maquiavel diz que, para reduzir o quinhão da fortuna, o homem tem de ser um autêntico "vir" (a palavra latina para varão, macho), ele conclui que não poderá seguir a moral cristã.

Passemos à segunda questão. Muitos, diz o autor, trataram de Estados ideais e reis justos, mas tais entes não existem ou não subsistem. Para tratar de "coisas que prestem", falará dos Estados reais e de como funcionam. Seu capítulo 15 é citado como a certidão de nascimento da ciência política: em vez de discutir como as coisas deveriam ser, pensar como realmente são. Não é fortuito que seja Fernando Henrique Cardoso - cientista político, que por coincidência já foi chamado de príncipe da nossa sociologia - quem redija o prefácio, ao qual se segue uma introdução de Antony Grafton, que tem por única falha, a meu ver, ignorar a ótima bibliografia que não foi escrita em inglês: Max Weber, Merleau-Ponty, Claude Lefort e, dos brasileiros, Newton Bignotto. De toda forma, essa tradução fluente há de concorrer com a edição, muito bem cuidada, que temos do Príncipe pela editora Martins Fontes.

Para o leitor, não haveria problema em Maquiavel afirmar que muito de nossa vida escapa a nosso controle, nem que pretenda fazer ciência e não moral. O começo de cada uma de suas duas teses é tranquilo. O que choca são as consequências. Primeira: como controlar o máximo possível de nossa vida política? Será que "os fins justificam os meios"? Consultei o Google: só em português, essa expressão aparece 16.500 vezes junto a seu nome. O curioso é que Maquiavel nunca disse isso.

Daí a segunda consequência: ele teria aconselhado os príncipes a mentir, fazer o mal, faltar à palavra, sistematicamente. Contudo, diz ele, o príncipe deve fazer o bem sempre que possível, e usar do mal só quando necessário. O que dá a Maquiavel a fama de amoral é essa dupla ressalva: não fazer o bem sempre, mas quando possível. Sua análise do poder, que é uma festa para a ciência, é uma preocupação para a moral - a tal ponto que em inglês um dos nomes do diabo, Old Nick, derivaria de seu prenome Nicolau.

Como controlar nosso destino, como reduzir o quinhão da fortuna? Não há questão mais atual. No penúltimo e vital capítulo do livro, o autor explica. Há dois tipos de homem, o cauteloso e o impetuoso. Certas épocas requerem cautela (rispetto), outras, impetuosidade. O ideal seria o homem adaptar-se à conjuntura. Este seria o homem prudente: na época se dizia que "o homem sábio (vir sapiens) dominará os astros", isto é, a fortuna. Isso se lê na medalha de Afonso V de Aragão. O "vir sapiens" é o homem prudente com virtù. Maquiavel exorta o príncipe: deve ser plástico, mutável, bom quando possível, mau se necessário, mas, sobretudo, cauteloso ou açodado conforme a ocasião. Se Cesar Borgia perdeu, foi porque não soube mudar quando os tempos assim o exigiram. O problema é que essa plasticidade do príncipe é quase impossível. Daí, um horizonte trágico: por mais que tentemos governar as circunstâncias, podemos perder.

Maquiavel está na origem da "ética do político", diferente da ética do cidadão privado, que FHC citava tanto na presidência da República e que foi teorizada por Weber. Mas o notável no pensador florentino é que, sabe ele, essa ética não é a dos resultados, a do sucesso. Pode resultar em fracasso - como no caso de Cesar Borgia. Nem por isso a política é menos nobre. Ser político não é só vencer. É saber fazê-lo com virtù - capacidade, ação deliberada e, também, uma certa honra. Talvez O Príncipe seja o mais belo elogio da política.

Renato Janine Ribeiro é filósofo, professor titular de ética e filosofia política da USP

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Fotaça, no El País digital

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Ique, no Jornal do Brasil (agora só na innernet)

Código de Hamurábi

44. Se alguém tomar conta de um campo que não estiver sendo usado e fizer dele terra arável, ele deverá trabalhar a terra, e no quarto ano dá-la de volta a seu proprietário, pagando por cada dez gan (uma medida de área) dez gur de cereais.
45. Se um homem arrendar sua terra por um preço fixo, e receber o preço do aluguel, mas mau tempo prejudicar a colheita, o prejuízo irá cair sobre quem trabalhou o solo.
46. Se ele não receber um preço fixo pelo aluguel de seu campo, mas alugá-lo em metade ou um terço do que colher, os cereais do campo deverá ser dividido proporcionalmente entre o proprietário e aquele que trabalhou a terra.
47. Se a pessoa que trabalhar a terra não for bem sucedida no primeiro ano, e então teve de Ter a ajuda de outros, a esta pessoa o proprietário não apresentará objeções; o campo será cultivado e ele receberá pagamento conforme o acordado.
48. Se alguém tiver um débito de empréstimo e uma tempestade prostrar os grãos ou a colheita for ruim ou os grãos não crescerem por falta d'água, naquele ano a pessoa não precisa dar ao seu credor dinheiro algum, ele devendo lavar sua tábua de débito na água e não pagar aluguel naquele ano.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A pergunta é: a gente vai se divertir?

Marcelo Mirisola, no site Congresso em Foco
Quando Lucio Costa rabiscou o cruzeiro em sua prancheta, no final dos anos 50, as idéias precisavam de concreto, pólvora, sangue, suor e lágrimas para existir. De um lado, diria o guia para escoteiros, temos o Poder Legislativo, logo ali o Judiciário e na direção oposta o Executivo. Ah, é? E aonde é que amarramos o jegue? Nos jardins suspensos da Babilônia? Sim, foi o que fez Yoani Sánches depois que o etéreo ocupou o lugar da pólvora. Para quem ainda não sabe, a blogueira é a voz mais forte e veemente da oposição cubana, mais macho que todos os machos da ilha de Fidel.

Sem exagero, a internet é a única democracia que existe de fato, inclusive nas ditaduras: transforma homens em poodles e vice-versa. Vivemos num lugar onde as coisas acontecem – efetivamente - suspensas no ar. Sob esse aspecto, hoje, não faria a menor diferença se Brasília não tivesse saído da prancheta de Lucio Costa. As idéias da poodle da Eliana (que tem blogue e também está bombando no tuíter) podem ser tão decisivas quanto a sentença daquelas antigas figuras chamadas “formadores de opinião”.

Por outro lado, a gente acha que está ligado,on line, mas é o contrário. Tá todo mundo pulverizado, perdidinho. Se você quiser estender esse desligamento ao seu respectivo lar, aos seus filhos adolescentes entediados e às dívidas que acumulou no cartão de crédito, não se acanhe. Seja bem-vindo ao século XXI.

Voltando a Brasília. Será que Brasília existe? Segundo a poodle da Eliana (ou seria a iguana da Gisele Bundchen?), de um lado temos uns tiozinhos nojentos que se locupletam e, do outro, os trouxas que votam neles e pagam suas contas. Aí, fulano vai me dizer: “A democracia tem suas falhas, porém as outras opções são catastróficas”. Também acho. Mas já que Montesquieu não serve nem para enredo de escola de samba, e já que o Stédile afinou e o Che Guevara virou Emo no filme do Waltinho Salles ... bem – já que não temos opção diferente do mundo virtual - só nos resta, como diria o Bandido da Luz Vermelha, a esculhambação.

Somente sob esse ponto de vista dá para acreditar naquele lugar que os místicos chamam de planalto central. Somente assim consigo fazer algumas associações. Como, por exemplo, juntar a poodle da Eliana com a época em que Itamar Franco governou o Brasil. Nunca me diverti tanto na vida. E eu acho, honestamente, que essa é a mistura das próximas décadas: a da esculhambação com a tecnologia.

Claro que Brasília existe. E o mais engraçado, o Brasil é o país do futuro. Só fazer as contas: 70 milhões de internautas + 510 anos de savoir-faire no quesito esculhambação = futuro aqui e agora.

Itamar Franco foi o grande profeta. Nem ele sabia. Mas ele foi o primeiro sintoma do avanço tecnológico da nossa jequice. Quem não lembra do fusca do Itamar? Naquela época, o acusaram de ressuscitar os anos 50. Na verdade, ele antecipava a esculhambação dos 00. Ninguém entendeu. Itamar abriu as portas da nossa percepção: só não tinha a Internet para escancará-las de vez. Também teve o episódio da Lílian Ramos nos camarotes da Marquês de Sapucaí. Lembram da calcinha que foi sem nunca ter sido?

Acredito que Lula vai entrar para a história porque não passou um segundo – ao longo de oito anos - sem repetir Itamar Franco. Além, é claro, de ter contado com uma grande ajuda do sobrenatural. Qualquer outro teria sucumbido ao mensalão e àquelas festas juninas na Granja do Torto. Resultado: crescimento econômico, distribuição de renda e inflação sob controle. Só o sobrenatural e nossa vocação para a esculhambação poderiam explicar esse fenômeno. Lula, sem dúvida, ocupará o trono do saudoso Itamar, o topetudo que declarou seu amor a Lílian Ramos no Jornal Nacional, criou o Real e acabou com a inflação no país – viram como a esculhambação funciona?

Pensando bem, só consigo vislumbrar um homem na República com perfil de estadista para substituir Lula, mas infelizmente deixaram esse gigante fora do pleito. O nome dele é Sérgio Mallandro. O que sobrou? O mundo virtual se imiscuindo no real. Vejam só. Os EUA perderam a oportunidade de ter um Itamar, digo, uma Sarah Palin na Casa Branca – ainda que vice de McCain. Já pensaram em Sarah Palin, com aquela cara de secretária bilíngüe de filme pornô, fazendo performances no Pole Dance para delírio & desespero dos jornalistas da Al Jazira? Guardadas as proporções, seria como se a Mulher Melancia fosse vice do Serra. Todavia, José Serra, o Nosferatu mais insosso e imprevisível da República, resolveu fazer uma aposta ainda mais arriscada e divertida: arrumou um leitor da Veja, digo, um Índio fluminense de vice – e parece que o sujeito é canibal al dente, feroz e sanguinolento. Ou seja, piada pronta e contraponto perfeito.

Talvez Serra tenha garantido um bom circo até as eleições de outubro, o que já o qualifica (se as pesquisas não conspirarem contra...) como um candidato – no mínimo - atento às forças do absurdo e da esculhambação.

Dilma? O que a gente pode esperar dela, e do seu vice? Será que o mordomo da casa assombrada, ou melhor, Michel Temer, tem potencial para Itamar? Acho que não. E ela? Qual a qualidade de Dilma para a comédia?

Em Dilma, consigo tatear uma nesga de humor no mau humor. Tem a vantagem de ser dentuça e nunca estar à vontade dentro daqueles terninhos vermelhos que escondem suas verdadeiras banhas e intenções. Dá até para antecipar as charges e paródias: a presidente acoplada a uma cinta-pinto intimidando os Ministros do STF e, ao mesmo tempo, punindo seus subalternos na base de palmatórias e chicotadas. Ia ser engraçado.

Sinceramente? Acho que só os chargistas e humoristas é que deviam votar no Brasil. A piada está lançada. Que vença o mais ridículo(a), para o bem da pátria e a felicidade do povão – que vai continuar se fodendo, é claro.

De resto, no mundo real e em Brasília, vai continuar tudo na mesma. Os eleitores conservadores podem ficar sossegados que nem a Dilma vai ser um Chávez de saias, nem Serra vai europeizar o Afro Reggae. Muito menos a Marina será eleita: o Brasil não combina com tanta seriedade, realidade e cara feia.

* Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.